Odegaard Noruega
Futebol Copa do Mundo

Odegaard lidera campanha histórica da Noruega e desafia a Inglaterra na Copa do Mundo

Martin Odegaard sempre carregou o peso de ser chamado de “predestinado”. Desde a adolescência, o meia foi tratado como um dos maiores talentos da história do futebol norueguês, recebeu os holofotes do mundo inteiro e precisou aprender cedo a lidar com expectativas quase impossíveis de cumprir. Agora, aos 27 anos, ele finalmente vive o momento que muitos imaginavam ainda em 2015: comandar a Noruega em uma campanha histórica de Copa do Mundo.

Os noruegueses estão nas quartas de final pela primeira vez em um grande torneio masculino, mas o feito ganha ainda mais importância quando se observa o caminho percorrido. Segundo os Opta Power Ratings, a Noruega enfrentou a sequência de adversários mais difícil entre todas as seleções classificadas para as quartas de final, superando equipes como Marrocos, Espanha, França, Bélgica e Inglaterra no grau de dificuldade enfrentado.

Mesmo assim, os Vikings continuam vivos na disputa pelo título e chegam embalados para enfrentar justamente os ingleses. Muito se fala sobre Erling Haaland, com razão, mas existe outro protagonista que talvez seja ainda mais importante para o funcionamento coletivo da equipe: Odegaard.

O menino prodígio finalmente virou o líder que todos esperavam

A história de Odegaard parece roteiro de documentário.

Em 2014, aos 15 anos, tornou-se o jogador mais jovem a defender a seleção principal da Noruega. Pouco tempo depois, treinava entre os profissionais do Strømsgodset mesmo antes de completar 14 anos, algo praticamente impensável no futebol europeu.

O talento chamou rapidamente a atenção dos gigantes do continente.

Em 2015, o Real Madrid venceu uma disputa envolvendo diversos clubes e contratou o jovem meia por cerca de 2,7 milhões de libras. Parecia o início de uma carreira meteórica.

Só parecia. A pressão em Madri foi enorme. Sem espaço para amadurecer naturalmente, Odegaard acabou acumulando empréstimos por Heerenveen, Vitesse, Real Sociedad e Arsenal enquanto buscava minutos e estabilidade.

Foi justamente em Londres que tudo mudou.

Sob o comando de Mikel Arteta, o meia encontrou confiança, assumiu protagonismo e passou de promessa eterna a um dos melhores armadores da Premier League. Hoje, além de capitão do Arsenal, também lidera a seleção norueguesa na campanha mais importante de sua história.

Muito mais que o garçom de Haaland

Quando se fala na Noruega, é natural que o primeiro nome lembrado seja Erling Haaland. O atacante do Manchester City vive uma Copa espetacular e aparece entre os principais artilheiros da competição. Só que reduzir a campanha norueguesa ao camisa 9 seria bastante injusto.

Odegaard é o verdadeiro cérebro da equipe. Os números ajudam a explicar esse protagonismo.

Nenhum jogador da Noruega conduziu mais bolas que o camisa 10 durante esta Copa do Mundo. Foram 104 carregadas, mostrando sua capacidade de quebrar linhas também conduzindo a posse.

Quando não existe espaço para avançar com a bola dominada, entra em cena outra especialidade.

Odegaard lidera a seleção em passes para o último terço do campo, passes certos no campo ofensivo, bolas colocadas dentro da área adversária e passes em profundidade.

Além disso, nenhum atleta em toda a Copa conseguiu superar sua marca de sete passes quebrando linhas defensivas. Na prática, isso significa que boa parte das jogadas perigosas da Noruega nasce justamente dos pés do capitão.

Até o Brasil sofreu para entender Odegaard

A influência de Odegaard ficou evidente na vitória sobre o Brasil. Depois da partida, Vinícius Júnior admitiu que a Seleção não conseguiu executar o plano de jogo porque os noruegueses dominaram completamente a posse de bola.

Segundo o atacante brasileiro, Odegaard controlou o ritmo da partida e dificultou a pressão exercida pelos comandados brasileiros. Os números reforçam essa percepção.

