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Automobilismo Fórmula 1

Ferrari realmente errou ao não parar Hamilton durante o VSC em Monza?

A Ferrari voltou a ser colocada no centro das críticas estratégicas durante o Grande Prêmio da Itália. Quando um Virtual Safety Car (VSC) surgiu na parte intermediária da corrida em Monza, a equipe decidiu não chamar Lewis Hamilton para os boxes. O britânico permaneceu na pista com pneus médios, enquanto alguns de seus principais adversários aproveitaram a neutralização para trocar de pneus.

A decisão imediatamente levantou suspeitas. Hamilton já demonstrava preocupação com a durabilidade dos pneus e, nas voltas finais, acabou perdendo posições e ritmo. Max Verstappen entrou nos boxes durante o VSC e colocou pneus duros, enquanto Lando Norris permaneceu na pista com o mesmo composto. No fim, Hamilton terminou atrás dos dois e ainda viu Pierre Gasly se aproximar perigosamente nas últimas voltas.

À primeira vista, parecia mais um capítulo da longa história de decisões estratégicas questionáveis da Ferrari. Mas, quando os números são analisados com mais cuidado, a conclusão é bem menos óbvia. A matemática sugere que parar durante o VSC provavelmente teria melhorado o desempenho de Hamilton, mas talvez não o suficiente para mudar significativamente sua posição final.

A Ferrari tinha motivos para desconfiar da própria estratégia

A reputação da Ferrari quando o assunto é estratégia não nasceu ontem. Ao longo dos anos, a equipe acumulou decisões difíceis de explicar em momentos críticos, como a troca antecipada para pneus de chuva de Kimi Räikkönen na Malásia em 2009, a estratégia de Fernando Alonso no GP de Abu Dhabi de 2010 e a escolha de manter Sebastian Vettel com pneus supermacios durante a bandeira vermelha do GP da Austrália de 2016.

Mais recentemente, a estratégia da equipe em Mônaco, em 2022, contribuiu para que Charles Leclerc perdesse uma vitória que parecia encaminhada.

Por isso, qualquer decisão da Ferrari em uma situação estratégica delicada acaba sendo analisada sob uma lupa ainda maior. Mas é importante lembrar que a equipe também teve acertos. Em Barcelona, no início desta temporada, Hamilton conseguiu sua primeira vitória pela Ferrari após uma estratégia de três paradas. A equipe conseguiu transformar um plano relativamente agressivo em uma corrida vencedora.

O problema é que aquele caso não serve necessariamente como comparação perfeita. Hamilton tinha ritmo suficiente para fazer a estratégia funcionar, e sua última parada aconteceu durante um VSC provocado pela parada de Fernando Alonso. A neutralização facilitou o trabalho da Ferrari, mas o ritmo do britânico era tão bom que o impacto daquela decisão específica talvez nem tenha sido determinante para a vitória.

Depois disso, entretanto, a Ferrari voltou a sofrer com decisões de menor escala. No GP da Inglaterra, Hamilton foi chamado aos boxes durante um Safety Car tardio e perdeu a segunda colocação para George Russell. A equipe aparentemente acreditava que a corrida seria retomada em determinadas condições.

Na Hungria, novamente sob VSC, Hamilton foi chamado para os boxes em uma tentativa de preservar uma posição no pódio. O resultado foi a perda de posições para Verstappen e Kimi Antonelli, além de uma punição por excesso de velocidade no pit lane.

Assim, quando outro VSC apareceu em Monza, a Ferrari tinha uma escolha delicada pela frente. E decidiu deixar Hamilton na pista.

Hamilton não gostou da decisão

O problema é que os pneus médios de Hamilton ainda precisavam durar cerca de 50 voltas no total. Apesar da baixa degradação observada durante o fim de semana, havia motivos para preocupação. Pilotos que utilizaram os pneus duros por períodos semelhantes também registraram uma queda gradual de desempenho ao longo dos stints.

Hamilton, inclusive, deixou claro depois da corrida que teria preferido outra abordagem. “Eu senti que provavelmente deveríamos estar com o pneu duro, mas também precisávamos ultrapassar pessoas porque estávamos mais atrás do que deveríamos”, explicou o piloto.

O britânico também revelou que esperava uma parada durante o VSC. “Eu achei que eles iriam me parar e então não pararam, então simplesmente fiquei sem pneus.”

E foi exatamente isso que aconteceu. Nas 17 voltas finais, Hamilton perdeu posição para Verstappen e Norris e começou a perder ritmo. Gasly, que vinha atrás, chegou a reduzir a diferença para apenas 2,8 segundos na bandeirada. A impressão inicial, portanto, era de que a Ferrari havia desperdiçado uma oportunidade de ouro. Mas será que uma parada realmente teria mudado a corrida?

