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Futebol Copa do Mundo

Bélgica aposta na experiência e na nova geração para sonhar alto na Copa do Mundo

A Bélgica chegou à Copa do Mundo cercada de dúvidas. Depois do fracasso na edição de 2022 e com boa parte da lendária geração dourada já aposentada da seleção, poucos colocavam os Diabos Vermelhos entre os candidatos ao título. No entanto, bastaram alguns jogos para o cenário mudar completamente. Agora, a equipe comandada por Rudi Garcia está nas quartas de final e mostra que experiência e juventude podem caminhar lado a lado.

O momento mais simbólico dessa campanha aconteceu ainda nas oitavas de final. Perdendo por 2 a 0 para Senegal até os 40 minutos do segundo tempo, a Bélgica parecia pronta para dar adeus ao torneio. Mas, em uma reação histórica, virou a partida de forma espetacular e ganhou confiança para atropelar os Estados Unidos por 4 a 1 na fase seguinte, justamente atuando em solo americano.

A classificação recolocou os belgas entre os protagonistas da Copa e mostrou que, mesmo sem nomes como Eden Hazard, Vincent Kompany, Marouane Fellaini e Mousa Dembélé, ainda existe muito talento disponível para manter o país competitivo.

Geração dourada muda de papel dentro da seleção

Durante quase uma década, a chamada geração dourada da Bélgica foi vista como uma das mais talentosas da história do futebol europeu. O grupo alcançou as quartas de final em 2014 e terminou a Copa de 2018 na terceira colocação, desempenho considerado o auge daquela equipe.

Depois da eliminação ainda na fase de grupos em 2022, muitos acreditaram que o ciclo havia terminado definitivamente. Porém, a realidade atual mostra algo diferente. Os remanescentes da geração passaram a exercer uma função menos protagonista dentro das quatro linhas, mas extremamente importante nos bastidores e em momentos decisivos.

Thibaut Courtois é o principal exemplo dessa transformação. Aos 34 anos, o goleiro segue sendo um dos melhores do mundo e participou de todos os minutos da campanha até aqui. Suas atuações seguras deram estabilidade para uma defesa que ainda busca maior entrosamento.

Já Romelu Lukaku continua decisivo mesmo atuando menos tempo. O atacante marcou três gols na competição jogando menos da metade dos minutos disponíveis. Frequentemente utilizado saindo do banco de reservas, ele aproveita o desgaste das defesas adversárias para fazer a diferença nos momentos finais.

Kevin De Bruyne também iniciou o torneio como uma das principais referências técnicas da equipe, mas uma lesão sofrida diante de Senegal interrompeu sua participação justamente quando vivia boas atuações. Curiosamente, desde sua saída, a Bélgica encontrou novas soluções ofensivas e balançou as redes sete vezes em pouco mais de dois jogos.

Enquanto isso, Axel Witsel, aos 37 anos, passou a ser uma peça de experiência para o elenco. Sua utilização diminuiu bastante, mas sua liderança permanece valorizada dentro do grupo.

Rudi Garcia acelera a renovação sem romper com o passado

A grande virtude do trabalho de Rudi Garcia tem sido encontrar o equilíbrio entre respeito ao passado e preparação para o futuro. Em vez de promover uma ruptura brusca, o treinador distribuiu responsabilidades entre jogadores mais experientes e atletas que chegam ao auge da carreira.

O próprio comandante já deixou claro que não gosta da forma como seus líderes são tratados.

Para Garcia, chamar Courtois, Lukaku, De Bruyne e Witsel de “veteranos” diminui o impacto que eles ainda exercem dentro do elenco. Segundo ele, poucos países têm o privilégio de contar com atletas desse nível, independentemente da idade.

Na prática, isso aparece dentro de campo. Os mais experientes deixaram de carregar a equipe sozinhos, mas continuam decidindo partidas, orientando os companheiros e oferecendo tranquilidade nos momentos de maior pressão.

Essa transição costuma ser um desafio enorme para seleções tradicionais. No caso belga, pelo menos até agora, ela vem acontecendo de forma bastante natural.

Nova geração assume o protagonismo

Se os antigos líderes reduziram a carga de trabalho na Bélgica, alguém precisava assumir o protagonismo. E vários jogadores aproveitaram a oportunidade durante esta Copa.

Leandro Trossard talvez seja o maior destaque ofensivo da Bélgica. O atacante do Arsenal lidera o torneio em chances criadas, mostrando enorme capacidade para organizar o setor ofensivo. Além disso, soma dois gols e duas assistências, participando diretamente de quatro tentos da equipe.

Charles De Ketelaere também vem sendo fundamental. Apesar de não ser um centroavante extremamente goleador, sua movimentação abre espaços constantemente para os companheiros infiltrarem na área. Ele já marcou dois gols e distribuiu uma assistência.

Outro nome importante é Hans Vanaken. Aos 33 anos e tendo passado toda a carreira no Club Brugge, o meia vive um dos melhores momentos da seleção, contribuindo com um gol e duas assistências.

Já Youri Tielemans protagonizou um dos momentos mais marcantes da campanha ao marcar tanto o empate quanto a virada contra Senegal, no jogo que mudou completamente a trajetória belga no torneio.

Entre os mais jovens, Jeremy Doku continua sendo apontado como o talento de maior potencial. O atacante do Manchester City oferece velocidade, dribles e profundidade, características importantes para um elenco que já não possui tantos jogadores explosivos quanto anos atrás.

Além dele, Diego Moreira e Matias Fernandez-Pardo aparecem como apostas para os próximos ciclos da seleção, enquanto Amadou Onana vinha realizando boas atuações antes da grave lesão no ligamento cruzado anterior sofrida diante dos Estados Unidos.

Liderança vai muito além do campo

Outro aspecto interessante da Bélgica está fora das quatro linhas. A diversidade cultural do elenco faz com que a comunicação seja um desafio diário.

A Bélgica possui duas grandes comunidades linguísticas, com jogadores que falam principalmente neerlandês e francês. Para evitar divisões dentro do grupo, o inglês acabou se tornando a língua oficial do vestiário.

Romelu Lukaku simboliza bem essa característica. Fluente em seis idiomas, o atacante exerce papel importante tanto na integração do elenco quanto nas conversas motivacionais antes das partidas.

Segundo especialistas em linguística da Universidade de Antuérpia, utilizar o inglês reduz possíveis conflitos ligados à identidade regional e fortalece o sentimento coletivo dentro da seleção.

Esse ambiente unido ficou evidente após a classificação sobre os Estados Unidos. O elenco comemorou junto, demonstrando que o grupo parece ter encontrado uma identidade muito diferente daquela vista no decepcionante Mundial de 2022.

Espanha será o maior teste da Bélgica na Copa

Agora, a Bélgica terá pela frente um dos desafios mais complicados da competição. O duelo contra a Espanha vale uma vaga na semifinal e colocará frente a frente duas seleções que misturam tradição, qualidade técnica e diferentes gerações.

Independentemente do resultado, os belgas já mostram que talvez a famosa geração dourada nunca tenha desaparecido completamente. Ela apenas mudou de função.

Hoje, Courtois, Lukaku, De Bruyne e Witsel já não precisam resolver todas as partidas sozinhos. Em vez disso, ajudam a formar uma nova geração capaz de manter a Bélgica entre as principais forças do futebol mundial.

Se essa combinação de juventude e experiência continuará suficiente para levar os Diabos Vermelhos até a decisão da Copa, só os próximos capítulos responderão. Mas uma coisa já ficou clara: quem decretou o fim da Bélgica cedo demais talvez tenha falado antes da hora.

Foto: Getty Images