França, Copa do Mundo 2026. Foto: Dylan Martínez/Reuters.
Futebol Copa do Mundo

Por que a França de Deschamps é a principal favorita ao título da Copa do Mundo

A França chegou à Copa do Mundo cercada de expectativas, mas poucos imaginavam um desempenho tão dominante. Em quatro partidas, foram 13 gols marcados, atuações convincentes e a sensação de que os Bleus encontraram o equilíbrio perfeito entre organização tática e criatividade.

Muito desse cenário passa por Didier Deschamps. Conhecido ao longo da carreira por montar equipes pragmáticas, o treinador surpreendeu ao dar mais liberdade ao setor ofensivo. O resultado é uma seleção que encanta sem abrir mão da competitividade.

Após a goleada sobre a Suécia, Deschamps resumiu a filosofia do trio formado por Kylian Mbappé, Michael Olise e Ousmane Dembélé com uma frase que rapidamente ganhou repercussão: “Eles falam a mesma língua do futebol.”

A liberdade que transformou o ataque francês

Copa do Mundo - ataque da França
Foto: Mauro Pimentel/AFP

 

Nos treinamentos em Boston, onde a França preparou sua campanha, os atacantes receberam uma orientação simples: confiar no próprio instinto.

Pode parecer uma mudança de postura para um treinador conhecido pelo rigor tático, mas a aposta deu resultado.

Mbappé, Dembélé e Olise atuam com enorme liberdade para trocar posições, atacar espaços e construir jogadas sem uma estrutura engessada. Em vez de limitar seus movimentos, Deschamps passou a potencializar as características individuais de cada um.

A sintonia é evidente. Michael Olise tornou-se o principal garçom da Copa, com cinco assistências, liderando o ranking do torneio à frente de Bruno Guimarães e Florian Wirtz. Dembélé vive uma das melhores fases da carreira, enquanto Mbappé continua sendo o grande finalizador da equipe.

Mais do que números, o trio transmite a impressão de que sempre sabe onde o companheiro estará.

A França que encanta como poucas na história

Mbappé - França
Créditos da foto: Getty Images.

 

Não é exagero dizer que a seleção francesa já desperta comparações com algumas das equipes mais marcantes da história das Copas do Mundo.

Além da eficiência, há um futebol ofensivo que conquista até torcedores neutros — característica rara em seleções campeãs.

Se a Alemanha de 2014 impressionava pela força coletiva e o Brasil de 1994 pela consistência defensiva, esta França chama atenção pelo repertório ofensivo.

As comparações passam por equipes como Holanda de 1974, Brasil de 1982 e França de 1982 — seleções lembradas pelo espetáculo, ainda que nem todas tenham conquistado o título.

A diferença é que este elenco carrega uma vantagem importante: sabe o que é vencer. Deschamps e Mbappé já conquistaram a Copa do Mundo em 2018, o que torna o grupo menos vulnerável à ansiedade dos grandes momentos.

Ainda é cedo para colocá-lo na mesma prateleira do Brasil de 1970, mas o potencial existe.

O “anti-Deschamps”

dembele deschamps frança
Foto: Getty Images

 

Curiosamente, a melhor versão da França talvez seja justamente aquela que menos lembra os antigos times de Didier Deschamps.

Durante anos, o treinador foi criticado por priorizar a solidez defensiva e controlar riscos em excesso, mesmo tendo à disposição alguns dos jogadores mais talentosos do planeta.

Agora, o cenário mudou. O tradicional 4-2-3-1 rígido deu lugar a uma equipe muito mais dinâmica. Os atacantes trocam constantemente de posição, enquanto o sistema ofensivo privilegia movimentação, improviso e criatividade.

Ainda existe organização defensiva, mas ela serve como plataforma para liberar o talento dos homens de frente.

É um pragmatismo diferente: em vez de controlar o jogo pela cautela, Deschamps passou a confiar que seus melhores jogadores decidirão naturalmente.

Michael Olise é o cérebro da equipe

Olise frança Copa
Foto: FIFA

 

Se Mbappé continua sendo a estrela principal, Michael Olise se consolidou como o cérebro da seleção francesa.

Seus passes entre linhas desmontam defesas inteiras e aceleram a circulação ofensiva da equipe. Não por acaso, muitos dentro da comissão técnica acreditam que ele atravessa o melhor momento da carreira.

Há quem defina o meia do Bayern de Munique como um jogador que “atua como se estivesse cumprindo seu destino”.

A liberdade criativa também beneficia Dembélé, Bradley Barcola e Désiré Doué, jogadores acostumados a sistemas mais rígidos em seus clubes.

Até Mbappé parece renovado. Depois de uma temporada turbulenta no Real Madrid, voltou a demonstrar intensidade sem bola. Os números mostram que o atacante pressiona muito mais do que fazia no clube espanhol, reflexo de um ambiente em que se sente mais confortável.

Nem tudo é perfeito

Apesar do brilho ofensivo, a França ainda apresenta pontos vulneráveis. O meio-campo formado por Adrien Rabiot e Aurélien Tchouaméni oferece intensidade, mas pode sofrer diante de seleções que controlam melhor a posse de bola.

As bolas paradas também seguem como motivo de atenção, principalmente em cruzamentos direcionados ao segundo poste.

Deschamps, inclusive, faz questão de manter os pés no chão.

“Nem tudo precisa ser cor-de-rosa. Não devemos nos empolgar.”

A cautela faz sentido. Se a França parece favorita contra praticamente qualquer adversário, um eventual confronto diante da Espanha pode testar justamente a principal fragilidade da equipe: o controle do meio-campo.

Mais adiante, a possibilidade de reencontrar a Argentina também adicionaria um enorme componente emocional, quatro anos depois da histórica final da Copa de 2022.

A principal favorita

Por enquanto, porém, poucas seleções conseguem acompanhar o ritmo imposto pelos franceses. A combinação entre organização coletiva, liberdade ofensiva e talento individual transformou a França na equipe mais convincente desta Copa do Mundo.

Ainda faltam etapas importantes até o título, mas, se mantiver o nível apresentado até aqui, Deschamps poderá deixar o torneio não apenas como um campeão, mas como o treinador que reinventou a melhor geração do futebol francês.

Créditos da foto de capa: Dylan Martinez/Reuters