A matemática coloca a decisão em outra perspectiva

Para descobrir isso, é preciso olhar para o ritmo dos carros antes e depois da neutralização. Entre as voltas 7 e 27, Kimi Antonelli registrou uma média de 1min25s847, enquanto Verstappen teve média de 1min26s058. Hamilton, no mesmo período, ficou em 1min26s307. A partir desses números, pode-se estimar o ganho de desempenho proporcionado por pneus novos.

Uma estimativa conservadora considera que Hamilton teria sido cerca de um segundo mais rápido por volta caso tivesse parado para colocar um novo jogo de pneus médios. Porém, como o carro estava ficando mais leve com o consumo de combustível, parte dessa melhora de ritmo aconteceria naturalmente. Descontando esse efeito, o ganho efetivo estimado seria de aproximadamente 0,623 segundo por volta.

Há outro fator importante: uma parada sob VSC ainda custa tempo. Verstappen perdeu cerca de 14,9 segundos ao fazer seu pit stop durante a neutralização, enquanto Antonelli perdeu aproximadamente 15,1 segundos.

Portanto, uma perda de 15 segundos pode ser usada como referência. Quando essa perda é aplicada à corrida de Hamilton e o ganho estimado de 0,623 segundo por volta é considerado nas 24 voltas restantes, o resultado é surpreendente.

Hamilton teria terminado apenas 0,05 segundo mais atrás de Antonelli do que terminou na realidade. Ou seja: dentro dessa estimativa conservadora, parar não teria praticamente mudado nada. É claro que esse cálculo depende das premissas utilizadas. Se considerarmos um cenário mais otimista, no qual Hamilton conseguisse ganhar um segundo completo por volta com pneus novos, sua diferença para Antonelli cairia para aproximadamente 15,6 segundos.

Nesse cenário, ele poderia ter chegado à briga com as McLaren e até pressionado Lando Norris, possivelmente disputando posição com Oscar Piastri. Esse seria o melhor cenário possível para a parada. Há ainda uma terceira possibilidade. Se o ganho de 0,376 segundo por volta observado naturalmente com a evolução da pista e a redução do combustível também for considerado para Antonelli, a vantagem líquida de Hamilton aumentaria. Nesse caso, sua diferença final para o piloto da Mercedes ficaria em aproximadamente 19,1 segundos.

Isso o colocaria entre as duas McLaren. Portanto, dependendo do modelo utilizado, Hamilton poderia ter terminado em quinto, em vez de sexto. Mas ainda havia um problema.

O VSC não garantia uma vantagem para Hamilton

O momento exato da neutralização é fundamental. O VSC terminou justamente quando Verstappen já havia deixado o pit lane. Hamilton estava mais de seis segundos atrás do Red Bull em velocidade de corrida. Isso significa que, caso tivesse entrado nos boxes, ele provavelmente estaria apenas saindo do pit lane quando a bandeira verde fosse acionada. Na prática, perderia alguns segundos adicionais em relação à vantagem obtida por Verstappen e Antonelli.

Isso provavelmente o colocaria atrás das duas McLaren de qualquer maneira. Por isso, mesmo que os pneus novos oferecessem uma vantagem considerável nas voltas restantes, Hamilton precisaria encontrar uma diferença de desempenho muito grande para transformar a parada em uma mudança significativa de resultado.

A matemática não absolve completamente a Ferrari. A equipe claramente assumiu um risco ao manter Hamilton na pista, especialmente considerando a preocupação do próprio piloto com os pneus. Mas também não sustenta a ideia de que a decisão foi responsável por arruinar uma possível grande posição de chegada.

O verdadeiro problema estava no carro

No fim das contas, a estratégia parece ter sido mais uma questão de margem do que um erro catastrófico. Hamilton poderia ter ganhado uma posição caso a Ferrari optasse pela parada. Em um cenário extremamente favorável, poderia até ter entrado na disputa com as McLaren.

Mas o pit stop também teria custado tempo imediatamente, e o fim do VSC provavelmente teria reduzido boa parte da vantagem obtida com os pneus novos. O problema mais profundo da Ferrari em Monza estava em outro lugar: a falta de velocidade de reta do SF-26.

Mesmo com uma estratégia diferente, essa limitação continuaria existindo. Foi justamente por isso que a decisão pareceu muito pior nas voltas finais. Hamilton estava com pneus desgastados, enquanto os adversários tinham condições melhores para explorar a velocidade nas retas. A Ferrari acabou pagando o preço de uma escolha que, isoladamente, não alterava tanto a corrida.

Portanto, a resposta para a pergunta inicial é menos dramática do que as redes sociais fizeram parecer. A Ferrari poderia ter parado Hamilton durante o VSC? Sim. Teria sido uma escolha defensável? Também. Mas os números indicam que não havia garantia de uma melhora significativa no resultado.

O sexto lugar provavelmente estava muito mais relacionado às limitações do carro do que a uma única decisão tomada no pit wall. E, em Monza, esse detalhe acabou sendo mais importante do que qualquer erro estratégico.

Foto: (Reprodução/ Fórmula 1)