A saída de Memphis Depay do Corinthians talvez seja maior do que a despedida de um dos jogadores mais importantes do clube nos últimos anos. O caso expõe um problema recorrente no futebol brasileiro: até que ponto um clube profundamente endividado pode se dar ao luxo de contratar uma grande estrela?
Memphis chegou ao Corinthians cercado pela expectativa de ser o rosto de uma reconstrução. Entregou títulos, gols, assistências e protagonismo. Mas, menos de dois anos depois, deixa o clube com uma dívida que o próprio Corinthians estima em R$ 42 milhões, podendo chegar a R$ 77 milhões com juros e encargos.
É justamente essa conta que torna o episódio tão importante. Porque a questão não é dizer que Memphis foi uma contratação ruim. O problema é perguntar se o Corinthians tinha condições de fazer uma contratação desse tamanho.
A estrela pode trazer receita, mas também cria uma obrigação enorme, como mostra o caso Memphis
O raciocínio que leva clubes brasileiros a apostar em jogadores desse nível é compreensível. Uma grande estrela aumenta a venda de camisas, atrai patrocinadores, movimenta redes sociais, melhora a presença nos estádios e pode até aumentar o número de sócios. Em um mercado no qual os clubes precisam desesperadamente aumentar receitas, contratar um jogador conhecido mundialmente parece uma maneira relativamente rápida de elevar o valor da marca.
O problema aparece quando a receita projetada não acompanha a obrigação financeira assumida. Memphis é um exemplo perfeito disso. O Corinthians não está apenas deixando de renovar com um jogador caro. O clube agora precisa administrar uma dívida que pode chegar a R$ 77 milhões, enquanto o próprio Memphis sinaliza a possibilidade de recorrer à Fifa para cobrar os valores.
A estrela que deveria ajudar a reconstruir o clube passa a ser também uma das maiores obrigações financeiras da instituição.
O exemplo de Luis Suárez no Grêmio ajuda a deixar a discussão mais equilibrada. Quando o clube gaúcho contratou o uruguaio para 2023 e 2024, o negócio envolvia um investimento enorme para a realidade brasileira. O salário anual informado na época era de aproximadamente US$ 4,5 milhões, com uma parcela significativa do custo sendo viabilizada por parceiros.
Mas Suárez também produziu um efeito comercial grande. O número de sócios do Grêmio praticamente dobrou durante sua passagem, saindo de aproximadamente 61 mil para 119 mil. A estimativa divulgada na época apontava para um impacto superior a R$ 4 milhões mensais somente com essa expansão do quadro social.
Ou seja: uma estrela pode, sim, ajudar a pagar a própria conta. Mas existe uma diferença fundamental entre contratar uma estrela como parte de um projeto comercial estruturado e simplesmente assumir um custo elevado esperando que o jogador, sozinho, produza receitas suficientes para compensá-lo.
Suárez mostrou o primeiro caminho. O caso Memphis mostra os riscos do segundo.
O problema é que os clubes continuam pensando no presente
O futebol brasileiro possui uma característica perigosa: a pressão por resultados transforma decisões financeiras de longo prazo em problemas secundários.
Um clube está mal. A torcida cobra. O presidente precisa mostrar reação, então surge a contratação de impacto. Um nome conhecido é apresentado, a torcida se empolga, as redes sociais explodem e o discurso muda imediatamente.
O problema é que o contrato permanece mesmo quando a empolgação acaba, e os números atuais mostram o tamanho desse problema. Um levantamento publicado em 2026 aponta que os clubes das Séries A e B acumulavam R$ 17,3 bilhões em dívidas ao final de 2025, alta de 15% em relação ao ano anterior.
Outro levantamento mostra que 11 dos principais clubes brasileiros já ultrapassavam R$ 1 bilhão em passivos, com Corinthians, Atlético-MG, São Paulo e Botafogo acima dos R$ 2 bilhões. Nesse cenário, fica cada vez mais difícil justificar contratos milionários sem uma estrutura financeira capaz de sustentá-los.
Contratar um jogador de elite pode fazer sentido. O que não pode acontecer é transformar o jogador em uma espécie de plano de recuperação financeira.
A lógica precisa ser invertida. Primeiro, o clube deve saber quanto pode gastar. Depois, precisa estabelecer quanto daquela contratação será compensado por receitas comerciais, patrocínios, bilheteria e desempenho esportivo. Só então deve decidir se a operação é viável. Caso contrário, a matemática fica perigosa.
O Corinthians não vai continuar pagando o salário de Memphis. Mas continuará tendo de resolver a dívida com ele.
O problema não é contratar estrelas. É não conseguir pagar por elas
Seria simplista concluir que clubes endividados jamais deveriam contratar grandes jogadores. O próprio Suárez mostra que uma operação bem estruturada pode produzir resultados esportivos e comerciais extraordinários. O Grêmio conseguiu transformar a chegada do uruguaio em um fenômeno de mobilização da torcida e aumento de receitas.
A questão é outra. Clubes endividados precisam ser muito mais criteriosos para contratar estrelas do que clubes financeiramente equilibrados.
Se a operação depender de receitas futuras altamente incertas, o risco aumenta. Se depender de parceiros que podem abandonar o projeto, aumenta novamente. Se o clube já possui salários atrasados e dívidas com jogadores, o sinal de alerta deveria ser ainda maior.
E é exatamente nesse ponto que Memphis deixa uma reflexão para Corinthians, Grêmio, Atlético-MG, Vasco, São Paulo, Botafogo e tantos outros clubes que carregam passivos elevados.
Uma estrela pode mudar o patamar de um time. Mas também pode transformar um problema financeiro em uma bola de neve.
O futebol brasileiro está entrando em uma fase na qual simplesmente ter dinheiro para contratar já não será suficiente. Será necessário saber se aquele dinheiro pode ser gasto.
Memphis foi um grande jogador para o Corinthians. Suárez foi uma grande história para o Grêmio. Outros craques certamente ainda chegarão ao Brasil. A pergunta que os clubes precisam fazer antes de cada anúncio, entretanto, deveria ser menos romântica e mais pragmática.
A diferença entre as duas, nesse caso, pode separar uma contratação histórica de uma dívida histórica.
(Foto: Rodrigo Coca/Corinthians)



