O Liverpool de Andoni Iraola acaba de encontrar um problema que não estava necessariamente relacionado ao adversário. O empate sem gols com o Fulham, em Anfield, expôs pela primeira vez de maneira tão clara a dificuldade de transportar para uma sequência de jogos a intensidade que o novo treinador deseja de sua equipe. Depois de uma atuação vibrante contra o Atlético de Madrid no meio de semana, os Reds voltaram ao campo poucos dias depois e apresentaram um futebol completamente diferente. O resultado foi o terceiro empate em quatro rodadas da Premier League e, principalmente, mais dois pontos perdidos em casa.
O problema não é simplesmente que o Liverpool não tenha vencido. Times que pretendem disputar títulos inevitavelmente terão partidas em que não conseguirão produzir seu melhor futebol. O sinal de alerta está na maneira como a equipe desapareceu ofensivamente diante de um Fulham que chegava pressionado e que havia sofrido sete gols nas três primeiras rodadas. O Liverpool teve posse, manteve sua estrutura e conseguiu preservar a própria meta, mas não encontrou energia nem criatividade suficientes para transformar domínio territorial em chances claras. Iraola reconheceu justamente esse ponto ao admitir que faltou “frescura” à equipe e que o desempenho ofensivo precisava ser muito melhor.
A intensidade de Iraola encontra o calendário da Premier League
Desde que chegou a Anfield, Iraola deixou claro que não pretende construir um Liverpool baseado em economia de energia. A ideia é pressionar, acelerar e manter o adversário constantemente desconfortável. Essa filosofia funcionou em determinados momentos do início do trabalho, mas o calendário europeu introduz uma questão inevitável: não é possível jogar sempre como se houvesse uma semana inteira de preparação pela frente.
A partida contra o Fulham foi justamente o primeiro grande experimento dessa realidade. O Liverpool havia enfrentado o Atlético de Madrid na Champions League e voltou a campo com menos de três dias de intervalo. O próprio Iraola classificou o período como o pior que sua equipe terá de enfrentar em termos de descanso. O resultado mostrou que a intensidade desejada pelo treinador não pode existir apenas como característica de um time descansado. Ela precisa sobreviver ao desgaste.
Isso não significa necessariamente que Iraola esteja errado ao exigir tanto de seus jogadores. Pelo contrário. A questão é que seu modelo precisa evoluir de uma intensidade constante para uma intensidade inteligente. Em determinados momentos, o Liverpool terá de saber quando acelerar, quando controlar a posse e quando aceitar que uma partida não precisa ser disputada em velocidade máxima durante 90 minutos.
Essa talvez seja uma das maiores diferenças entre montar um time competitivo e montar um time capaz de ganhar títulos. Uma equipe pode ser extremamente intensa em uma partida isolada. Uma candidata ao título precisa encontrar maneiras diferentes de vencer quando as pernas não respondem da mesma forma.
O ataque caro ainda precisa virar um ataque funcional
O empate também colocou sob os holofotes o novo trio ofensivo do Liverpool. Alexander Isak, Bradley Barcola e Florian Wirtz começaram juntos pela primeira vez em uma partida de Premier League, representando um investimento de aproximadamente £364 milhões, mas o peso financeiro do trio não apareceu em campo. Isak teve apenas 16 toques durante os 90 minutos, um número que ilustra o quanto o centroavante ficou distante do jogo.
O dado é especialmente preocupante porque Isak já havia registrado apenas 14 toques contra o Nottingham Forest duas semanas antes. O atacante pode até ser um dos jogadores mais talentosos do elenco, mas nenhum centroavante consegue fazer diferença se a equipe não consegue colocá-lo em condições de participar do jogo. A questão, portanto, não é simplesmente individual. É estrutural.
