A Espanha vive mais um momento especial em sua história. Depois de conquistar a Eurocopa em 2024, a seleção comandada por Luis de la Fuente agora está nas quartas de final da Copa do Mundo e segue firme na missão de repetir um feito reservado a pouquíssimos gigantes do futebol: conquistar o Mundial enquanto ainda é a atual campeã da Europa.
Caso consiga levantar a taça, a Fúria se juntará a um grupo extremamente seleto. Apenas Alemanha Ocidental, França e a própria Espanha de 2010 conseguiram reunir simultaneamente os dois títulos mais importantes do futebol de seleções.
Muito desse sucesso passa pelo trabalho de Luis de la Fuente. Desde que assumiu o comando da equipe em janeiro de 2023, o treinador perdeu apenas três partidas e construiu uma sequência impressionante de 35 jogos de invencibilidade. Mais do que resultados, porém, ele devolveu à Espanha uma identidade que parecia ter ficado pelo caminho após alguns anos de instabilidade.
Agora, antes do confronto diante da Bélgica pelas quartas de final, o treinador chega cercado de confiança. E isso vai muito além da parte tática.
Luis de la Fuente não reinventou a Espanha, ele aperfeiçoou uma identidade
Existe uma frase atribuída a Pep Guardiola sobre Johan Cruyff que ajuda a explicar perfeitamente o trabalho de Luis de la Fuente.
Segundo Guardiola, alguns treinadores não constroem uma catedral do zero; apenas continuam restaurando uma obra-prima já existente. É exatamente isso que aconteceu com a atual seleção espanhola.
A essência permanece a mesma: posse de bola, circulação rápida, inteligência posicional e domínio das partidas. Mas De la Fuente acrescentou novas camadas ao modelo.
Hoje, a Espanha consegue acelerar transições quando necessário, é mais agressiva no último terço do campo e apresenta alternativas ofensivas que nem sempre existiam nas versões anteriores da equipe.
Essa evolução faz com que muitos adversários saibam exatamente como os espanhóis jogam. O problema é outro: entender é uma coisa, parar é completamente diferente.
Integrantes da comissão técnica de Portugal resumiram bem essa sensação após a eliminação para a Espanha. Segundo eles, a Fúria é “a seleção mais fácil de analisar, mas a mais difícil de vencer”.
O maior segredo está fora das quatro linhas
Se dentro de campo existe um padrão claro, nos bastidores há outro aspecto que impressiona.
Luis de la Fuente acredita que grandes equipes são construídas por boas pessoas antes mesmo de grandes jogadores.
Para o treinador, “boa pessoa” não significa apenas alguém educado. Significa um atleta disposto a correr pelo companheiro, dividir responsabilidades, aceitar funções diferentes e colocar o coletivo acima do brilho individual.
Essa filosofia acompanha o treinador há décadas.
Desde 2013 trabalhando nas categorias de base da Federação Espanhola, De la Fuente participou diretamente da formação de vários atletas que hoje defendem a seleção principal. Isso permitiu criar uma cultura que atravessa gerações.
Quando os jogadores chegam ao elenco principal, praticamente já conhecem as ideias do treinador, a forma de trabalhar e o comportamento esperado dentro do grupo.
Em seleções nacionais, onde o tempo para treinamentos é sempre reduzido, essa continuidade acaba se transformando em uma enorme vantagem.
Experiência ensinou a Espanha a controlar as emoções
Outro ponto que chama atenção no atual trabalho é a maturidade emocional construída pelo treinador.
Luis de la Fuente admite que, no passado, suas equipes costumavam perder o controle em partidas mais tensas. Jogos físicos, provocações constantes e arbitragem confusa frequentemente tiravam a Espanha do próprio estilo de jogo. Segundo ele, a experiência foi a maior professora.
Hoje, antes de confrontos contra adversários conhecidos pela intensidade, o treinador reforça justamente a necessidade de manter a calma.
Foi assim diante do Uruguai durante esta Copa do Mundo.
