Por muitos meses, qualquer análise sobre Pau Cubarsí vinha acompanhada da mesma observação: “para a idade dele”. Era um zagueiro maduro para a idade, inteligente para a idade e seguro para a idade. Aos poucos, a expressão virou uma forma de dimensionar o tamanho de suas atuações. Depois da Copa do Mundo de 2026, porém, essa ressalva parece ter perdido completamente o sentido.
O defensor do Barcelona chegou ao torneio cercado pela expectativa de confirmar o potencial que já demonstrava desde a estreia no time principal. Saiu dos Estados Unidos, Canadá e México como campeão mundial, eleito o Melhor Jogador Jovem da competição e, principalmente, consolidado como um dos melhores zagueiros do futebol internacional.
A trajetória de Cubarsí já era marcada pela precocidade antes mesmo do Mundial. Aos 17 anos, estreou na Champions League diante do Napoli e foi eleito o melhor jogador da partida. Pouco tempo depois, Xavi Hernández destacava sua capacidade de tomar decisões sob pressão e sua leitura de jogo incomum para um atleta tão jovem. Em dezembro de 2025, ele já havia alcançado a marca de 100 partidas oficiais pelo Barcelona, um feito impressionante para alguém que sequer havia completado 19 anos.
Mesmo assim, a Copa do Mundo representava um desafio diferente. Não apenas pela dimensão do torneio, mas pela exigência de enfrentar alguns dos melhores ataques do planeta em sequência. E foi justamente nesse cenário que Cubarsí mostrou que sua evolução já ultrapassou a categoria das promessas.
O defensor seguro e que faz o perigo desaparecer

A campanha da Espanha foi construída a partir de um sistema coletivo extremamente sólido, mas o papel do zagueiro foi determinante para transformar essa organização em resultados. A equipe de Luis de la Fuente sofreu apenas um gol em oito partidas e terminou o torneio invicta. Mais do que os números, chamou atenção a forma como os adversários tiveram dificuldades para criar oportunidades claras contra La Roja.
Boa parte dessa segurança passa pelas características do próprio Cubarsí. Diferentemente de zagueiros que se destacam por cortes espetaculares ou recuperações desesperadas, o espanhol constrói sua atuação através da antecipação. Seu jogo é baseado na leitura dos lances, no posicionamento e na capacidade de neutralizar jogadas antes que elas se transformem em perigo real.
Essa característica ficou evidente durante toda a competição. Enquanto outros defensores precisam aparecer constantemente para corrigir problemas, Cubarsí muitas vezes passa despercebido justamente porque evita que eles aconteçam. Seu futebol é marcado pela simplicidade e pela eficiência.
Nem mesmo quando a Espanha enfrentou momentos de maior pressão o jovem defensor demonstrou qualquer sinal de insegurança. Nas quartas de final, diante da Bélgica, quando a seleção sofreu seu primeiro e único gol no torneio, foi dele uma das participações decisivas na vitória. Um chute de fora da área acabou gerando o rebote aproveitado por Mikel Merino para marcar o gol da classificação nos minutos finais.
Atuações contra França e Argentina consolidaram seu status

Mas talvez o momento que melhor represente sua Copa do Mundo tenha acontecido na semifinal contra a França. Do outro lado estavam jogadores como Kylian Mbappé, Ousmane Dembélé e Michael Olise, nomes capazes de decidir partidas em qualquer contexto. Ainda assim, a Espanha controlou completamente o confronto e praticamente anulou o poder ofensivo francês. Ao lado de Aymeric Laporte e protegido por Rodri, Cubarsí foi peça fundamental para desmontar um dos ataques mais talentosos da competição.
A atuação serviu para encerrar qualquer discussão sobre sua maturidade competitiva. Em uma semifinal de Copa do Mundo não existe desconto pela idade. Não existe categoria especial para jovens talentos. Existe apenas a capacidade de entregar desempenho diante dos maiores desafios do futebol mundial. E Cubarsí respondeu à altura.
A final contra a Argentina reforçou essa percepção. Diante de Lionel Messi e de uma seleção acostumada a crescer em jogos decisivos, o zagueiro manteve o mesmo nível apresentado ao longo de toda a competição. Seguro na saída de bola, dominante nos duelos e preciso nas coberturas, ajudou a conduzir a Espanha ao título conquistado na prorrogação.
Nos minutos finais, quando os argentinos pressionavam em busca do empate, ainda protagonizou uma intervenção decisiva ao interceptar um cruzamento que encontraria Marco Senesi em condições de finalizar dentro da área. Foi mais uma demonstração de uma qualidade que marcou toda sua trajetória no torneio: estar no lugar certo no momento certo.
Barcelona recebe um Cubarsí diferente

Ao final da Copa, Cubarsí acumulou um feito raro. Disputou todos os 750 minutos possíveis da campanha espanhola e tornou-se o zagueiro titular mais jovem a conquistar uma Copa do Mundo. Recebeu o prêmio de Melhor Jogador Jovem do torneio, mas a sensação é de que a premiação descreve apenas uma parte do que ele realizou.
Antes do Mundial, Cubarsí era visto como um dos maiores talentos da nova geração do futebol europeu. Depois dele, passou a ser tratado como uma realidade consolidada. O Barcelona recupera o mesmo jogador em termos técnicos, mas com um peso completamente diferente no cenário internacional.
A Copa do Mundo não mudou a forma como Pau Cubarsí joga. Mudou apenas a forma como o futebol passou a enxergá-lo. E talvez essa seja a maior prova do tamanho do torneio que ele fez: pela primeira vez, não parece mais necessário acrescentar “para a idade dele” quando o assunto é analisar seu futebol.
Créditos da foto de capa: Lars Baron/Getty Images