A campanha da seleção da Espanha na fase de grupos da Copa do Mundo de 2026 teve uma grande particularidade em relação ao desempenho e colocação. Embora a La Roja tenha liderado o Grupo H com folga e mantido a invencibilidade rumo aos 16 avos de final, as atuações despertaram a atenção na comissão técnica de Luis de la Fuente. O maior desconforto aconteceu no Estádio Akron, em Guadalajara, onde a Espanha venceu o Uruguai por 1 a 0 em uma partida morna e arrastada.
O desinteresse do público era tão grande que, nos minutos finais, parte das 50 mil pessoas presentes preferiu sintonizar os celulares e cantar em apoio a Cabo Verde, que estava enfrentando a Arábia Saudita, do que prestar atenção ao jogo. O gol isolado, graças a falha do goleiro Muslera em um chute de Álex Baena, não conseguiu mascarar o futebol apresentado. Para a seleção da Espanha, que desembarcou na América do Norte como uma das favoritas pelo título da Copa do Mundo, o desempenho ofensivo trouxe de volta antigos traumas que o torcedor espanhol acreditava que estavam superados.
A perda da verticalidade ofensiva
O grande temor que ronda a delegação da Espanha é o retorno involuntário ao modelo de jogo engessado que marcou o declínio pós-geração de ouro. Entre 2008 e 2012, a Espanha foi uma das melhores seleções do mundo e revolucionou o esporte com o tiki-taka, sustentado com Xavi, Iniesta e Busquets. Porém, os espanhóis tiveram dificuldade nos anos seguintes com essa proposta de jogo, virando apenas um jogo de posição com passes lentos e previsíveis, acarretando nas más campanhas das Copas do Mundo de 2018 e 2022. Nas eliminações contra Rússia e Marrocos, a equipe registrou um elevado número de passes, mas só marcou um gol, caindo nas oitavas de final e nos pênaltis e ambas edições.
Esse ritmo de jogo engessado foi superado em 2024. De la Fuente oxigenou a seleção ao conseguir colocar velocidade e imprevisibilidade nas pontas através de Lamine Yamal e Nico Williams. A Espanha manteve o controle estrutural do jogo, mas passou a agredir os adversários em velocidade, destruindo linhas defensivas em duelos de um contra um. O título da Eurocopa de 2024 contra a Inglaterra foi a prova de que a La Roja havia se transformado em uma potência. O problema é que essa engrenagem ruiu fisicamente justamente durante a Copa do Mundo.
O impacto do departamento médico
A perda de incisividade e o retorno aos passes laterais burocráticos nesta edição não acontecem de uma mudança de filosofia do time, mas sim do desgaste de suas principais peças. A engrenagem ofensiva de De la Fuente teve problemas físicos. Lamine Yamal, que carrega o peso de ser o principal jogador da equipe, chegou ao torneio no limite após tratar uma lesão na coxa na reta final da temporada europeia. Embora tenha disputado as três partidas da fase de grupos e feito gol contra a Arábia Saudita, o jogador do Barcelona demonstrou clara falta de ritmo e hesitação nas arrancadas diante do Uruguai.
Não é só o caso de Yamal exige cautela, visto que o restante do departamento médico também necessita. Nico Williams fez apenas aparições discretas vindo do banco e foi visto mancando na zona mista do Estádio Akron, claramente sentindo dores. Yéremy Pino deixou o gramado com o braço imobilizado por uma tipoia e teve uma fratura na clavícula confirmada pelo treinador. Víctor Muñoz segue sem estrear devido a uma lesão muscular, enquanto Fermín López foi cortado antes do torneio. Sem alas saudáveis capazes de aumentar a amplitude do time, a Espanha foi obrigada a reter a bola por mais tempo no centro de campo, abusando de posses de bola improdutivas.
Boa eficiência defensiva da seleção da Espanha
Em contrapartida, a Espanha apresentou uma boa sua consistência defensiva, justificando o sonho do bicampeonato. Os espanhóis encerraram a fase de grupos sem sofrer um único gol. O sistema de pressão pós-perda limitou Cabo Verde, Arábia Saudita e Uruguai a um combinado de apenas 0,54 de gols esperados, permitindo somente três finalizações em direção ao gol defendido por Unai Simón.
Vencer jogando de forma pragmática encontra respaldo na própria história do futebol espanhol. A campanha de 2010 foi pavimentada por quatro vitórias consecutivas por 1 a 0 na fase eliminatória. Para as oitavas de final contra a Áustria, De la Fuente precisará acionar alternativas para furar blocos baixos. Escalar Dani Olmo centralizado, atuando nas costas dos volantes adversários, pode devolver a criatividade do time em espaços reduzidos. Outro ponto de virada reside na maior utilização de Oyarzabal, que ostenta a expressiva marca de 22 participações diretas em gols nos seus últimos 16 jogos pela seleção da Espanha, oferecendo uma presença de área muito mais móvel do que o posicionamento apresentado nos primeiros jogos.
Créditos da foto de capa: Ulises Ruiz / AFP