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Copa do Mundo depois de duas semanas: como jornalistas e fãs estão vivendo o torneio em meio à cultura estadunidense

Antes de a bola rolar, a Copa do Mundo de 2026 gerava dúvidas sobre a capacidade dos Estados Unidos de abraçar um evento que, embora gigantesco no restante do planeta, ainda ocupa um espaço secundário na cultura esportiva estadunidense.

Duas semanas depois, porém, o torneio começa a revelar uma característica curiosa: enquanto em alguns lugares o Copa do Mundo parece apenas mais um espetáculo em meio à rotina de megacidades acostumadas a receber grandes eventos, em outros se transforma em uma celebração multicultural capaz de reunir torcedores de dezenas de países. Entre estádios monumentais, chuvas torrenciais, churrascos texanos e encontros improváveis entre diferentes culturas, a Copa vai encontrando seu próprio espaço em solo norte-americano.

Entre a indiferença e a festa: a Copa do Mundo dos extremos

Uma das grandes peculiaridades da Copa nos Estados Unidos é justamente a coexistência entre entusiasmo e indiferença. Em cidades como Los Angeles, sede da partida de abertura da seleção americana, ainda é possível encontrar pessoas que sequer sabem que o torneio está acontecendo. O futebol continua sendo um esporte periférico em comparação com a força da NFL, da NBA e do beisebol.

Essa realidade contrasta com aquilo que se vê nos arredores dos estádios e nas áreas de convivência das cidades-sede. Em Boston, por exemplo, torcedores escoceses tomaram as ruas com gaitas de fole e canções tradicionais. Em Dallas, franceses e senegaleses se reuniram para assistir aos jogos em telões instalados em áreas gastronômicas. Em Toronto, alemães transformaram bares em pequenas extensões da Oktoberfest.

É uma espécie de Copa do Mundo paralela, que acontece mais entre os visitantes e comunidades de imigrantes do que propriamente entre os americanos. E talvez seja justamente aí que esteja o charme desta edição.

No final, Los Angeles oferece a sensação de que a Copa é apenas mais um evento em meio ao caos urbano. Boston, por sua vez, favorece o clima de convivência graças ao centro compacto e caminhável. Já Houston parece quase hostil para quem tenta se deslocar sem carro. A cidade texana é dominada por avenidas gigantescas, estacionamentos e bairros espalhados, dificultando a formação daquele ambiente espontâneo que normalmente caracteriza uma Copa do Mundo.

Ainda assim, existe uma hospitalidade difícil de ignorar. Taxistas, garçons e moradores transformam conversas banais em longos diálogos.O visitante acaba conhecendo um Estados Unidos que vai muito além dos estereótipos.

Os estádios transformados em naves espaciais

Outro aspecto impressionante do Mundial é a grandiosidade dos estádios estadunidenses. O SoFi Stadium, em Los Angeles, parece surgir das profundezas da terra, uma consequência da proximidade com o aeroporto local. O NRG Stadium, em Houston, exibe uma estética mais simples, mas transmite toda a personalidade prática e monumental da cidade. Já o AT&T Stadium, em Dallas, casa dos Cowboys, oferece uma experiência quase vertiginosa, com arquibancadas inclinadas e dimensões que fazem muitos estádios europeus parecerem modestos.

São arenas construídas para grandes espetáculos e que, adaptadas para o futebol, oferecem uma sensação diferente daquela encontrada nas tradicionais catedrais europeias. Menos intimidade, mais imponência.

Viajar pela Copa do Mundo também significa colecionar histórias. Sob o calor escaldante do Texas, uma simples informação equivocada pode resultar em caminhadas intermináveis ao redor de um estádio gigantesco. Em Houston, tempestades repentinas transformaram deslocamentos em verdadeiras missões de sobrevivência. Em um dos episódios mais curiosos, um segurança entregou discretamente um poncho para um jornalista encharcado pela chuva torrencial, em um gesto quase cinematográfico.

A segurança nos estádios também impressiona. Em alguns momentos, o nível de rigor lembra uma operação militar. Um simples problema com o tipo de mochila permitida pode desencadear comunicações por rádio e protocolos dignos de filmes de ação. São pequenos inconvenientes que acabam se transformando em parte da memória afetiva de qualquer Copa do Mundo.

A força da diversidade estadunidense

Se o Catar ofereceu instalações modernas, mas pouca espontaneidade cultural, os Estados Unidos apresentam justamente o contrário. Nenhum outro país reúne tantas comunidades diferentes espalhadas por tantas regiões distintas. Em cada cidade existe uma diáspora pronta para receber sua seleção. Holandeses transformaram Houston em uma mancha laranja. Argentinos dominaram Kansas City. Escoceses coloriram Boston. Senegaleses e franceses dividiram espaços em Dallas.

Essa diversidade faz com que a Copa encontre uma base já pronta para florescer. Não é preciso criar artificialmente uma atmosfera internacional. Ela já existe, e isso talvez seja o grande trunfo desta edição.

A relação entre Estados Unidos e futebol ainda é peculiar. Em muitos lugares, o esporte continua distante da cultura popular. Mas a Copa do Mundo parece funcionar como um grande catalisador de encontros.

Nem todos entendem as regras do jogo. Nem todos sabem quem são os favoritos. Mas muitos se encantam pela festa, pelas bandeiras, pelos sotaques e pela oportunidade de conviver com pessoas vindas dos quatro cantos do planeta.

Talvez o futebol ainda não tenha conquistado definitivamente os Estados Unidos. Mas a Copa do Mundo, aos poucos, vai conquistando os americanos. Existe algo de simbólico nisso. Em um país construído pela imigração e pela mistura de culturas, poucos eventos conseguem representar tão bem essa diversidade quanto um Mundial. Afinal, em uma época marcada por divisões políticas e sociais, a maior competição do planeta continua provando que, por algumas semanas, torcedores de diferentes nacionalidades podem compartilhar a mesma cidade, o mesmo bar e, principalmente, as mesmas emoções.

Se a paz mundial é uma utopia, como brincou uma motorista de táxi em Dallas após passar o dia transportando ingleses, escoceses e argentinos, talvez a Copa do Mundo seja uma das raras ocasiões em que ela parece um pouco menos impossível.

(Foto: Getty Images)