Brazil v Japan: Round Of 32 - FIFA World Cup 2026
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Brasil convence pelos resultados, não pelo brilho: por que a Seleção segue viva na Copa do Mundo mesmo sem encantar

O Brasil está nas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026, mas o debate sobre o desempenho da equipe continua longe de um consenso. A vitória por 2 a 1 sobre o Japão, conquistada de virada nos minutos finais, garantiu a classificação da Seleção, mas também reforçou uma discussão que acompanha o futebol brasileiro há mais de duas décadas: afinal, o Brasil ainda corresponde à imagem construída ao longo de sua história?

Pentacampeã mundial e tradicional referência do chamado “futebol arte”, a Seleção segue carregando um peso que nenhuma outra equipe enfrenta. Não basta vencer. Para muitos, o Brasil precisa convencer, dominar e encantar. No entanto, a equipe comandada por Carlo Ancelotti mostrou, diante dos japoneses, que talvez o caminho para o sucesso não passe necessariamente por um futebol exuberante, mas pela capacidade de competir, superar dificuldades e encontrar soluções durante os jogos.

A classificação diante do Japão simbolizou exatamente essa mudança de perfil. A atuação esteve longe da perfeição, mas mostrou uma equipe capaz de reagir sob pressão, característica que historicamente marcou grandes campanhas brasileiras em Copas do Mundo.

O peso da camisa brasileira continua sendo maior que o desempenho

Brasil x Japão

Poucas seleções convivem com uma cobrança tão intensa quanto o Brasil. Desde o último título mundial, conquistado em 2002, cada geração foi comparada às equipes de Pelé, Zico, Romário, Ronaldo, Rivaldo ou Ronaldinho Gaúcho. A consequência é uma expectativa praticamente impossível de ser alcançada.

O atual elenco também enfrenta esse cenário. Apesar da enorme qualidade técnica, o time apresenta algumas limitações que ficaram evidentes durante a competição.

O meio-campo, por exemplo, alterna bons momentos com dificuldades na criação de jogadas. Em determinados trechos das partidas, a equipe perde intensidade e permite que os adversários encontrem espaços entre as linhas.

No ataque, embora disponha de jogadores talentosos como Vinicius Júnior, Gabriel Martinelli, Endrick e Bruno Guimarães chegando de trás, a conexão entre os setores ainda não acontece de forma totalmente natural.

Essas limitações ficaram claras contra o Japão.

Mesmo controlando boa parte da partida, o Brasil saiu atrás no placar após um belo gol de Kaishu Sano. O dado mais curioso é que o lance praticamente contrariava tudo o que havia acontecido até então.

Na primeira etapa, a Seleção completou 224 passes no campo ofensivo, enquanto o Japão terminou toda a partida com apenas 166 passes certos. Além disso, os japoneses tiveram apenas cerca de 25% da posse de bola durante boa parte do primeiro tempo, sendo obrigados a recorrer constantemente aos lançamentos longos para escapar da forte pressão brasileira.

Ainda assim, bastou uma recuperação de bola no meio-campo para Sano atravessar praticamente sem marcação o setor central brasileiro e marcar seu primeiro gol pela seleção japonesa.

Foi um retrato perfeito do momento da equipe: superior durante grande parte do jogo, mas vulnerável em momentos específicos.

Ancelotti mostra que experiência também vence jogos

carlo ancelotti brasil
Foto: Fifa via Getty Images

Se o desempenho coletivo ainda gera dúvidas, o trabalho de Carlo Ancelotti começa a apresentar sinais cada vez mais positivos.

Muito questionado antes da Copa do Mundo por causa dos resultados irregulares nas Eliminatórias e por algumas escolhas consideradas polêmicas, como a manutenção de Neymar entre os convocados e a confiança em jogadores experientes, o treinador italiano respondeu justamente durante a partida mais complicada da Seleção até aqui.

No intervalo, promoveu a entrada de Endrick no lugar de Lucas Paquetá. A mudança aumentou a intensidade da pressão brasileira sobre a saída de bola japonesa.

Outra decisão importante foi manter Casemiro em campo, mesmo após o volante participar negativamente do lance do gol adversário. Muitos defendiam que o jogador deveria perder espaço após atuações abaixo do esperado nas últimas semanas.

Ancelotti, porém, manteve sua confiança.

A resposta veio rapidamente.

Primeiro, Casemiro quase empatou com uma cabeçada que passou muito perto da linha do gol. Poucos minutos depois, apareceu novamente na área para completar um cruzamento de Gabriel Magalhães e marcar o gol de empate.

Já nos minutos finais, outra substituição mostrou o peso da leitura do treinador.

Gabriel Martinelli, que normalmente atua como ponta esquerda no Arsenal, desempenhou uma função diferente na Seleção, jogando mais por dentro, quase como um meio-campista pela esquerda. A estratégia confundiu a marcação japonesa.

Foi justamente dessa movimentação que nasceu o gol da vitória. Bruno Guimarães encontrou um passe preciso para Martinelli, que apareceu nas costas da defesa e marcou aos 95 minutos, garantindo a classificação brasileira.

O gol entrou para a história como o mais tardio das fases eliminatórias da Copa do Mundo desde 1966.

A classificação pode valer mais do que o desempenho

Casemiro Brasil
Getty Images

Existe um aspecto que costuma separar equipes campeãs das demais: a capacidade de vencer mesmo quando não jogam seu melhor futebol.

Foi exatamente isso que o Brasil conseguiu diante do Japão.

Pela primeira vez desde a campanha do pentacampeonato, em 2002, a Seleção conseguiu virar uma partida em uma fase eliminatória da Copa do Mundo. A coincidência naturalmente alimenta o otimismo dos torcedores, embora ainda seja cedo para estabelecer qualquer comparação entre as duas campanhas.

Outro fator importante é o ambiente interno.

Após a classificação, os jogadores demonstraram confiança no trabalho realizado. Gabriel Martinelli afirmou que a equipe lutará até o fim e deixará tudo em campo. Já Carlo Ancelotti destacou que o grupo está no caminho certo, mas reconheceu que ainda precisa evoluir.

Essa consciência talvez seja um dos principais pontos positivos do atual Brasil.

A equipe sabe que ainda não apresenta o futebol dominante que fez a Seleção se tornar uma referência mundial durante décadas. Ao mesmo tempo, também demonstra maturidade para compreender que, em uma Copa do Mundo, nem sempre vence quem joga melhor, mas quem consegue superar momentos de sofrimento.

Foi exatamente essa a mensagem deixada por Ancelotti após a partida. Para o treinador italiano, sofrer faz parte do futebol moderno. O importante é encontrar maneiras de transformar esse sofrimento em classificação.

O Brasil ainda está distante da versão idealizada que o mundo espera da Seleção. No entanto, enquanto continuar encontrando soluções para vencer jogos difíceis e permanecer vivo na competição, a falta de brilho ficará em segundo plano. Afinal, a história das Copas mostra que muitas campanhas campeãs começaram justamente assim: cercadas de dúvidas, mas construídas com resiliência, eficiência e capacidade de decidir nos momentos mais importantes.

(Foto de capa: by Lars Baron/Getty Images)

 

 

 

 

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Kaique