A seleção de Senegal voltou a viver um dos capítulos mais dolorosos de sua história recente. Depois de construir uma campanha competitiva na Copa do Mundo de 2026 e abrir dois gols de vantagem sobre a Bélgica nos 16 avos de final, os Leões de Teranga sofreram uma virada histórica nos minutos finais, foram eliminados por 3 a 2 e deixaram o torneio cercados por polêmicas envolvendo o VAR. Para muitos torcedores senegaleses, a sensação foi de reviver um roteiro conhecido, já que poucos meses antes a equipe também havia visto o sonho do título da Copa Africana de Nações terminar de maneira extremamente controversa.
A derrota para a Bélgica não chamou atenção apenas pelo placar, mas pela forma como aconteceu. Senegal dominou boa parte do confronto, parecia ter a classificação encaminhada e chegou aos minutos finais vencendo por 2 a 0. No entanto, uma sequência de erros, a reação belga e uma nova decisão polêmica da arbitragem mudaram completamente o destino da partida.
O resultado aumentou ainda mais a sensação de frustração em torno de uma geração que continua produzindo grandes jogadores, mas que novamente viu um torneio importante escapar de forma dramática.
Uma atuação dominante que terminou em uma virada histórica

Durante grande parte da partida, Senegal mostrou um futebol que justificava sua presença entre as seleções mais competitivas da África.
A equipe comandada por Pape Thiaw controlava as ações e aproveitou bem suas oportunidades para abrir dois gols de vantagem. Habib Diarra marcou o primeiro, enquanto Ismaila Sarr ampliou com um dos gols mais bonitos da Copa do Mundo. O atacante do Crystal Palace dominou um lançamento longo com o peito e finalizou com força, sem chances para Thibaut Courtois.
Além da beleza do lance, o gol colocou Sarr ao lado de Roger Milla como o maior artilheiro africano em Copas do Mundo, ambos com quatro gols marcados.
Até os 86 minutos, a classificação parecia encaminhada.
Foi então que a Bélgica iniciou uma reação improvável.
Romelu Lukaku diminuiu a vantagem e devolveu esperança aos europeus. Pouco tempo depois, Youri Tielemans empatou a partida após uma falha do goleiro Mory Diaw, que saiu mal para tentar interceptar um cruzamento.
A igualdade levou o confronto à prorrogação e manteve viva a pressão sobre uma seleção senegalesa que já demonstrava sinais de desgaste físico e emocional.
O golpe definitivo veio nos últimos minutos.
Após nova intervenção do VAR, o árbitro marcou pênalti para a Bélgica ao interpretar que Lamine Camara atingiu o calcanhar de Tielemans dentro da área.
O próprio meio-campista converteu a cobrança e decretou uma das viradas mais impressionantes da história das Copas do Mundo. Nunca uma seleção havia conseguido reverter uma desvantagem de dois gols tão tarde em uma partida e ainda sair vencedora.
O VAR volta a perseguir Senegal
Se a forma da eliminação já foi dolorosa, o contexto tornou tudo ainda mais pesado para os senegaleses.
A decisão do VAR imediatamente fez muitos lembrarem da final da Copa Africana de Nações disputada poucos meses antes.
Naquela ocasião, Senegal também viveu um roteiro extremamente polêmico.
Primeiro, Ismaila Sarr teve um gol anulado por uma falta considerada bastante discutível pela arbitragem. Nos minutos finais, o VAR voltou a entrar em ação para marcar um pênalti a favor de Marrocos.
Embora Brahim Díaz tenha desperdiçado a cobrança, Senegal venceu a partida na prorrogação e comemorou o título dentro de campo.
Entretanto, a alegria durou pouco.
Dois meses depois, a Confederação Africana de Futebol retirou oficialmente o título da seleção, decisão que ainda é contestada na Corte Arbitral do Esporte.
Por isso, quando o árbitro voltou a marcar um pênalti decisivo após revisão em vídeo contra a Bélgica, o sentimento entre jogadores e torcedores foi de que a história estava se repetindo.
Após a partida, Pape Thiaw afirmou que sua interpretação era de que não houve infração.
Mesmo discordando da decisão, o treinador evitou aumentar a polêmica e declarou que era necessário aceitar o resultado.
Críticas ao treinador aumentam após nova frustração
A eliminação também provocou questionamentos sobre as decisões tomadas por Pape Thiaw durante a partida.
Enquanto Senegal controlava o meio-campo, algumas substituições acabaram sendo bastante criticadas pelos torcedores.
A saída de Pape Gueye, um dos jogadores mais consistentes da equipe até aquele momento, gerou muitas reclamações.
O meio-campista do Villarreal, eleito recentemente o melhor jogador africano da La Liga, acabou anunciando após a eliminação que fará uma pausa na seleção enquanto Thiaw permanecer no comando técnico.
Outra mudança bastante debatida foi a substituição de Iliman Ndiaye, atacante do Everton, em um momento em que Senegal ainda buscava manter sua intensidade ofensiva.
Para parte da torcida, as alterações fizeram a equipe perder o controle da partida justamente quando a Bélgica aumentava sua pressão.
O próprio treinador reconheceu que, após sofrer o primeiro gol, Senegal recuou excessivamente e acabou permitindo o crescimento do adversário.
Uma geração talentosa que continua buscando sua grande conquista

Apesar da eliminação, Senegal deixa a Copa do Mundo com algumas atuações que reforçam o potencial desta geração.
Jogadores como Ismaila Sarr, Habib Diarra, Lamine Camara e Pape Gueye mostraram qualidade suficiente para competir contra seleções tradicionais.
O problema é que, mais uma vez, detalhes acabaram definindo o destino da equipe.
Em poucos meses, Senegal viveu duas enormes decepções marcadas por decisões de arbitragem, intervenções do VAR e desfechos extremamente dramáticos.
A sensação de injustiça acompanha jogadores, comissão técnica e torcedores, principalmente porque, tanto na Copa Africana quanto na Copa do Mundo, a equipe esteve muito próxima de alcançar um resultado histórico.
Agora, o desafio será transformar essas frustrações em aprendizado.
A base da seleção continua forte, diversos atletas vivem grande momento no futebol europeu e o talento individual permanece evidente. Porém, para que essa geração finalmente conquiste o espaço que muitos acreditam merecer no cenário internacional, será necessário superar não apenas os adversários dentro de campo, mas também o peso emocional deixado por eliminações que parecem cada vez mais difíceis de esquecer.
(Foto: de capa Cole Burston / AFP)