Há vitórias que explicam um time pelo futebol que ele apresenta. Outras explicam um time pela maneira como ele consegue escapar de situações em que o adversário parece ter o controle. O 2 a 0 do Flamengo sobre o Independiente del Valle, em Quito, pertence à segunda categoria. O atual campeão da Libertadores não fez uma partida de imposição durante os 90 minutos, não controlou a posse de bola e sequer conseguiu finalizar no primeiro tempo. Ainda assim, deixou o Equador com uma vantagem que o coloca muito perto da semifinal e com uma demonstração importante de maturidade competitiva.
O cenário inicial parecia apontar para uma noite completamente diferente. Jogando a 2.850 metros de altitude, o Flamengo passou os primeiros 45 minutos praticamente inteiro no próprio campo. O Del Valle teve 68% de posse de bola e finalizou dez vezes, contra nenhuma tentativa rubro-negra. A equipe equatoriana empurrou o adversário para trás, dificultou a saída de bola e chegou a acertar a trave com Carlos González.
O mais impressionante, portanto, não foi simplesmente o placar. Foi o fato de o Flamengo ter conseguido atravessar aquele período sem sofrer um gol. Em uma partida disputada em altitude, contra um adversário acostumado às condições de Quito e diante de um time que vinha fazendo uma temporada excepcional no futebol equatoriano, sobreviver ao pior momento poderia ser tão importante quanto criar oportunidades.
E foi exatamente isso que aconteceu.
O primeiro tempo foi do Del Valle — e isso não significa que o Flamengo tenha perdido o jogo
Existe uma tentação natural de avaliar uma vitória por 2 a 0 a partir do placar e concluir que o vencedor foi superior. O jogo, no entanto, conta uma história mais interessante.
O Del Valle teve o domínio territorial no primeiro tempo, conseguiu manter o Flamengo longe da área adversária e transformou a posse em pressão. O time de Leonardo Jardim teve dificuldades para trocar passes e construir ataques, enquanto seus jogadores demonstravam os efeitos físicos de atuar em Quito. O cenário chegou a ser tão desfavorável que o empate sem gols no intervalo parecia um resultado positivo para os brasileiros.
Mas existe uma diferença fundamental entre ser dominado e ser desorganizado. O Flamengo sofreu, mas não se desmontou. A linha defensiva permaneceu concentrada e compacta e a equipe conseguiu impedir que o domínio territorial do adversário se transformasse em uma avalanche de chances claras. O Del Valle chutou dez vezes, mas não conseguiu marcar.
Essa distinção é importante porque explica por que o segundo tempo foi possível. O Flamengo não precisou recuperar uma desvantagem. Precisou apenas encontrar uma maneira de mudar o jogo.
A grande virtude do Flamengo depois do intervalo foi perceber que não precisava transformar a partida em uma disputa de posse. Precisava encontrar os momentos certos para acelerar.
E o primeiro deles apareceu aos 15 minutos. Jorginho encontrou Samuel Lino pela esquerda, e o atacante cruzou para Bruno Henrique finalizar e abrir o placar. Foi uma jogada simples na execução, mas representativa daquilo que o Flamengo tinha de melhor: poucos toques, velocidade e jogadores capazes de transformar uma pequena brecha em uma oportunidade decisiva.
A escolha de Bruno Henrique como titular, deixando Pedro no banco, também ganhou outra dimensão depois do resultado. Leonardo Jardim optou por um atacante capaz de atacar a profundidade e aproveitar espaços, uma característica especialmente útil em uma partida na qual o adversário naturalmente precisaria se lançar ao ataque.
Não era necessário que Bruno Henrique tivesse dez oportunidades. Era necessário que tivesse uma
O segundo gol reforçou essa lógica. Emerson Royal encontrou Léo Pereira pelo alto, e o zagueiro marcou de cabeça para transformar uma partida equilibrada em termos de chances reais em uma vitória extremamente confortável.
Em outras palavras, o Flamengo não ganhou porque criou muito. Ganhou porque soube transformar em gol os poucos momentos em que conseguiu atacar com qualidade.
