Trajetórias profissionais raramente seguem uma linha reta, e na NFL, isso não é diferente. Ao longo da história da liga, diversos jogadores construíram inícios de carreira promissores antes de serem interrompidos por lesões, trocas de comissão técnica ou simplesmente uma sequência de mau desempenho. A forma como cada um responde a esses obstáculos, em geral, determina o que vem a seguir. Com a temporada de 2026 se aproximando, quem são os veteranos com mais a provar?
Vale uma ressalva importante: esta lista não contempla jogadores que ainda estão em busca de seu primeiro grande momento. O cornerback dos Jaguars Travis Hunter Jr., por exemplo, é um nome com enorme potencial a ser revelado, não recuperado.
Feito o ajuste de expectativas, eis os veteranos que têm tudo para reescrever suas narrativas em 2026
Spencer Burford, guard dos Raiders
Após ser titular em 29 partidas nas suas duas primeiras temporadas na NFL, Burford viu sua participação despencar: foram apenas nove jogos como titular somados entre 2024 e 2025 com os 49ers. Jogar ao lado de Trent Williams era uma situação confortável, mas a nova casa promete ser ainda melhor, Burford chega posicionado entre Kolton Miller e Tyler Linderbaum, uma das linhas ofensivas mais sólidas da liga. Suas limitações técnicas ainda existem, mas o novo técnico Klint Kubiak demonstrou habilidade em reduzir a carga sobre o setor ofensivo por meio do esquema tático, o que pode ser o alívio que Burford precisa para se reerguer.
Tank Dell, wide receiver dos Texans
Nas duas primeiras temporadas pela franquia de Houston, Dell registrou uma média de 49 recepções por ano, consolidando-se como uma ameaça explosiva no ataque dos Texans e um dos alvos favoritos de C.J. Stroud. A trajetória ascendente, no entanto, foi interrompida por uma lesão grave que o tirou de campo durante toda a temporada de 2025.
O cenário ao qual Dell retorna é diferente. Na última offseason, os Texans usaram escolhas do segundo dia do draft para contratar Jayden Higgins e Jaylin Noel, que se juntam a Nico Collins no setor de recebedores, um grupo mais disputado do que o que Dell encontrou em seus primeiros anos.
Não é realista esperar que ele volte como protagonista imediato. A expectativa mais concreta é que Dell use sua capacidade de criar espaço no campo para encontrar seu ritmo gradualmente e construir as bases para o restante de sua carreira.
Dre Greenlaw, linebackers dos 49ers
Greenlaw soube aproveitar os anos produtivos nos 49ers para garantir um contrato lucrativo com os Broncos. Em sua única temporada em Denver, ficou de fora de nove partidas, mas foi consistente nos jogos em que esteve disponível. A durabilidade segue sendo a principal interrogação sobre o linebacker de 29 anos.
Agora, porém, ele retorna ao sistema que o revelou como jogador de elite, desta vez reencontrando Fred Warner no meio da defesa. A familiaridade com o esquema e a presença de um parceiro de calibre podem ser os fatores que Greenlaw precisa para recuperar a regularidade e voltar à melhor versão de si mesmo.
Kader Kohou, cornerback dos Chiefs
Kohou havia se firmado como um dos poucos pontos positivos em uma secundária frágil dos Dolphins, mas perdeu toda a temporada de 2025 se recuperando de lesão, uma ausência que contrastou com a estabilidade dos anos anteriores, quando ficou fora de apenas quatro jogos nas três primeiras temporadas da carreira.
A mudança para Kansas City melhora consideravelmente o entorno. O elenco defensivo dos Chiefs é superior ao que Kohou tinha nos Dolphins, o que deve gerar mais oportunidades de bola ao longo da temporada. Na nova equipe, ele deve assumir a função de slot corner, posição antes ocupada por Trent McDuffie.
Sam LaPorta, tight end dos Lions
Desde a temporada de estreia, quando registrou 86 recepções, 889 jardas e 10 touchdowns, LaPorta vem apresentando queda de rendimento a cada ano. Na última temporada, o declínio ficou ainda mais evidente: foram apenas 40 recepções, 489 jardas e três touchdowns em um calendário comprometido por oito jogos de ausência.
Parte do problema tem explicação coletiva. A saída de Ben Johnson abalou todo o ataque de Detroit, e LaPorta foi um dos mais afetados pela transição. A chegada do novo coordenador ofensivo Drew Petzing, no entanto, abre uma janela de recuperação. O estilo de jogo que Petzing desenvolveu no Arizona, aliado às suas raízes em Cleveland, indica uma ofensiva que tende a valorizar o tight end como peça central no jogo aéreo, exatamente o perfil de LaPorta.
DJ Moore, wide receiver dos Bills
Moore era uma das principais referências do ataque dos Bears antes da chegada de Ben Johnson. Nas duas primeiras temporadas na franquia, ele registrou uma média de 97 recepções por ano. Com Johnson no comando, porém, a prioridade passou a ser o desenvolvimento dos jovens talentos do elenco, Rome Odunze e, mais recentemente, Luther Burden III, e Moore foi perdendo espaço progressivamente.
