O Manchester United continua buscando soluções para o meio-campo, e Carlos Baleba aparece como um nome capaz de entregar justamente algumas das características que faltaram ao time em diferentes momentos.
O volante do Brighton não é exatamente aquele jogador responsável por controlar o ritmo do jogo com passes refinados, mas pode oferecer algo igualmente valioso: intensidade, força física e capacidade para transformar uma recuperação de bola em ataque em poucos segundos.
Aos 22 anos, Baleba já chamou atenção na Premier League pela maneira como consegue ocupar grandes espaços do campo. É o tipo de meio-campista que parece estar em vários lugares ao mesmo tempo quando a equipe perde a bola. Para um Manchester United que, especialmente em jogos mais abertos, teve dificuldades para proteger o meio-campo, essa característica pode fazer bastante diferença.
Na melhor fase recente pelo Brighton, durante a temporada 2024/25, os números ajudam a explicar o interesse dos Red Devils. Baleba ficou entre os principais meio-campistas da Premier League em estatísticas defensivas e mostrou que seu jogo vai muito além de simplesmente ficar parado à frente da defesa.
Especialista em recuperar a bola
Na temporada 2024/25, Carlos Baleba terminou em quarto lugar entre os meio-campistas da Premier League em bolas recuperadas no terço central do campo, com 107. Também foi quarto em interceptações, com 46, quinto em recuperações de posse, com 197, e sétimo em duelos vencidos, chegando a 199.
São números que desenham bem o perfil do jogador. Baleba gosta do confronto, tem capacidade para antecipar jogadas e, principalmente, consegue cobrir espaços rapidamente quando o adversário tenta acelerar.
Sua mobilidade é uma das grandes armas. Em 2024/25, o camaronês atingiu velocidade máxima de 34,5 km/h, número bastante superior aos 30,5 km/h registrados por Casemiro. A comparação não serve para definir quem é melhor, obviamente, mas ajuda a mostrar a diferença entre os perfis físicos dos dois jogadores.
Enquanto Casemiro construiu a carreira com posicionamento, leitura de jogo e experiência, Baleba oferece uma capacidade maior para perseguir adversários e recuperar terreno. Em um campeonato tão intenso quanto a Premier League, ter um jogador capaz de apagar incêndios — e correr para o próximo antes que o primeiro esteja totalmente apagado — é um recurso importante.
Além disso, Baleba registrou média de 8,2 ações defensivas por 90 minutos. Isso reforça a ideia de um meio-campista extremamente ativo sem a bola, algo que poderia ajudar o Manchester United a encontrar mais equilíbrio.
Recuperar e carregar: a grande diferença
Mas talvez o aspecto mais interessante do jogo de Baleba seja o que acontece depois da recuperação.
O volante não se limita a roubar a bola e entregar para o companheiro mais próximo. Ele tem capacidade para conduzir a posse e avançar pelo meio-campo, quebrando linhas através da força física e da aceleração.
Em 2024/25, Baleba registrou média de 6,7 conduções progressivas por 90 minutos. Apenas três volantes qualificados da Premier League tiveram números superiores. Dentro desse total, 2,9 conduções por partida avançaram pelo menos 10 metros.
Na prática, é um jogador que pode transformar uma situação defensiva em ofensiva quase imediatamente.
Imagine o United recuperando a bola próximo ao próprio campo. Em vez de precisar construir lentamente desde trás, Baleba pode carregar a posse, atrair marcadores e abrir espaço para jogadores mais criativos. É justamente nesse ponto que uma eventual contratação faria sentido ao lado de nomes como Bruno Fernandes ou Youri Tielemans.
Baleba não precisa ser o cérebro do meio-campo
É importante, porém, entender o que Carlos Baleba não é.
Ele não chega ao Manchester United como um organizador clássico. Na temporada analisada, apenas 11,8% dos seus passes foram classificados como passes que quebram linhas, enquanto 22,7% viajaram para frente. Ambos os números ficaram abaixo da média entre meio-campistas centrais e defensivos.
Isso significa que Baleba provavelmente não seria o jogador responsável por ditar o ritmo de uma partida ou iniciar todas as construções ofensivas. Mas isso não precisa ser um problema.
Na verdade, pode até ser o motivo pelo qual ele se encaixa melhor ao lado de determinados jogadores. Youri Tielemans, por exemplo, possui maior capacidade para fazer a bola progredir através dos passes. Bruno Fernandes também pode assumir responsabilidades criativas, enquanto Baleba ficaria mais livre para recuperar, conduzir e proteger os espaços.
