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Copa do Mundo e mudanças climáticas: calor extremo pode alterar as datas de realização do torneio?

A Copa do Mundo se transformou no maior evento esportivo do planeta ao longo do último século. Desde a primeira edição, em 1930, o torneio cresceu em tamanho, audiência e importância econômica. Mas enquanto o futebol se expandia, outro fenômeno global também avançava silenciosamente: as mudanças climáticas. O Mundial de 2026, disputado nos Estados Unidos, Canadá e México, trouxe novamente à tona uma pergunta que até pouco tempo parecia exagerada: o verão ainda é uma época adequada para receber uma Copa do Mundo?

Os sinais se acumulam em diferentes cidades-sede. Ondas de calor, tempestades tropicais, enchentes e riscos crescentes ligados à elevação do nível do mar já fazem parte do planejamento dos organizadores. O que antes era tratado como uma variável secundária passou a ocupar o centro das preocupações logísticas e até mesmo esportivas. Mais do que uma questão ambiental, o clima começa a se tornar um fator capaz de influenciar diretamente o futuro do principal torneio da FIFA.

Uma Copa do Mundo cada vez mais quente e perigosa

Um estudo da organização Climate Central revelou que as cidades que voltaram a receber partidas de Copa do Mundo apresentam atualmente um número muito maior de dias de calor extremo em comparação com as últimas vezes em que sediaram o torneio. Miami e Cidade do México, por exemplo, registram atualmente cinco vezes mais dias extremamente quentes durante os meses de junho e julho do que nas décadas de 1970 e 1980.

O fenômeno não se limita aos locais tradicionalmente mais quentes. Cidades como Boston e Vancouver, conhecidas por climas mais amenos, também passaram a registrar mais episódios de temperaturas elevadas. Das 16 sedes da Copa do Mundo de 2026, 14 apresentaram aumento grande na frequência de dias de calor extremo nas últimas décadas.

O problema não afeta apenas jogadores. Torcedores, voluntários, trabalhadores e toda a estrutura necessária para realizar uma Copa do Mundo tornam-se mais vulneráveis em cenários de temperaturas elevadas. Pausas para hidratação já se tornaram comuns dentro de campo, enquanto fora dele cresce a necessidade de infraestrutura específica para lidar com o calor.

Nenhuma cidade simboliza melhor essa nova realidade do que Miami. Responsável por receber sete partidas, incluindo a disputa pelo terceiro lugar e uma das quartas de final, a cidade precisou transformar o combate ao calor em prioridade.

As autoridades locais criaram uma campanha chamada “Heat Is Not a Game” (“Calor não é brincadeira”), desenvolvendo uma rede de estações de hidratação e resfriamento espalhadas por diferentes pontos da cidade. O Hard Rock Stadium recebeu áreas climatizadas, kits de primeiros socorros e estruturas voltadas para atender os torcedores durante as longas filas de acesso.

Além do estádio, estações de transporte público ganharam pontos gratuitos de água e espaços de descanso. O planejamento envolve diversas secretarias municipais e considera o calor extremo como um desafio semelhante aos furacões, fenômeno com o qual a Flórida já convive há décadas.

Mais do que medidas emergenciais, Miami também investe em soluções de longo prazo. Novos materiais de construção, ampliação da cobertura vegetal e aumento do número de árvores fazem parte de um plano de adaptação climática que busca tornar a cidade mais resistente às temperaturas elevadas.

Se o aumento das temperaturas representa uma ameaça imediata, outro problema preocupa especialistas para as próximas décadas: a elevação do nível do mar. Estudos apontam que grande parte da área do Hard Rock Stadium poderá sofrer inundações ocasionais até 2070. Estacionamentos, centros de treinamento e vias de acesso estão entre as áreas mais vulneráveis. O cenário se torna ainda mais preocupante no final do século, quando quase metade das regiões analisadas poderá enfrentar riscos frequentes de alagamentos.

Nem mesmo o MetLife Stadium, em Nova Jersey, palco da final da Copa do Mundo de 2026, está imune. Projeções indicam que o avanço do nível do mar pode afetar a região nas próximas décadas, levantando questionamentos sobre a viabilidade de certas áreas costeiras como sedes de grandes eventos esportivos.

Enquanto isso, os efeitos climáticos já começam a aparecer no presente. Em Houston, por exemplo, a aproximação da tempestade tropical Arthur obrigou autoridades a prepararem barreiras contra enchentes e reforçarem os protocolos de emergência em pleno período do Mundial.

O exemplo do Catar pode se repetir

A Copa do Mundo de 2022, disputada no Catar, já havia mostrado que a FIFA está disposta a alterar calendários para escapar das temperaturas extremas. Pela primeira vez na história, o torneio foi realizado entre novembro e dezembro, fugindo do calor do verão no Oriente Médio.

O mesmo dilema deverá aparecer novamente em 2034, quando a Arábia Saudita receberá o Mundial. Durante os meses tradicionais da competição, as temperaturas em Riad podem ultrapassar os 43°C, com registros superiores aos 50°C em determinadas regiões do país.

Diante desse cenário, cresce a possibilidade de novas Copas serem disputadas fora da janela tradicional de junho e julho. Outra alternativa seria ampliar a presença do torneio no hemisfério sul, onde o inverno ocorre justamente nesse período, oferecendo condições climáticas mais favoráveis. Durante décadas, os debates sobre sedes de Copa do Mundo giraram em torno de estádios, infraestrutura e capacidade financeira. Agora, um novo elemento entra definitivamente nessa equação: o clima.

A questão deixou de ser simplesmente onde é possível organizar um Mundial e passou a incluir outra pergunta ainda mais complexa: até quando determinadas regiões do planeta conseguirão receber um evento dessa magnitude durante o verão?

Talvez a Copa do Mundo de 2026 seja lembrada não apenas pelo futebol apresentado em campo, mas também como um marco de transição. Um torneio que mostrou que as mudanças climáticas já deixaram de ser uma preocupação do futuro e se tornaram uma realidade capaz de alterar o calendário, os locais e até mesmo a própria forma como o maior espetáculo do esporte é organizado.

Se a FIFA quiser garantir que a Copa continue sendo um evento verdadeiramente global nas próximas décadas, a adaptação climática poderá se tornar tão importante quanto os estádios e os craques que entram em campo.

(Foto: Getty Images)