A Copa do Mundo costuma revelar grandes histórias, mas poucas são tão improváveis quanto a de Deniz Undav. Hoje, aos 29 anos, o atacante vive o melhor momento de sua carreira e se transformou em uma das armas mais importantes da Alemanha no Mundial de 2026. O jogador que há pouco mais de uma década conciliava treinos com jornadas de oito horas em uma fábrica agora é responsável por decidir partidas da seleção tetracampeã mundial.
A vitória da Alemanha por 2 a 1 sobre a Costa do Marfim mostrou mais uma vez o impacto de Undav. Entrando no decorrer da partida, ele marcou os dois gols da virada e garantiu a classificação alemã para a fase eliminatória. O resultado teve um peso histórico para a seleção, que não alcançava o mata-mata de uma Copa do Mundo desde a campanha do título em 2014.
Mais impressionante ainda são os números do atacante. Em apenas duas partidas saindo do banco de reservas, Undav acumula três gols e duas assistências, participando diretamente de cinco gols da Alemanha. A marca iguala um recorde histórico estabelecido pelo lendário Roger Milla, de Camarões, em 1990, como o maior número de participações em gols de um reserva em uma Copa do Mundo desde 1966.
Mas a história de Undav vai muito além dos números.
Da rejeição no Werder Bremen ao sonho da Copa do Mundo

A trajetória do atacante poderia ter terminado muito antes de chegar ao futebol profissional.
Quando tinha apenas 14 anos, Undav recebeu uma notícia que muitos jovens jogadores considerariam devastadora. O Werder Bremen decidiu dispensá-lo, alegando que ele era pequeno demais para ter futuro no futebol de alto nível.
A rejeição abalou o jovem atacante, mas não acabou com seu sonho.
Aos 17 anos, ele deixou a casa da família para buscar oportunidades em clubes menores da Alemanha. Foi nesse período que começou uma rotina extremamente difícil. Atuando pelo Havelse, da quarta divisão alemã, o atacante recebia um salário insuficiente para se sustentar apenas com o futebol.
A solução foi trabalhar em uma fábrica operando máquinas a laser.
A rotina era exaustiva. Undav acordava por volta das quatro da manhã, passava o dia trabalhando, seguia para os treinamentos e só retornava para casa à noite. No dia seguinte, tudo começava novamente.
O próprio jogador admitiu que precisava daquele emprego simplesmente para sobreviver. O futebol ainda não era capaz de pagar suas contas.
Essa realidade faz sua situação atual ganhar ainda mais importância. Poucos jogadores presentes nesta Copa do Mundo precisaram enfrentar um caminho tão difícil para chegar ao mais alto nível do esporte.
A ascensão tardia e a explosão na seleção alemã

Depois de anos lutando por espaço, a carreira de Undav começou a mudar em 2020.
Sua transferência para o Union Saint-Gilloise, da Bélgica, representou o primeiro passo de uma ascensão meteórica. Ele ajudou o clube a conquistar o acesso e posteriormente marcou 25 gols na elite belga, chamando atenção de mercados mais competitivos.
O desempenho lhe garantiu uma transferência para o Brighton, da Premier League. Embora sua passagem pela Inglaterra não tenha sido tão impactante, com apenas cinco gols em 22 partidas, ela serviu como aprendizado.
O verdadeiro ponto de virada aconteceu após sua chegada ao Stuttgart.
Na temporada 2025/26, Undav marcou 19 gols na Bundesliga e terminou como vice-artilheiro da competição, ficando atrás apenas de Harry Kane. O desempenho obrigou Julian Nagelsmann a olhar para ele com outros olhos.
Mesmo assim, a relação entre treinador e jogador passou por momentos delicados.
Após marcar o gol da vitória contra Gana em março, Undav declarou publicamente que desejava uma vaga entre os titulares da seleção. Nagelsmann respondeu de forma direta, afirmando que o atacante estava colocando pressão desnecessária sobre si mesmo.
O treinador chegou a sugerir que talvez ele não tivesse marcado aquele gol se tivesse começado a partida como titular. Posteriormente, reconheceu que exagerou e pediu desculpas ao jogador.
Desde então, Undav respondeu da melhor forma possível: dentro de campo.
Hoje ele soma nove gols em apenas 11 jogos pela seleção alemã.
Um problema positivo para Nagelsmann

O sucesso de Undav criou uma situação interessante para a Alemanha.
Kai Havertz começou a Copa do Mundo como titular no comando do ataque, mas as atuações do atacante do Stuttgart estão tornando cada vez mais difícil justificar sua permanência absoluta na equipe principal.
Nagelsmann reconheceu isso publicamente após a vitória sobre a Costa do Marfim.
O treinador afirmou que Undav atingiu o ponto mais alto de sua carreira justamente no momento mais importante. Além disso, destacou que o atacante possui uma característica rara: a capacidade de entrar em campo sem necessidade de adaptação ao ritmo da partida.
Essa capacidade de impacto imediato explica por que ele se tornou uma arma tão perigosa.
Na última vez em que começou uma partida pela Alemanha, Undav marcou dois gols e distribuiu uma assistência na vitória por 4 a 0 sobre a Finlândia. Agora, seus números como reserva também impressionam.
O prêmio de melhor jogador da partida contra a Costa do Marfim foi apenas mais uma consequência natural do que vem produzindo.
A grande questão para os próximos jogos é se Nagelsmann continuará utilizando o atacante como uma arma vinda do banco ou se finalmente lhe dará uma oportunidade entre os titulares.
Independentemente da decisão, a Alemanha parece ter encontrado uma peça fundamental para sua caminhada na Copa do Mundo.
E talvez essa seja a parte mais impressionante da história. Depois de ser considerado pequeno demais para o futebol profissional, depois de trabalhar em uma fábrica para conseguir pagar as contas e depois de percorrer um caminho muito mais longo que a maioria dos jogadores de elite, Deniz Undav chegou ao maior palco do esporte. Hoje ele não é apenas um integrante da seleção alemã. Ele se tornou um dos protagonistas de uma equipe que sonha em conquistar o quinto título mundial de sua história.