Seria uma divisão de tarefas bastante clara: um organiza, outro destrói — e, quando necessário, carrega o piano para frente também.
Diferentes parceiros, diferentes funções
A versatilidade de Baleba também pode permitir diferentes formações no meio-campo do Manchester United.
Ao lado de Kobbie Mainoo, por exemplo, o camaronês poderia assumir uma parcela maior do trabalho defensivo. Mainoo teria mais liberdade para participar da construção e aparecer em zonas ofensivas, enquanto Baleba seria responsável por cobrir espaços e recuperar a posse.
Já uma parceria com Andrey Santos poderia criar outra dinâmica. Nesse cenário, Baleba poderia receber maior liberdade para atuar de área a área, usando sua capacidade física para conduzir a bola e chegar em zonas mais avançadas.
Essa flexibilidade aparece também na distribuição de suas posições. Na última temporada, 88% dos seus minutos foram como volante, enquanto 12% aconteceram como meio-campista central. Ou seja, ele pode atuar como o jogador mais recuado do setor, mas também tem características para avançar dependendo do parceiro.
Encaixe interessante no sistema de Carrick
O Manchester United defendeu, na maior parte do tempo, em uma estrutura de 4-2-2-2 sob o comando de Michael Carrick. Essa organização representou 55,9% das formações defensivas da equipe.
Em um sistema assim, os jogadores do meio podem ser obrigados a cobrir grandes espaços, especialmente quando os laterais avançam ou quando o adversário consegue escapar da primeira linha de pressão.
É justamente nesse tipo de cenário que Baleba pode se tornar especialmente importante.
Sua velocidade e capacidade para vencer duelos podem ajudar o United a interromper contra-ataques antes que eles cheguem à defesa. Além disso, sua presença física permitiria que o time tivesse um jogador capaz de fazer coberturas sem necessariamente desmontar toda a estrutura.
Ainda existe um período de adaptação
Apesar das qualidades, uma eventual chegada de Baleba ao Manchester United não significaria que tudo funcionaria imediatamente.
O meio-campista está se recuperando de uma lesão nos ligamentos do tornozelo sofrida durante a pré-temporada e precisará recuperar completamente o ritmo competitivo. Além disso, existe uma questão tática. O United de Carrick tem buscado passar períodos mais longos com a bola e construir jogadas através de combinações rápidas no meio-campo.
Baleba, por outro lado, parece mais confortável em partidas abertas, com espaço para correr e conduzir. Seu perfil de passe mostra que ele ainda pode precisar de adaptação caso receba maior responsabilidade na construção desde trás.
Esse talvez seja o principal ponto de desenvolvimento do jogador.
Aos 22 anos, porém, Baleba ainda tem bastante margem para evoluir. Mesmo após uma temporada 2025/26 mais discreta do que a anterior, o que mostrou em 2024/25 explica por que o Manchester United acompanha seu nome há tanto tempo.
Peça para dar energia ao meio-campo
Carlos Baleba não seria, necessariamente, a contratação responsável por resolver todos os problemas do Manchester United. Ele não é o meia criativo que vai controlar cada posse de bola nem o especialista em lançamentos que muda o jogo com um único passe.
O que ele oferece é outra coisa: intensidade.
Baleba pode recuperar a bola, vencer duelos, cobrir espaços, acelerar para acompanhar contra-ataques e, principalmente, conduzir a posse para frente depois de uma recuperação. É um perfil que pode complementar jogadores mais técnicos e criativos.
Com seu pé esquerdo, mobilidade e capacidade física, o camaronês tem características para formar diferentes parcerias no meio-campo. Ao lado de Bruno Fernandes ou Tielemans, poderia oferecer proteção e liberdade para os criadores. Com Mainoo, teria condições de assumir uma função mais defensiva. Já em uma dupla diferente, poderia até aparecer mais como um jogador box-to-box.
Ainda há evolução pela frente, e a adaptação a um futebol de maior controle de posse pode exigir paciência. Mas, no seu melhor nível, Carlos Baleba reúne uma combinação difícil de encontrar: ele é capaz de defender com intensidade e, segundos depois, estar conduzindo a bola rumo ao ataque.
Para um Manchester United que precisa encontrar mais energia e equilíbrio no meio-campo, talvez seja exatamente esse tipo de reforço que falta. Porque, às vezes, não basta recuperar a bola. É preciso saber o que fazer com ela depois e Baleba, quando está em boa forma, parece bastante confortável em simplesmente pegar a bola e sair correndo.
Foto: Getty Images



