Michael Olise chegou à Copa do Mundo como um dos principais jogadores da França e vive uma fase que parecia distante quando foi dispensado por grandes clubes ingleses ainda nas categorias de base. Aos 24 anos, o atacante do Bayern de Munique reúne números de estrela mundial, tornou-se uma das principais armas ofensivas da seleção francesa e já começa a aparecer em discussões sobre a Bola de Ouro.
Sua história chama atenção não apenas pelo que faz dentro de campo. Olise construiu uma carreira diferente da maioria dos grandes nomes do futebol. Ele evita entrevistas, quase não comemora gols, tenta fugir das grandes celebrações e não possui contrato com nenhuma empresa de material esportivo ou fornecedora de chuteiras. Mesmo com uma personalidade reservada, tornou-se impossível ignorar seu desempenho.
Na atual Copa do Mundo, o francês chegou às oitavas de final contra o Paraguai com cinco assistências. Nenhum jogador havia alcançado essa marca em uma única edição do torneio desde o alemão Thomas Hassler, em 1994.
Olise também está a apenas uma assistência do recorde de Pelé, que distribuiu seis passes para gol em uma Copa.
Essa participação na seleção é consequência de uma evolução impressionante. Nas últimas duas temporadas pelo Bayern, o atacante acumulou 88 participações diretas em gols. Primeiro, registrou 17 gols e 18 assistências. Na temporada seguinte, elevou os números para 25 gols e 28 assistências.
São 42 gols e 46 assistências em apenas dois anos. Os números ajudam a entender por que um jogador que sempre tentou evitar os holofotes agora está no centro deles.
Das dispensas na Inglaterra ao crescimento no Reading

A trajetória de Olise poderia ter sido muito diferente.
Nascido em Londres, filho de mãe franco argelina e pai nigeriano, ele se destacou desde a infância. Professores que acompanharam seus primeiros passos no esporte perceberam rapidamente que havia algo especial em seu talento.
Olise não se destacava apenas no futebol. Era capaz de apresentar alto nível em praticamente todas as modalidades que praticava. Ao mesmo tempo, algumas características que continuam presentes em sua personalidade já podiam ser percebidas.
Ele era quieto, tímido e não gostava de chamar atenção. Marcava gols, dava assistências e voltava rapidamente para o jogo sem comemorar. Para quem o conheceu naquela época, seu comportamento atual não representa uma estratégia para construir uma imagem diferente. Olise simplesmente continua agindo da mesma maneira.
Seu caminho no futebol de base teve obstáculos importantes. Depois de uma breve passagem pelo Arsenal, permaneceu durante sete anos na formação do Chelsea. Aos 14 anos, foi dispensado. Em seguida, passou pelo Manchester City e também não permaneceu.
As duas rejeições afetaram sua confiança.
Quando o Reading decidiu contratá-lo, em 2018, a mãe do jogador pediu algumas semanas para que o filho trabalhasse com um mentor antes de iniciar a nova etapa. A intenção era reconstruir emocionalmente um jovem que havia sido liberado por dois dos clubes mais poderosos da Inglaterra.
O Reading decidiu apostar em seu talento.
A decisão mudou a carreira de Olise. Ele estreou profissionalmente em março de 2019, contra o Leeds, aos 17 anos. Ao longo de três temporadas, disputou 73 partidas e marcou sete gols.
Foi também durante esse período que a França entrou em sua vida internacional.
Olise poderia defender quatro seleções. A Inglaterra era uma possibilidade por seu nascimento e criação no país. Nigéria e Argélia faziam parte de sua história familiar. A França também estava disponível por meio de sua mãe.
A seleção francesa foi a primeira a demonstrar interesse real.
Essa decisão ganhou importância porque Olise não fazia parte do caminho tradicional das principais promessas inglesas de sua geração. Enquanto muitos convocados nascidos em 2001 vinham de Manchester City, Chelsea, Manchester United, Arsenal e Tottenham, ele tentava construir sua carreira no Reading.
A França enxergou seu talento antes. Olise não esqueceu disso.
Crystal Palace abriu o caminho para a elite

