Futebol Copa do Mundo

Impressões: Vitória do Marrocos sobre a Holanda não pode ser tratada com surpresa

A eliminação da Holanda para o Marrocos não pode ser lida apenas como uma zebra de Copa do Mundo. Pelo contrário. Quem assistiu ao jogo com atenção viu uma seleção marroquina madura, corajosa, muito bem organizada e, acima de tudo, dona de uma identidade coletiva cada vez mais clara. O placar de 1 a 1 pode até sugerir equilíbrio extremo, especialmente pela decisão nos pênaltis, vencida por 3 a 2 pelos africanos, mas a impressão deixada pela partida foi bem diferente. O Marrocos foi superior durante grande parte do tempo, controlou melhor o ritmo do jogo e fez a Holanda parecer uma equipe limitada, previsível e incapaz de se impor no momento em que precisava confirmar o favoritismo.

A Holanda saiu na frente com Cody Gakpo, em um daqueles lances que fazem parte do repertório de grandes jogadores e de seleções acostumadas a competir em alto nível. O gol poderia ter mudado completamente a história da partida e dado aos holandeses tranquilidade, controle emocional e espaço para administrar o jogo. Mas não foi isso que aconteceu. O tento apenas mascarou, por alguns minutos, uma realidade que já estava evidente desde o início: o Marrocos jogava melhor, circulava mais a bola e tinha melhores ideias para construir.

Desde os primeiros movimentos, a seleção marroquina mostrou uma personalidade impressionante. Não se intimidou pela camisa da Holanda, tampouco recuou em excesso e nem aceitou o papel de coadjuvante. Pelo contrário, tomou a bola, o meio-campo e conta da atmosfera do jogo. Bouaddi foi um dos símbolos dessa postura. Com uma atuação muito madura, controlou o setor central, deu fluidez à posse e ajudou o Marrocos a jogar de pé em pé, com paciência, aproximação e qualidade técnica. A Holanda, que teoricamente deveria ser a seleção mais confortável com a bola, foi obrigada a correr atrás dela.

Esse talvez seja o ponto mais marcante do jogo. O Marrocos não venceu apenas pela entrega, organização defensiva ou capacidade de competir, características normalmente associadas a seleções que surpreendem gigantes em Copas do Mundo. A Seleção Marroquina venceu porque jogou futebol, teve meio-campo e circulação. A equipe africana soube associar, criar superioridades, atrair a marcação e encontrar caminhos por dentro e pelos lados. É uma equipe que consegue controlar a posse sem ser estéril e que, quando precisa baixar linhas e sofrer, também entende como se defender sem entrar em desespero.

Holanda sem respostas e um Marrocos com controle emocional

Hakimi foi outro personagem central dessa superioridade marroquina. Com liberdade para circular entre defesa e ataque, apareceu como uma espécie de motor criativo da equipe. Não ficou preso apenas ao corredor, não foi só um lateral de ultrapassagem e cruzamento. Participou da construção, acelerou quando encontrou espaço e deu ao Marrocos uma presença constante no campo ofensivo. Ao lado de Ounahi, que também fez uma partida de muita qualidade, ajudou a dar ao time uma dinâmica que a Holanda simplesmente não conseguiu acompanhar.

O mais preocupante para os holandeses é que os problemas apresentados não foram pontuais. A falta de consistência no meio-campo pesou demais. A equipe não conseguiu controlar a posse, não conseguiu progredir com naturalidade e, em muitos momentos, pareceu recorrer a ligações diretas mais por falta de repertório do que por estratégia. O ataque ficou dependente de tramas pela direita, especialmente com Dumfries e Summerville, mas isso foi pouco. Muito pouco para uma seleção que chegava colocada em uma segunda prateleira de favoritas ao título, logo abaixo das grandes potências, mas ainda com expectativa real de ir longe.

A Holanda teve dificuldades para criar, acelerar por dentro e sustentar pressão. Não conseguia respirar com a bola, se perdia nos momentos de agredir com organização e quando precisava defender a área, voltou a mostrar uma fragilidade que já parecia anunciada, o jogo aéreo. O empate marroquino, com uma bela cabeçada de Issa Diop na reta final do tempo normal, foi a punição para um problema que não foi resolvido. Em jogo eliminatório, detalhes desse tipo cobram um preço enorme.

Ainda assim, é preciso dizer que se a Holanda chegou viva até os pênaltis, muito disso passa pela atuação de Verbruggen. O goleiro viveu uma noite inspiradíssima e foi responsável por impedir que o Marrocos resolvesse a partida antes. Fez defesas importantes, sustentou a equipe em momentos de pressão e evitou que a superioridade marroquina se transformasse em vantagem no placar durante o tempo normal. Em uma análise fria, a Holanda sofreu mais do que criou. E só não foi pior porque seu goleiro foi o melhor jogador da equipe.

A decisão por pênaltis, portanto, teve um tom quase simbólico. A Holanda, que passou boa parte do jogo sem encontrar controle, terminou eliminada justamente em um momento de tensão máxima. O Marrocos, por sua vez, confirmou a força mental de uma seleção que já vinha mostrando maturidade ao longo da partida. Vencer por 3 a 2 nos pênaltis, depois de buscar o empate na reta final e estar o tempo todo atrás nas penalidades, mostra mais do que competência técnica, apresenta convicção, caráter competitivo e confiança coletiva.

Marrocos é realidade

Marrocos celebra vitória sobre a Holanda
Marrocos celebra vitória sobre a Holanda (Imagem: Reuters)

A grande impressão deixada pelo jogo é que o Marrocos já passou da fase de ser tratado como uma surpresa simpática. É uma seleção forte, bem treinada, tecnicamente interessante e taticamente muito segura. Tem jogadores capazes de controlar a bola, defender com disciplina e competir contra qualquer adversário sem abrir mão de sua proposta. A Holanda, por outro lado, cai deixando a sensação de que tinha nomes, tradição e expectativa, mas não tinha engrenagem suficiente para sustentar uma campanha de título.

No fim, não foi apenas uma classificação marroquina. Foi uma afirmação. O Marrocos mostrou que pode jogar contra uma seleção tradicional sem se esconder, sem depender apenas de transição ou milagre defensivo, algo que já tinha apresentado contra o Brasil. Mostrou que sabe sofrer, mas também sabe mandar. E a Holanda, que entrou em campo com status de favorita, saiu da Copa exposta por uma equipe que entendeu melhor o jogo, competiu mais e mereceu seguir adiante.

(Imagens de capa: Getty Images)