A Copa do Mundo de 2026 chega às quartas de final marcada por um acontecimento histórico e simbólico: pela primeira vez na era moderna do torneio, Brasil e Alemanha não estão entre os oito melhores colocados nos mata-mata. Esse cenário evidencia não apenas resultados esportivos surpreendentes, mas também uma crise de identidade que vem se arrastando há anos nas duas maiores potências tradicionais do futebol mundial. Em um contexto de transformação global do esporte, a ausência simultânea dessas seleções escancara uma mudança no equilíbrio de forças e levanta questionamentos profundos sobre planejamento, estilo de jogo e continuidade.
No caso do Brasil, a eliminação para a Noruega nas oitavas de final, com derrota por 2 a 1, vai além de um simples tropeço. Trata-se de um marco negativo: a seleção não ficava fora das quartas desde 1990, interrompendo uma longa sequência de consistência na Copa do Mundo. Além disso, o resultado amplia um jejum que já dura desde 2002, consolidando uma das fases mais difíceis da história recente do país no torneio. Apesar de momentos de controle durante a partida, a equipe voltou a apresentar um problema recorrente: a dificuldade em transformar domínio em eficiência, desperdiçando chances importantes e evidenciando fragilidades estruturais.
As críticas se concentram na ausência de uma identidade clara ao longo da Copa do Mundo. Sob o comando de Carlo Ancelotti, o Brasil apresentou oscilações entre diferentes propostas de jogo, sem consolidar um modelo consistente. A aposta em jogadores experientes, somada à falta de uma renovação equilibrada, resultou em uma equipe lenta, previsível e distante da criatividade que historicamente marcou o futebol brasileiro. Como consequência, a seleção deixou de intimidar seus adversários e aparenta estar desconectada de sua própria tradição, vivendo um processo de reconstrução ainda incompleto.
Se o Brasil atravessa um período de transição, a Alemanha enfrenta uma crise ainda mais prolongada. Eliminada de forma precoce ao perder nos pênaltis para o Paraguai na primeira fase do mata-mata, a equipe acumula sua terceira campanha consecutiva abaixo das expectativas na disputa da Copa do Mundo, repetindo o padrão observado em 2018 e 2022. O que antes representava eficiência e regularidade transformou-se em instabilidade e incertezas quanto à identidade tática, cenário semelhante ao vivido pela Itália, que ficou fora de seu terceiro Mundial de forma consecutiva.
Especialistas e ex-jogadores apontam que o principal problema da Alemanha está na perda de uma identidade clara dentro de campo. Nos últimos anos, mudanças frequentes de esquema tático, falta de continuidade no trabalho e ausência de lideranças consolidadas comprometeram o desempenho coletivo. A seleção deixou de apresentar o futebol pragmático, disciplinado e competitivo que sempre a caracterizou, tornando-se vulnerável em momentos decisivos e incapaz de manter o padrão de eficiência e consistência que culminou na conquista do título em 2014.
A Copa do Mundo de 2026 não representa apenas eliminações inesperadas, mas também simboliza uma transformação na hierarquia do futebol mundial. Enquanto Brasil, Alemanha e a tradicional Itália enfrentam questionamentos sobre seus projetos esportivos, seleções emergentes e equipes em reconstrução avançam com planejamento sólido e identidade bem definida. A presença de países como Noruega e Marrocos nas fases decisivas reforça um cenário cada vez mais equilibrado, competitivo e imprevisível no futebol internacional.
Nesse contexto, a ausência simultânea de Brasil e Alemanha nas quartas de final funciona como um divisor de águas. A Copa do Mundo deixa de ser um território praticamente garantido para as potências históricas e passa a refletir uma realidade mais aberta e democrática. Para ambas as seleções, o desafio agora vai além dos resultados imediatos: trata-se de reconstruir suas identidades, resgatar características que as tornaram referências globais e adaptar-se a uma nova era em que tradição, por si só, já não garante protagonismo.

Como Brasil e Alemanha se sucumbiram nos mata-mata da Copa do Mundo de 2026
A Copa do Mundo de 2026 ficará marcada como um ponto de virada para duas das maiores seleções da história do futebol. Brasil e Alemanha, que juntos somam nove títulos mundiais, foram eliminados antes das quartas de final, algo inédito na história do torneio. As campanhas irregulares evidenciaram dificuldades para corresponder ao peso de suas tradições em um cenário internacional cada vez mais equilibrado, competitivo e exigente, reforçando que o passado vitorioso já não garante protagonismo diante da evolução técnica e tática dos adversários.
A trajetória do Brasil começou com sinais de instabilidade ainda na fase de grupos. A estreia terminou em empate contra o Marrocos, indicando dificuldades diante de adversários bem organizados. Em seguida, vieram vitórias sobre Haiti e Escócia, garantindo a classificação, mas sem grande consistência no desempenho. A equipe alternou momentos de controle com períodos de baixa intensidade, refletindo um time ainda em construção sob o comando de Carlo Ancelotti.
No mata-mata, o Brasil avançou ao vencer o Japão por 2 a 1 em uma partida dramática, decidida apenas nos acréscimos com gol de Gabriel Martinelli. Após sair atrás no placar, a equipe precisou de ajustes táticos para reagir. Apesar da classificação, o jogo já evidenciava problemas estruturais, especialmente na criação ofensiva e na solidez defensiva. Essas fragilidades ficaram ainda mais evidentes nas oitavas de final, quando a seleção foi derrotada pela Noruega por 2 a 1, encerrando sua campanha com a pior participação em Copas desde 1990. A eliminação reforçou críticas sobre falta de eficiência e incapacidade de converter domínio em gols, além de questionamentos sobre o modelo de jogo adotado.
