A última vez que a Noruega disputou uma Copa do Mundo, Erling Haaland ainda nem havia nascido. Vinte e oito anos depois, o atacante não apenas ajudou seu país a voltar ao maior torneio do futebol, como também liderou a seleção até as quartas de final.
A história ganha ainda mais peso porque Haaland nasceu na Inglaterra e poderia ter defendido justamente a seleção que agora aparece em seu caminho. Noruega e Inglaterra se enfrentam em Miami por uma vaga nas semifinais, em um duelo que coloca o atacante diante do país onde nasceu.
Aos 25 anos, Haaland já conquistou praticamente tudo no futebol de clubes com o Manchester City. Pela seleção, porém, existia uma missão diferente. A Noruega não participava de uma Copa desde 1998 e não disputava um grande torneio desde a Eurocopa de 2000.
O atacante conseguiu mudar essa realidade com números impressionantes. Foram 16 gols em oito partidas nas Eliminatórias Europeias e mais sete em quatro jogos na Copa. Depois de marcar duas vezes na vitória sobre o Brasil nas oitavas de final, Haaland colocou a Noruega entre as oito melhores seleções do mundo.
Haaland poderia ter jogado pela Inglaterra, mas sempre escolheu a Noruega

Haaland nasceu em Leeds, em 2000. Na época, seu pai, Alf Inge Haaland, ainda atuava no futebol inglês e havia acabado de deixar o Leeds United para jogar pelo Manchester City.
Três anos depois, a família voltou para a Noruega após a aposentadoria de Alf Inge por causa de uma lesão. Foi em Bryne que o jovem Erling cresceu e começou a construir sua relação com o país que escolheria representar.
Seu talento apareceu cedo. Haaland avançou rapidamente pelas categorias de base do Bryne e, em 2017, foi contratado pelo Molde, então comandado por Ole Gunnar Solskjaer.
O treinador teve participação importante no desenvolvimento do atacante e depois lamentou não ter conseguido contratá lo quando assumiu o Manchester United.
A carreira de Haaland foi construída em etapas. Primeiro, destacou se no Red Bull Salzburg. Depois, ganhou projeção mundial no Borussia Dortmund, onde também criou uma amizade próxima com Jude Bellingham.
Em 2022, chegou ao Manchester City.
Apesar de ter nascido em território inglês, a possibilidade de defender a Inglaterra nunca pareceu realmente próxima. Em 2020, Gareth Southgate reconheceu que Haaland sempre teve clareza sobre qual país desejava representar.
A ligação com a Noruega continua forte mesmo depois de o atacante se transformar em um dos jogadores mais famosos do planeta. Haaland retorna frequentemente ao país, possui propriedades na Noruega e já revelou que pretende administrar uma fazenda depois da aposentadoria.
O orgulho pelas origens também aparece na seleção.
Haaland utiliza Braut Haaland na camisa. Braut é o sobrenome de solteira de sua mãe, e a combinação com o sobrenome do pai segue uma tradição norueguesa.
Depois da vitória sobre o Brasil, o atacante também liderou seus companheiros na chamada Remada Viking, uma comemoração ligada à história do país.
Uma espera de 28 anos terminou com números impressionantes

A Noruega disputou as Copas de 1994 e 1998, mas depois desapareceu dos grandes torneios.
A última participação antes de 2026 havia sido na Eurocopa de 2000.
Durante esse longo período, vários jogadores importantes passaram pela seleção sem conseguir disputar uma Copa. Morten Gamst Pedersen, John Carew, Brede Hangeland e John Arne Riise estão entre os principais exemplos.
Haaland chegou carregando a expectativa de mudar essa história.
Nas Eliminatórias Europeias, o atacante marcou 16 gols. O número foi duas vezes maior que o dos jogadores que apareceram na segunda posição da artilharia.
Harry Kane, Memphis Depay e Marko Arnautovic marcaram oito gols cada. Kevin De Bruyne, Andrej Kramaric e Mikel Merino fizeram seis.
A diferença mostra o tamanho do domínio de Haaland.
Sua produção pela seleção é ainda mais impressionante quando comparada aos maiores artilheiros da história do país.
Haaland chegou a 62 gols em 54 partidas. O segundo colocado, Jorgen Juve, marcou 33 vezes em 45 jogos.
A diferença é de 29 gols.
Isso significa que Haaland tem quase o dobro de gols do segundo maior artilheiro da história da Noruega, mesmo tendo apenas 25 anos.
Na Copa, o desempenho continuou.
O atacante marcou duas vezes na vitória por 4 a 1 sobre o Iraque na estreia. Ao todo, fez sete gols em quatro partidas e entrou na disputa pela Chuteira de Ouro.
Lionel Messi e Kylian Mbappe chegaram às quartas de final com oito gols. Haaland aparece logo atrás, com sete, enquanto Harry Kane marcou seis.
O norueguês também repetiu um feito de seu pai, que disputou a Copa de 1994.
A Noruega não é apenas Haaland

