A possível contratação de Thiago Almada pelo Flamengo não representa apenas a chegada de mais um jogador de talento internacional. Caso o negócio seja concretizado, o argentino pode se tornar uma das principais peças da ideia de jogo de Leonardo Jardim, que busca construir um meio-campo técnico, móvel e capaz de controlar as partidas através da posse de bola.
Desde que assumiu o comando rubro-negro, Jardim tem demonstrado preferência por um modelo em que todos os jogadores do setor central participam da construção. O treinador não procura um time dependente de lançamentos ou de um único armador. Sua ideia passa por criar um meio-campo dinâmico, com constantes trocas de posição e jogadores capazes de receber entre as linhas, acelerar o jogo e manter o controle da posse. É justamente nesse contexto que Almada se encaixa.
A versatilidade de Almada pode funcionar no Flamengo
Embora costume atuar como meia ofensivo, o argentino está longe de ser um camisa 10 clássico que permanece parado atrás do centroavante esperando a bola chegar. Ao longo da carreira, ele se destacou pela capacidade de flutuar entre os espaços, aproximar-se dos volantes para participar da construção e conduzir a bola até o último terço do campo. Essa mobilidade faz dele um jogador difícil de ser marcado e amplia as possibilidades ofensivas da equipe.
Na prática, Almada poderia ocupar a faixa central do ataque, atuando à frente da dupla de meio-campistas formada por nomes como Pulgar, Jorginho ou Lucas Paquetá. Enquanto os dois seriam responsáveis por iniciar a construção desde a defesa, caberia ao argentino receber entre as linhas de marcação e transformar posse de bola em oportunidades de ataque.
Essa função conversa diretamente com aquilo que Leonardo Jardim procura no mercado. O treinador já deixou claro que deseja um meio-campista ofensivo capaz de aumentar a qualidade técnica da equipe. Mais do que um jogador criativo, ele busca alguém que participe da circulação da bola e consiga acelerar o ritmo quando surgir espaço. Almada reúne exatamente essas características.
O argentino pode começar centralizado e, poucos segundos depois, aparecer aberto pelo lado esquerdo ou direito para criar superioridade numérica. Essa liberdade de movimentação é uma das bases do modelo de Jardim, que incentiva seus jogadores a trocarem constantemente de posição para desorganizar a marcação adversária.
Essa dinâmica também favoreceria outros jogadores do elenco. Quando Almada recua para participar da construção, abre espaço para infiltrações de Lucas Paquetá ou para as ultrapassagens dos laterais. Se permanece entre as linhas, atrai marcadores e cria corredores para os pontas atacarem a profundidade. Trata-se de um jogador que modifica o posicionamento da defesa adversária mesmo quando não participa diretamente da jogada.
Sua capacidade de condução também representa um diferencial importante. Em muitos momentos, o Flamengo enfrenta equipes que defendem com linhas muito baixas. Nesses cenários, apenas trocar passes nem sempre é suficiente para romper a marcação. Almada oferece justamente uma alternativa: carregar a bola, eliminar adversários no drible e criar superioridade numérica em zonas congestionadas do campo.
Além disso, sua intensidade sem a posse combina com outra exigência de Leonardo Jardim. O treinador português valoriza jogadores capazes de pressionar imediatamente após perder a bola. Embora seja reconhecido principalmente pela criatividade, Almada também participa ativamente da recuperação da posse, pressionando a saída adversária e reduzindo o tempo de construção do rival. Essa disposição defensiva faz com que sua presença não comprometa o equilíbrio coletivo.
Taticamente, sua chegada ainda daria mais flexibilidade ao treinador. Dependendo do adversário, Jardim poderia manter um 4-2-3-1 tradicional, utilizando Almada como meia central. Em outros jogos, o argentino poderia atuar partindo do lado esquerdo, mas com liberdade para ocupar o corredor central durante praticamente toda a fase ofensiva. Essa capacidade de desempenhar diferentes funções sem alterar a estrutura coletiva aumenta consideravelmente as opções do treinador ao longo da temporada.
Outro ponto que favorece essa possível parceria é a filosofia de controle defendida por Leonardo Jardim. O português não procura acelerar todas as jogadas. Seu objetivo é fazer a equipe controlar o ritmo da partida, sabendo quando manter a posse e quando verticalizar. Almada se destaca justamente por essa leitura. Ele não é um jogador que busca o passe decisivo a qualquer custo. Muitas vezes prefere atrair a marcação, combinar com companheiros próximos e esperar o momento ideal para acelerar o ataque.
Essa tomada de decisão tende a tornar o Flamengo menos dependente de jogadas individuais e mais eficiente na construção coletiva.
Flamengo tem tudo que Almada quer, e Almada tem tudo que o Flamengo quer
Caso a contratação seja confirmada, Thiago Almada dificilmente será apenas mais um reforço de impacto. Suas características técnicas e táticas indicam que ele pode se tornar uma das peças centrais do projeto de Leonardo Jardim. Mais do que acrescentar criatividade ao elenco, o argentino ofereceria exatamente o perfil de jogador que o treinador procura para transformar o meio-campo no principal responsável por controlar os jogos.
Por isso, o interesse do Flamengo vai muito além da oportunidade de mercado. Se Almada vestir a camisa rubro-negra, sua contratação pode representar a consolidação da ideia de futebol que Leonardo Jardim tenta implementar: um time que domina seus adversários não apenas pela qualidade individual, mas pela inteligência e pela mobilidade de um meio-campo construído para pensar o jogo.
(Foto: Getty Images)