Em julho de 2021, o Crystal Palace pagou a cláusula de rescisão de 8 milhões de libras para contratar Olise. O clube era comandado naquele momento por Patrick Vieira, uma das grandes figuras da história do futebol francês.
As primeiras temporadas mostraram principalmente a capacidade do jovem como criador. Em seus dois primeiros anos na Premier League, Olise somou 19 assistências e seis gols.
O Chelsea tentou corrigir a decisão tomada anos antes.
No verão de 2023, o clube londrino ativou uma cláusula de 35 milhões de libras para recontratar o jogador que havia dispensado na adolescência. Quando a transferência parecia próxima, Olise surpreendeu e renovou com o Crystal Palace.
A temporada seguinte confirmou sua evolução.
Mesmo enfrentando dois períodos diferentes de lesão, marcou 10 gols e deu seis assistências em apenas 19 partidas, sendo titular em somente 14. Isso representa 16 participações diretas em gols em uma temporada na qual sua disponibilidade física foi limitada.
A média era suficiente para mostrar que Olise já havia deixado de ser apenas um jogador de criação. O atacante começava a transformar seu talento também em gols.
Foi nesse momento que o Bayern de Munique decidiu investir cerca de 50 milhões de libras em sua contratação.
Antes de se apresentar definitivamente ao novo clube, Olise fez um pedido que revelou muito sobre sua personalidade. Queria disputar os Jogos Olímpicos de Paris pela França.
O Bayern poderia impedir sua participação e havia tomado essa decisão com Mathys Tel. Olise pediu para terminar sua trajetória olímpica.
A França chegou à final e perdeu para a Espanha na prorrogação. O título não veio, mas sua decisão reforçou a ligação com a seleção que acreditou nele antes de todas as outras.
No Bayern, Olise passou de grande talento a estrela mundial

A mudança para a Alemanha levou Olise a outro nível.
Sob o comando de Vincent Kompany, o francês transformou números promissores em uma produção extraordinária. Em duas temporadas, chegou a 88 participações em gols.
A comparação feita por Olivier Giroud ajuda a explicar seu estilo. Olise atua pela direita e gosta de cortar para o meio usando a perna esquerda, movimento que lembra Arjen Robben.
O adversário muitas vezes sabe o que vai acontecer. Impedir é outra questão.
Existe também uma diferença importante entre Olise e outros grandes jogadores ofensivos. Ele não busca apenas a finalização. Sua quantidade de assistências mostra um jogador disposto a escolher o passe mesmo quando possui a oportunidade de tentar o gol.
Os 46 passes para gol em duas temporadas pelo Bayern ajudam a comprovar essa característica. Na Copa do Mundo, as cinco assistências reforçaram a mesma tendência.
Esse equilíbrio entre capacidade de marcar e criar torna Olise difícil de defender. Se o adversário fecha o caminho para sua finalização com a perna esquerda, ele pode encontrar um companheiro. Se a defesa tenta proteger as linhas de passe, ele possui qualidade para concluir.
A França encontrou um jogador capaz de aumentar ainda mais a força de um ataque que já possui grandes nomes.
Um candidato à Bola de Ouro que não busca os holofotes

A parte mais curiosa da ascensão de Olise é o contraste entre seu desempenho e sua personalidade.
Quanto mais ele tenta evitar a atenção, mais seus números o colocam no centro das discussões.
Seus momentos mais conhecidos fora das jogadas incluem tentativas de escapar de comemorações, entrevistas evitadas e até uma participação pouco entusiasmada na celebração do título da Bundesliga. Antes das partidas, ele costuma entrar no gramado de sandálias para observar as condições do campo.
Nada disso é novo.
Desde a infância, Olise marca, cria e rapidamente pensa na próxima jogada. Seu antigo professor já via o mesmo comportamento quando ele ainda era criança.
Agora, essa personalidade reservada acompanha um dos jogadores mais produtivos do mundo.
A possibilidade de disputar a Bola de Ouro começa a aparecer naturalmente. Para transformar essa candidatura em algo ainda mais forte, uma conquista da Copa do Mundo teria enorme peso. Olise já entrou para a história da competição com suas cinco assistências e está muito próximo de igualar uma marca de Pelé.
Sua trajetória ajuda a explicar por que seu sucesso é tão particular. Ele foi dispensado por Chelsea e Manchester City, precisou reconstruir a confiança, encontrou espaço no Reading, cresceu no Crystal Palace e chegou ao Bayern por cerca de 50 milhões de libras.
Hoje, depois de 88 participações em gols em duas temporadas e cinco assistências na Copa do Mundo, Olise já não pode mais fugir dos holofotes.
Ele talvez continue sem comemorar muito, evitando entrevistas e tentando se afastar das câmeras. Dentro de campo, seus números fazem exatamente o contrário. Cada gol, cada assistência e cada grande atuação colocam Michael Olise mais perto do grupo dos melhores jogadores do mundo.
(Foto de capa: IMAGO)