A queda de rendimento ficou evidente na segunda metade da temporada de 2025. Se nos primeiros oito jogos ele alcançou pelo menos três recepções em todas as partidas, nos nove jogos finais da temporada regular conseguiu essa marca apenas três vezes.
A troca para o Buffalo pode ter custado caro aos Bills, mas o valor pago reforça o compromisso da equipe em utilizá-lo de verdade. Moore está mais próximo do fim da carreira do que do início, mas a perspectiva de atuar como alvo número um de Josh Allen representa uma oportunidade real de revelar um potencial que, em Chicago, nunca chegou a ser totalmente aproveitado.
Kyler Murray, quarterback dos Vikings
Entre 2023 e 2025, Murray ficou de fora de 21 jogos da NFL, e o Arizona acabou optando por dispensá-lo para ganhar fôlego no teto salarial. Mas o quarterback escolhido de Oklahoma completa apenas 29 anos em agosto, e a mudança para o Minnesota pode representar exatamente o recomeço que sua carreira precisa.
À frente da franquia está Kevin O’Connell, técnico a quem se atribui a revitalização de nomes como Daniel Jones e Sam Darnold, um histórico que alimenta o otimismo em torno da chegada de Murray. Os números do quarterback reforçam a narrativa de declínio: ele lançou para pelo menos 3.700 jardas nas três primeiras temporadas da carreira, mas repetiu essa marca apenas uma vez nos últimos quatro anos.
O entorno em Minnesota é consideravelmente melhor do que o que Murray tinha no Arizona. Quando em plena forma, a linha ofensiva dos Vikings oferece mais proteção, e o jogo aéreo conta com nomes de peso como Justin Jefferson, Jordan Addison, Jauan Jennings e T.J. Hockenson. São ingredientes que, somados à orientação de O’Connell, constroem um cenário favorável para Murray voltar a ser o jogador que foi em seus melhores anos.
Mike Sainristil, cornerback dos Commanders
Sainristil teve uma temporada de estreia positiva, mas não sem contratempos. Apesar do perfil físico menos imponente, ele atuou na posição de slot em pouco menos de 15% dos snaps da temporada de 2025, segundo dados da TruMedia, um número abaixo do planejado pelos Commanders.
O motivo foi circunstancial: as lesões de Marshon Lattimore e Trey Amos forçaram a equipe a remanejá-lo para cobrir outras funções na secundária, adiando o plano original de utilizá-lo com mais frequência no slot. Agora em seu terceiro ano na liga, Sainristil chega a 2026 sob o comando do novo coordenador defensivo Daronte Jones, que ainda não definiu publicamente qual será o papel do cornerback formado em Michigan. O que se sabe é que a linha defensiva do Washington está mais sólida, e um setor dianteiro mais forte tende a facilitar o trabalho de toda a secundária, o que pode ser o empurrão que Sainristil precisa para dar um salto de qualidade.
Brian Thomas, wide receiver dos Jaguars
A temporada de calouro de Thomas foi impressionante: 87 recepções e quase 1.300 jardas recebidas. O segundo ano, porém, ficou bem abaixo desse nível. Em 14 jogos, o wide receiver registrou 48 recepções para 707 jardas e dois touchdowns, sem nenhuma partida com 100 jardas ou mais. A dificuldade de Jacksonville em aproveitar suas habilidades gerou frustração e abriu espaço para rumores de uma possível troca.
Até agora, os Jaguars rejeitaram todas as propostas e seguem demonstrando confiança pública no jogador. A equipe também se beneficia de um contexto ofensivo mais claro para 2026: com a incorporação de Jakobi Meyers ao ataque e sem a urgência de inserir Travis Hunter Jr. imediatamente como peça central, o time tem uma visão mais nítida de como distribuir as funções entre seus recebedores, o que pode ser o elemento que faltava para Thomas voltar a render no nível da estreia.
Garrett Wilson, wide receiver dos Jets
Wilson é um caso à parte. Nas três primeiras temporadas da carreira, ele registrou uma média de 93 recepções e ultrapassou as 1.000 jardas recebidas em todas elas. A temporada passada, porém, foi atípica: atuou nos seis primeiros jogos, sofreu uma lesão, voltou a campo em 9 de novembro e passou o restante do ano envolto em especulações públicas sobre suas condições físicas.
O contexto em torno do wide receiver também não ajudou. O plano dos Jets para a posição de quarterback em 2025 dependia de Justin Fields, Tyrod Taylor e Brady Cook, uma situação longe do ideal para qualquer recebedor. Já Geno Smith enfrentava suas próprias limitações em Las Vegas.
A questão que fica para 2026 é legítima: com uma linha ofensiva consideravelmente mais forte, Smith teria condições de render mais, mesmo com um ano a mais na carreira? Se a resposta for sim, Wilson pode se beneficiar diretamente disso e retomar o nível que o consagrou nos primeiros anos da carreira.
Foto: Adam Pretty/Getty Images