O resultado mostra outra versão do Flamengo
Durante boa parte da temporada, o Flamengo de Leonardo Jardim foi associado a um futebol de maior controle, circulação de bola e imposição técnica. Em Quito, porém, a equipe precisou abandonar temporariamente algumas dessas características.
E isso pode ser uma notícia ainda melhor do que simplesmente vencer.
Grandes candidatos a títulos continentais precisam ter mais de uma maneira de ganhar. Há partidas em que será necessário dominar. Outras exigirão paciência. Algumas serão resolvidas pela qualidade individual. E existem noites como a de Quito, em que a equipe precisa suportar o adversário durante longos períodos antes de encontrar o momento certo para atacar.
Essa foi a primeira vitória de um visitante em um confronto entre Flamengo e Del Valle por competições da entidade. Nos seis encontros anteriores, sempre havia vencido o mandante, uma sequência que incluía a dolorosa derrota brasileira por 5 a 0 em 2020. Quebrar esse histórico na altitude torna o resultado ainda mais importante.
Existe ainda uma característica do Flamengo que pode se tornar decisiva nas próximas semanas: a possibilidade de mudar a partida sem necessariamente perder qualidade.
Pedro começou no banco. De Arrascaeta e outros jogadores importantes também tiveram participação ao longo da partida, enquanto Gonzalo Plata retornou ao time depois da frustrada tentativa de transferência para o Dínamo de Moscou e participou da construção do segundo gol.
Isso não significa que o Flamengo seja imune a problemas. O próprio desgaste físico provocado pela altitude foi evidente, e Leonardo Jardim já sinalizou que deverá poupar jogadores contra o Corinthians por causa do esforço realizado em Quito.
Mas existe uma diferença entre administrar desgaste com um elenco limitado e administrar desgaste tendo opções de alto nível no banco.
O Flamengo está no segundo cenário E, em setembro, isso pode valer tanto quanto uma boa escalação titular.
A classificação ainda precisa ser confirmada
O 2 a 0 coloca o Flamengo em uma situação extremamente favorável, mas não encerra o confronto.
O jogo de volta será no Maracanã, no dia 17 de setembro. O Flamengo pode perder por um gol de diferença e ainda avançar. Caso o Del Valle vença por dois gols, a decisão será nos pênaltis.
Leonardo Jardim, portanto, tem razão ao tratar a vantagem como um passo importante, mas não como uma classificação garantida. A Libertadores já produziu reviravoltas suficientes para ensinar que dois gols de vantagem não podem transformar uma equipe em espectadora no jogo de volta.
A diferença é que agora quem precisa correr atrás do resultado é o Del Valle.
E isso muda completamente o confronto.
No Equador, o time de Joaquín Papa teve liberdade para controlar a posse, avançar seus jogadores e pressionar o Flamengo. No Maracanã, precisará atacar desde o início, enquanto o adversário poderá explorar espaços maiores e jogar com o resultado.
É exatamente o tipo de cenário no qual a velocidade de Bruno Henrique, Samuel Lino e outros jogadores ofensivos pode se tornar ainda mais perigosa.
**Foi menos uma vitória do espetáculo do que uma vitória da maturidade. **O time suportou a altitude, resistiu ao domínio do Del Valle, encontrou dois momentos para atacar e voltou para o Rio com uma vantagem que poucos esperavam depois daquele primeiro tempo. O resultado não garante o pentacampeonato e tampouco encerra a eliminatória, mas oferece ao Flamengo algo que todo candidato ao título precisa ter: a capacidade de vencer de maneiras diferentes.
E talvez seja esse o sinal mais perigoso para os adversários. O Flamengo pode jogar bem e vencer. Pode dominar e vencer. Pode controlar a partida e vencer. Mas, em Quito, mostrou que também pode sofrer, esperar e vencer. Em uma Libertadores, essa última capacidade costuma aparecer justamente nos campeões.
(Foto: Rodrigo Buendia/AFP)