O meia terminou aquele confronto com 101 passes certos. Apenas Sander Berge distribuiu mais passes pela Noruega, enquanto nenhum jogador brasileiro sequer chegou perto dessa marca.

Mais importante do que o volume foi a qualidade. Foram passes que aceleraram ataques, mudaram o lado do campo, desmontaram linhas defensivas e colocaram a equipe constantemente em posições perigosas.

Assistências viraram rotina

Além da construção das jogadas, Odegaard também aparece diretamente na produção ofensiva.

Ele soma três assistências nesta Copa do Mundo, igualando Andreas Schjelderup como o norueguês com mais passes para gol em uma única edição do torneio.

O feito ganha ainda mais relevância quando comparado com a história das Copas.

Após a vitória sobre Costa do Marfim, Odegaard tornou-se apenas o terceiro jogador desde 1966 a distribuir assistências em cada um dos três primeiros jogos de sua carreira em Mundiais. Antes dele, apenas Igor Belanov, pela União Soviética em 1986, e Michael Ballack, pela Alemanha em 2002, haviam conseguido algo semelhante.

Também foi o primeiro atleta em 16 anos a registrar assistências em três partidas consecutivas de Copa do Mundo.

Liderança sem precisar gritar

Se dentro de campo Odegaard organiza o futebol da Noruega, fora dele sua liderança acontece de maneira bem diferente do perfil tradicional.

Ele não é aquele capitão que passa os 90 minutos gritando com companheiros ou discutindo com a arbitragem. Sua influência aparece nas atitudes. O técnico Ståle Solbakken costuma dizer que o meia nunca foi apenas um camisa 10 clássico. Segundo o treinador, Odegaard participa de todas as fases do jogo.

É ele quem determina o momento da pressão, quem orienta a organização defensiva e quem praticamente escolhe, dentro da partida, se a Noruega defenderá em um 4-4-2 ou em um 4-1-4-1.

Por isso, Solbakken costuma defini-lo como “o primeiro defensor” da equipe.

Os dados comprovam essa dedicação. Odegaard lidera a Noruega em pressões de alta intensidade no campo ofensivo e também em ações de contra-pressão, mostrando que seu trabalho vai muito além da criação.

Temporada no Arsenal foi melhor do que parece

Curiosamente, parte da torcida do Arsenal terminou a última temporada questionando o rendimento do capitão.

As críticas surgiram principalmente porque lesões limitaram sua sequência de jogos. Mesmo assim, quando esteve em campo, Odegaard continuou produzindo em alto nível.

Dividiu a liderança de assistências da equipe na Premier League com Leandro Trossard e, mesmo sendo apenas o 13º jogador do elenco em minutos disputados, liderou os Gunners em criação de chances por 90 minutos.

Também ficou entre os melhores do elenco em conduções de bola e passes para o último terço. Ou seja, sua influência permaneceu praticamente intacta.

Para fechar a temporada, ainda levantou o troféu da Premier League como capitão do Arsenal.

Inglaterra é favorita, mas a Noruega sonha alto

Agora chega o maior desafio da campanha.

A Inglaterra aparece como favorita para avançar às semifinais. De acordo com as 25 mil simulações realizadas pelo supercomputador da Opta antes das quartas de final, os ingleses eliminam a Noruega em 62,3% dos cenários.

Na teoria, o favoritismo faz sentido. Na prática, porém, esta Copa já mostrou diversas vezes que estatísticas não entram em campo. A Noruega eliminou adversários fortes, encarou o caminho mais complicado entre todos os classificados e segue crescendo justamente nos momentos decisivos.

E se Haaland continuar decidindo na frente enquanto Odegaard mantiver o nível absurdo de organização, intensidade e liderança apresentado até aqui, ninguém poderá dizer que uma classificação histórica seria uma surpresa completa.

Afinal, às vezes os maiores protagonistas não são necessariamente aqueles que aparecem nas manchetes por causa dos gols. Alguns preferem escrever a história com a bola nos pés, organizando cada movimento do time e fazendo todos ao redor jogarem melhor. É exatamente esse o papel que Odegaard desempenha nesta Copa do Mundo.

Foto: Getty Images