A Alemanha teve uma trajetória igualmente irregular, embora com características diferentes. Na fase de grupos da Copa do Mundo, começou de forma dominante ao aplicar uma goleada sobre Curaçao, demonstrando força ofensiva. Em seguida, venceu a Costa do Marfim, encaminhando a classificação. No entanto, a derrota para o Equador na última rodada expôs inconsistências e evidenciou dificuldades contra equipes mais organizadas. Ainda assim, os alemães avançaram ao mata-mata cercados de expectativas.
A reação, porém, não aconteceu. Na fase eliminatória, a Alemanha enfrentou o Paraguai e foi eliminada nos pênaltis após empate por 1 a 1. A partida sintetizou seus principais problemas: domínio territorial sem efetividade e falhas decisivas em momentos-chave. Mesmo controlando a posse de bola e criando volume ofensivo, a equipe desperdiçou oportunidades e falhou nas cobranças decisivas, resultando em uma eliminação precoce. O resultado aprofundou a sequência negativa da seleção em Copas e reforçou a percepção de perda de identidade competitiva.
O desfecho dessas campanhas vai além de eliminações isoladas. Pela primeira vez, Brasil e Alemanha ficaram fora do grupo dos oito melhores da Copa do Mundo, evidenciando uma mudança no equilíbrio global do futebol. O torneio de 2026 deixa claro que tradição já não garante protagonismo automático e que seleções emergentes conseguem competir em igualdade — ou até superioridade — com as potências históricas.
Esse cenário se amplia ao considerar a ausência prolongada da Itália, que não participa das últimas três edições do torneio e acumulou eliminações precoces em 2010 e 2014, ainda na fase de grupos da Copa do Mundo. O panorama geral revela uma transformação estrutural no futebol internacional, em que as grandes seleções enfrentam dificuldades para se adaptar às novas exigências táticas, físicas e organizacionais.
Assim, a Copa do Mundo de 2026 não apenas registra a queda de gigantes, mas também evidencia a necessidade de uma reconstrução profunda. Brasil e Alemanha, acostumados ao protagonismo, agora precisam repensar seus modelos de jogo, fortalecer seus processos de formação, resgatar suas identidades e se adaptar a uma realidade em que o equilíbrio entre as seleções é cada vez maior. O passado vitorioso continua relevante, mas já não representa garantia de sucesso nas próximas gerações.

Será que Alemanha e Brasil poderão evoluir muito e voltar aos tempos de glória na Copa do Mundo em 2030?
A Copa do Mundo de 2026 deixou cicatrizes importantes em Brasil e Alemanha, mas também abriu espaço para um novo ciclo de reconstrução rumo a 2030. Eliminadas antes das quartas de final pela primeira vez, ambas iniciam processos de reformulação com mudanças estruturais, renovação de elenco e aposta em lideranças experientes. Apesar da frustração, o histórico vencedor, a qualidade dos jogadores e a necessidade de evolução indicam que o retorno ao protagonismo internacional permanece como um objetivo plenamente alcançável.
No caso da Alemanha, a principal mudança ocorreu no comando técnico. A saída de Julian Nagelsmann após a campanha irregular deu lugar a Jurgen Klopp, em uma decisão que vai além de uma simples troca de treinador. O ex-técnico do Liverpool assume com a missão de resgatar a identidade competitiva da seleção, historicamente marcada por intensidade, disciplina tática e força coletiva. Seu histórico em clubes e sua capacidade de reconstruir equipes são vistos como diferenciais importantes para recolocar o país germânico no caminho das grandes campanhas. A federação aposta em um projeto contínuo até a Copa do Mundo de 2030, com renovação gradual do elenco e maior integração entre categorias de base e equipe principal.
O Brasil, por outro lado, tende a seguir um caminho de continuidade. Apesar da eliminação nas oitavas de final, a permanência de Carlo Ancelotti é vista como fundamental para consolidar um modelo de jogo mais consistente. A avaliação interna é de que a equipe apresentou potencial durante a Copa do Mundo, mas falhou em momentos decisivos. A continuidade do trabalho pode permitir ajustes mais precisos, especialmente na organização defensiva e na eficiência ofensiva, aspectos determinantes na derrota para a Noruega. A CBF entende que mudanças bruscas poderiam comprometer um processo ainda em desenvolvimento.
Esse cenário também dialoga com o momento da Itália, que busca se reestruturar após ficar fora das últimas edições da Copa do Mundo. Tetracampeã mundial, a seleção italiana tenta reorganizar suas bases para retornar ao torneio em 2030, reforçando a tradição europeia no topo do futebol. Sua ausência serve como alerta para Brasil e Alemanha sobre os riscos de ciclos mal conduzidos.
Diante desse contexto, o caminho até 2030 será decisivo. O Brasil segue em busca do hexacampeonato, enquanto a Alemanha tenta reafirmar sua posição como potência global. O sucesso nesse processo dependerá menos de talentos individuais e mais da capacidade de adaptação a um futebol em constante evolução, no qual organização, planejamento e identidade são elementos fundamentais para voltar ao topo.
(Foto: AFP/Getty Images)