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Como Kylian Mbappé se tornou o ‘rei’ da Copa do Mundo por seu desempenho fora dos gramados

Toda grande Copa do Mundo costuma produzir um protagonista capaz de transcender aquilo que acontece dentro das quatro linhas. Em alguns momentos, esse papel pertence exclusivamente ao talento técnico. Em outros, à personalidade. Na edição de 2026, Kylian Mbappé conseguiu reunir ambos os elementos. O atacante francês não é apenas um dos melhores jogadores do torneio. Ele se transformou no principal personagem da competição, alguém cuja influência ultrapassa o futebol e alcança debates sobre liderança, comunicação, cultura e até política.

Sua campanha ajuda a explicar por quê. Mbappé segue acumulando gols decisivos, conduzindo a França nas fases eliminatórias e ampliando números que já o colocam entre os maiores jogadores da história das Copas do Mundo. Mas reduzir sua importância apenas às estatísticas seria ignorar aquilo que talvez represente sua maior evolução nesta década: a capacidade de controlar completamente a narrativa ao seu redor.

Durante muito tempo, os maiores craques do futebol moderno construíram suas imagens quase exclusivamente pelo desempenho em campo. Lionel Messi sempre falou pouco. Cristiano Ronaldo apostou em uma comunicação extremamente calculada. Mbappé percorre um caminho diferente. Ele entende que, no futebol contemporâneo, a influência de um atleta também passa pela maneira como ele participa do debate público.

Isso ficou evidente ao longo desta Copa do Mundo.

A personalidade de Mbappé em público

Enquanto diversas estrelas preferem respostas protocolares em entrevistas, Mbappé transformou praticamente todas as coletivas em momentos de repercussão. Seja ao discutir questões táticas, ao defender Didier Deschamps das críticas recebidas na França ou ao comentar temas que extrapolam o esporte, o camisa 10 francês demonstra um domínio raro da comunicação. Não se trata apenas de falar muito, mas de construir frases que rapidamente passam a circular nas redes sociais, programas esportivos e veículos internacionais.

Essa habilidade faz com que sua presença permaneça constante mesmo quando não há partidas. Em uma era em que o futebol disputa atenção com inúmeras outras formas de entretenimento, Mbappé compreendeu que o protagonismo também se conquista fora dos noventa minutos.

Naturalmente, isso potencializa sua imagem pública. Os memes envolvendo sua personalidade, seu comportamento competitivo e até comparações bem-humoradas com figuras históricas não parecem incomodá-lo. Pelo contrário. Em diversos momentos, o próprio atacante demonstra compreender o funcionamento da cultura digital e aceita participar desse ambiente com enorme naturalidade.

Essa relação representa uma ruptura importante em comparação às gerações anteriores. O craque francês parece entender que a internet deixou de ser apenas um espaço de repercussão para se tornar parte da própria construção de uma carreira esportiva. Em vez de combater esse processo, ele o incorpora à sua identidade pública. Mas talvez o aspecto mais interessante dessa Copa esteja justamente no equilíbrio entre imagem e desempenho dentro de campo.

Existe sempre o risco de que atletas extremamente midiáticos acabem perdendo rendimento dentro de campo. Com Mbappé, acontece exatamente o contrário. Quanto maior a exposição, maior parece ser sua capacidade de decidir partidas importantes.

A França continua organizando boa parte de seu sistema ofensivo ao redor de seu camisa 10. Sua velocidade continua sendo praticamente impossível de controlar em campo aberto, sua movimentação entre as linhas permanece decisiva e sua capacidade de finalizar em alta velocidade segue colocando qualquer defesa em permanente estado de alerta.

Mais do que isso, Mbappé amadureceu como jogador coletivo. Se no início da carreira chamava atenção principalmente pela explosão física, hoje participa muito mais da construção das jogadas, aproxima companheiros, cria espaços para outros atacantes e exerce papel de liderança técnica dentro do elenco francês. Essa evolução explica por que a França continua sendo apontada como uma das grandes favoritas ao título.

Mbappé não se esconde dos temas políticos

Ao mesmo tempo, Mbappé também assumiu um protagonismo pouco comum entre atletas do mais alto nível ao se posicionar publicamente sobre temas sociais e políticos. Nos últimos anos, o atacante abandonou a postura tradicionalmente neutra adotada por muitas estrelas do esporte e passou a utilizar sua visibilidade para defender posições que considera importantes.

Durante esta Copa, voltou a demonstrar esse perfil ao responder de forma contundente a ataques racistas sofridos após a classificação francesa diante do Paraguai. A reação reforçou uma característica que acompanha sua carreira: a disposição para utilizar sua voz mesmo sabendo que isso inevitavelmente produz críticas e polarização.

Essa escolha ajuda a consolidar uma imagem diferente da construída por muitos dos grandes jogadores das últimas décadas. Mbappé parece confortável em ocupar simultaneamente os papéis de líder esportivo, personagem midiático e figura pública.

Também existe uma construção de longo prazo por trás desse comportamento. Desde muito jovem, o francês foi preparado para lidar com pressão, entrevistas e exposição. Sua formação incluiu acompanhamento psicológico ainda na adolescência, além de atividades ligadas às artes e à comunicação, fatores frequentemente apontados como parte importante de seu desenvolvimento pessoal.

Esse conjunto ajuda a explicar por que Mbappé transmite tanta naturalidade diante dos holofotes. Poucos atletas conseguem alternar momentos de enorme competitividade em campo com entrevistas descontraídas e respostas rápidas diante das câmeras.

Enquanto isso, sua carreira continua avançando em ritmo impressionante. Aos poucos, deixa de ser apenas o sucessor natural de Messi e Cristiano Ronaldo para construir uma identidade completamente própria. Sua geração já não vive à sombra dos dois maiores nomes do século. Ela passa, cada vez mais, a girar em torno do atacante francês.

A Copa do Mundo talvez represente justamente esse ponto de virada. Mais do que confirmar um dos melhores jogadores do planeta, o torneio consolida Mbappé como a principal referência cultural do futebol atual. Ele marca gols, decide partidas, movimenta debates, domina o ambiente digital e influencia discussões muito além do esporte.

Poucos jogadores conseguem reunir tantas camadas diferentes de protagonismo ao mesmo tempo. E é exatamente essa combinação entre excelência técnica, liderança, comunicação e personalidade que transforma Kylian Mbappé não apenas no rosto desta Copa do Mundo, mas também na principal figura do futebol mundial na segunda metade desta década.

Foto: Dan Mullan/Getty Images