Wirtz, que havia sido um dos grandes nomes da vitória sobre o Atlético de Madrid, também caiu de produção. Barcola apresentou alguns lampejos, mas ainda está em processo de adaptação física ao futebol inglês. O próprio Iraola afirmou que o francês está sendo desenvolvido fisicamente por meio dos jogos.
É natural que exista um período de adaptação. São jogadores de características diferentes, chegando a um time que também está mudando sua identidade. O desafio de Iraola será descobrir como conectar essas peças sem transformar o ataque em um conjunto de grandes talentos funcionando separadamente.
Contra o Atlético, a energia coletiva ajudou a esconder algumas dessas questões. Contra o Fulham, quando a intensidade caiu, elas ficaram expostas.
O Liverpool precisa aprender a ganhar quando não estiver bem
Talvez essa seja a principal lição deixada pelo empate. Iraola não pode esperar que seu Liverpool jogue bem em todas as partidas. Nenhum time consegue. O que ele precisa construir é uma equipe capaz de vencer mesmo quando estiver abaixo do próprio nível.
O próprio treinador apontou a necessidade de encontrar gols em situações diferentes, como uma bola parada ou um momento de brilho individual. Essa capacidade pode parecer menos sofisticada do que uma grande atuação coletiva, mas é justamente ela que costuma separar uma equipe competitiva de uma campeã ao longo de uma temporada com dezenas de partidas.
A temporada ainda está no começo e seria exagerado tratar três empates em quatro jogos como uma crise. O Liverpool continua invicto e já mostrou, inclusive, que possui recursos para produzir atuações de alto nível. O problema é que os resultados mostram uma margem de erro pequena: foram seis pontos conquistados nas quatro primeiras rodadas, com empates contra Newcastle, Nottingham Forest e Fulham e uma vitória sobre o Ipswich.
E, para um clube que pretende disputar a Premier League e a Champions League simultaneamente, perder pontos em casa contra adversários que chegam em momentos menos favoráveis pode se tornar caro no fim da temporada.
A profundidade do elenco será colocada à prova muito antes do que Iraola gostaria. O Liverpool ainda terá pelo menos sete partidas pela Champions League, além de compromissos domésticos como o duelo contra o Tottenham pela Copa da Liga. O calendário não vai diminuir para que o novo treinador consiga desenvolver seu modelo de jogo. Ele terá de fazer isso enquanto disputa jogos decisivos.
Esse é talvez o aspecto mais interessante da reconstrução do Liverpool. O clube não contratou apenas jogadores para aumentar a qualidade individual. Investiu pesado justamente em uma nova geração ofensiva, com Isak, Wirtz e Barcola como símbolos de uma mudança de ciclo. Agora Iraola precisa transformar esse talento em uma equipe capaz de funcionar em diferentes contextos.
O empate com o Fulham mostrou o primeiro limite dessa construção. O Liverpool consegue ser intenso, agressivo e dominante quando está fisicamente preparado. Ainda precisa descobrir como será quando estiver cansado, quando o adversário fechar os espaços e quando a solução não aparecer naturalmente.
Alisson resumiu o problema de maneira ainda mais direta ao afirmar que, para fazer algo especial na temporada, o Liverpool precisará aprender a lidar com partidas na quarta, no sábado e novamente na terça. Essa não é uma dificuldade passageira. É a realidade de um clube que pretende competir por tudo.
Iraola chegou a Anfield para construir uma identidade. E identidade, no futebol de alto nível, não significa apenas saber como jogar quando tudo funciona. Significa também reconhecer o jogo quando as pernas pesam, quando o ataque não encaixa e quando o adversário transforma a partida em um teste de paciência.
O Liverpool ainda está descobrindo isso.
E talvez o 0 a 0 com o Fulham seja mais importante para a construção da equipe do que uma vitória confortável teria sido. Porque agora Iraola sabe que sua maior tarefa não será simplesmente fazer o Liverpool jogar com intensidade.
Será fazer com que essa intensidade sobreviva ao calendário.
(Foto: Getty Images)