A comissão técnica alertou que a Espanha historicamente sofria quando aceitava entrar no clima de provocações do adversário. Em vez disso, os jogadores foram orientados a manter o foco, controlar o ritmo da partida e não abandonar a própria identidade.
O resultado apareceu dentro de campo. Para De la Fuente, quando a Espanha deixa de jogar o futebol que sabe, normalmente também deixa escapar as vitórias.
Relação próxima fortalece o ambiente da seleção
Outro diferencial do treinador está na maneira como conduz o grupo.
Por conhecer boa parte dos atletas desde as categorias de base, Luis de la Fuente desenvolveu relações de confiança que facilitam muito a comunicação diária.
Essa proximidade também aparece fora dos gramados.
Durante entrevistas coletivas, por exemplo, o treinador costuma chamar jornalistas pelo nome, mantém contato visual durante as respostas e trata todos com enorme respeito. Segundo ele, isso não faz parte de nenhuma estratégia de comunicação. É simplesmente a educação que recebeu ao longo da vida.
Além disso, sua comissão técnica trabalha de forma extremamente detalhista, analisando cada adversário e cada atuação da Espanha para realizar pequenos ajustes sem modificar a essência do time.
Essa consistência virou praticamente uma marca registrada do trabalho.
Lamine Yamal simboliza o futuro da Espanha
Se existe um jogador que representa o futuro da seleção espanhola, esse nome é Lamine Yamal.
A jovem estrela chegou à Copa do Mundo cercada de expectativas, mas também de algumas dúvidas após sofrer uma lesão dois meses antes da competição.
Mesmo assim, Luis de la Fuente nunca demonstrou preocupação.
O treinador sabia que o planejamento físico havia sido feito justamente para que o atacante atingisse seu melhor momento nas fases decisivas do torneio.
Agora, nas quartas de final, esse momento finalmente chegou.
Curiosamente, De la Fuente não mede a evolução de Lamine apenas pelos dribles ou pelos gols. Para ele, a atuação mais importante do jovem aconteceu diante de Portugal justamente porque o atacante trabalhou intensamente sem a bola, ajudando defensivamente durante toda a partida.
Na visão do treinador, é esse comportamento coletivo que transforma grandes talentos em jogadores capazes de decidir campeonatos. Segundo De la Fuente, este não é necessariamente o momento de Lamine marcar dez gols na Copa. É o momento de ser decisivo quando realmente importa.
Oyarzabal representa tudo o que o treinador valoriza
Outro jogador constantemente elogiado pelo comandante é Mikel Oyarzabal.
Na opinião de Luis de la Fuente, o atacante está entre os cinco melhores centroavantes do futebol mundial, mesmo sem receber o mesmo reconhecimento internacional de outras estrelas.
O motivo da admiração vai além da técnica. Oyarzabal representa exatamente o perfil de atleta valorizado pelo treinador: disciplinado, inteligente, solidário e completamente comprometido com o funcionamento coletivo da equipe.
Essa visão resume perfeitamente a filosofia da atual Espanha. Os talentos individuais existem e são muitos. Mas eles só fazem sentido quando trabalham em favor do grupo.
Consistência virou a palavra que define a nova Fúria
Fora do futebol, Luis de la Fuente mantém exatamente a mesma disciplina que exige de seus jogadores.
O treinador treina diariamente, mantém uma rotina rígida de preparação física e admite que amigos costumam brincar dizendo que ele é “incansável” quando estabelece um objetivo.
Talvez essa seja a melhor definição para explicar a Espanha atual. Não é apenas uma seleção talentosa. É uma equipe consistente, organizada, emocionalmente equilibrada e extremamente fiel à própria identidade.
Agora, diante da Bélgica, a Fúria terá mais um grande teste rumo ao sonho do bicampeonato mundial. Se mantiver o nível apresentado até aqui, ficará cada vez mais difícil impedir que a combinação entre cultura, trabalho coletivo e o brilho de jovens como Lamine Yamal coloque novamente a Espanha no topo do futebol mundial.
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