Os números podem criar a impressão de que a seleção norueguesa depende exclusivamente de seu camisa 9.
A realidade é mais complexa.
A atual equipe é considerada por muitos a geração de ouro do futebol do país. Haaland é o principal jogador, mas não está sozinho.
O capitão Martin Odegaard chegou à Copa depois de conquistar a Premier League com o Arsenal e distribuiu três assistências no torneio.
Alexander Sorloth, Jorgen Strand Larsen e Oscar Bobb também possuem experiência no futebol de alto nível.
Outros jogadores ganharam importância durante a campanha. Patrick Berg, Sander Berge e Antonio Nusa aparecem entre os nomes que ajudaram a transformar a Noruega em uma equipe mais competitiva.
A comparação feita dentro do país é com a geração de ouro da Bélgica.
A ideia é semelhante. Uma nação com população relativamente pequena conseguiu reunir, no mesmo período, uma quantidade incomum de jogadores de alto nível.
A Noruega possui pouco mais de 5,5 milhões de habitantes.
Mesmo dentro de uma geração talentosa, Haaland ocupa outro nível.
O atacante se tornou um nome global e começa a alcançar uma dimensão de popularidade que poucos jogadores conseguiram nas últimas décadas.
A diferença é importante porque grandes jogadores de países menores nem sempre conseguem chegar a uma Copa.
George Best nunca disputou o torneio pela Irlanda do Norte. Ryan Giggs também não conseguiu pelo País de Gales, enquanto George Weah, vencedor da Bola de Ouro, não levou a Libéria à competição.
Haaland corria o risco de entrar nessa lista.
Agora, não apenas disputa sua primeira Copa como já chegou às quartas de final e eliminou o Brasil com dois gols.
Um astro diferente do padrão norueguês

Haaland não chama atenção apenas dentro de campo.
Com 1,95 metro de altura e longos cabelos loiros, tornou se um dos jogadores mais reconhecidos do futebol mundial.
Sua personalidade também ajuda a explicar a popularidade.
Jornalistas noruegueses destacam que o atacante não representa exatamente o comportamento tradicionalmente associado ao país. A cultura escandinava costuma valorizar a humildade e a discrição.
Haaland é diferente.
Ele demonstra confiança, conhece seu valor e não esconde a ambição. Essa personalidade pode gerar críticas em alguns momentos, mas também o transformou em um herói diferente para os noruegueses.
O atacante possui mais de 2,4 milhões de inscritos em seu canal no YouTube.
Depois de marcar o gol da vitória contra a Costa do Marfim na fase de 16 avos de final, publicou um vídeo de uma ida improvisada às compras em Dallas para comprar chapéus e botas de caubói.
O vídeo ultrapassou cinco milhões de visualizações em apenas quatro dias.
Haaland também participará de um filme de animação, dando voz a um viking que leva seu próprio nome.
Esse nível de fama representa algo novo para a Noruega.
O país já produziu grandes esportistas, mas nunca teve um jogador de futebol com uma projeção próxima à de Lionel Messi e Cristiano Ronaldo.
O impacto aparece nas vendas de camisas, no interesse pela seleção e na inspiração para crianças que agora crescem vendo um norueguês entre os melhores jogadores do planeta.
Contra a Inglaterra, toda essa história ganhará um novo capítulo.
Haaland poderia ter escolhido defender o país onde nasceu. Preferiu a Noruega, mesmo sabendo que poderia passar toda a carreira sem disputar uma Copa do Mundo.
Vinte e oito anos depois da última participação norueguesa, ele mudou essa história.
Com 16 gols nas Eliminatórias, sete na Copa e uma atuação decisiva contra o Brasil, Haaland levou seu país às quartas de final.
Agora, diante da Inglaterra, a Noruega tentará transformar uma campanha histórica em algo ainda maior. E, embora esta seleção tenha mostrado que possui muito mais do que apenas um grande jogador, é impossível ignorar que a missão de um país inteiro continua ligada ao atacante que nasceu inglês, cresceu norueguês e se tornou um dos maiores astros do futebol mundial.
(Foto de capa: Divulgação)