O Vasco criou um problema que antes nem existia
Durante boa parte da temporada, o Vasco precisou encontrar soluções para um problema básico: ter jogadores suficientes para competir. Agora, a situação mudou.
O clube está nas semifinais da Copa Sul-Americana e da Copa do Brasil, enquanto ainda tenta escapar da zona de rebaixamento no Campeonato Brasileiro. A classificação diante do Santa Fe colocou o Vasco entre os quatro melhores da competição continental e confirmou o confronto com o Boca Juniors.
O problema é que o Brasileirão não espera.
O Vasco ocupa o 17º lugar, com 28 pontos, mesma pontuação do Grêmio, primeiro time fora do Z-4. Restam 11 rodadas para a maioria dos clubes, mas o Vasco ainda tem uma partida atrasada e, por isso, terá 12 jogos pela frente.
De repente, aquilo que parecia um sonho distante virou uma questão de planejamento: como disputar duas semifinais sem comprometer justamente a competição em que o clube mais precisa de regularidade?
Os reforços mudaram a dimensão do elenco
É nesse ponto que o trabalho de Pedro Emanuel ganha importância. O treinador não melhorou apenas o time titular. Recuperou jogadores que estavam em baixa, distribuiu minutos e encontrou utilidade para peças que poderiam ter ficado à margem do elenco.
A última janela aumentou ainda mais as possibilidades, com as chegadas de Santiago Sosa, Facundo Colidio, Alan Lescano, Bruno Duarte, Gabriel Pereira e Paulinho.
Esses jogadores não serviram apenas para aumentar a quantidade de opções. Deram ao Vasco a possibilidade de competir sem depender o tempo inteiro da mesma formação.
Na Sul-Americana, isso já apareceu durante a campanha. Contra o Santa Fe, por exemplo, Bruno Duarte marcou o primeiro gol e David saiu do banco para fazer o segundo. A equipe conseguiu controlar a reta final mesmo depois de o adversário aumentar a pressão.
É uma diferença importante em relação ao Vasco de meses atrás.
Antes, qualquer ausência relevante parecia capaz de comprometer o funcionamento do time. Agora, Pedro Emanuel tem peças para alterar a equipe sem necessariamente desmontá-la.
As copas deixaram de ser sonho e viraram calendário
Só que existe uma diferença entre ter elenco para disputar três competições e conseguir sustentar esse nível até o fim.
Na Sul-Americana, o Vasco terá o Boca Juniors pela frente na semifinal, com o segundo jogo em casa. As partidas estão previstas para outubro, entre os dias 13 e 21. Na Copa do Brasil, o adversário será o Palmeiras, novamente com a decisão no Rio.
Ou seja: quanto mais o Vasco avança nas copas, mais pesada fica a conta no Brasileirão. E essa é a contradição que torna a temporada tão particular.
As copas oferecem ao clube a possibilidade de disputar títulos e viver noites que, há pouco tempo, pareciam improváveis. O Brasileirão, por outro lado, exige regularidade justamente no período em que o calendário vai cobrar mais do elenco.
Não existe jogo descartável para quem está no Z-4.
O Vasco não precisa escolher uma competição agora
Por isso, seria precipitado dizer que o Vasco precisa abandonar uma das competições. O desafio, neste momento, é administrar.
Pedro Emanuel tem adotado a ideia de jogo a jogo, e faz sentido. Não porque seja possível ignorar o calendário, mas porque estabelecer uma prioridade definitiva agora poderia ser mais prejudicial do que útil.
Uma lesão, uma sequência ruim no Brasileirão ou um desgaste maior em uma das copas pode mudar completamente o planejamento.
O Vasco não precisa decidir hoje qual torneio vai deixar de lado. Precisa ter capacidade para tomar decisões diferentes em semanas diferentes. É aí que profundidade de elenco deixa de ser um conceito abstrato e passa a ser uma necessidade.
O Brasileirão é a parte mais delicada da equação
Existe, porém, um limite para essa estratégia. Enquanto uma boa sequência nos mata-matas levou o Vasco às semifinais, o Brasileirão cobra desempenho durante 12 partidas. E a situação atual deixa pouco espaço para erros.
O time está em 17º, com 28 pontos, empatado com o Grêmio. A distância para sair da zona pode ser pequena, mas a necessidade de pontuar é permanente. Por isso, tratar o campeonato nacional como uma competição secundária seria perigoso.
Ao mesmo tempo, abrir mão das copas também não parece ser uma consequência obrigatória da luta contra o rebaixamento. O próprio crescimento do elenco oferece uma terceira possibilidade: competir em todas e administrar as forças.
É para isso que os reforços precisam servir.
O verdadeiro teste começa agora
Talvez essa seja a principal mudança de perspectiva.
Os reforços não chegaram apenas para fazer o Vasco jogar melhor. Chegaram para permitir que o clube sobrevivesse a uma temporada com mais jogos, mais decisões e mais pressão.
Chegar às semifinais mostrou que o elenco ganhou profundidade. Agora, porém, começa a parte mais exigente desse processo.
Boca Juniors e Palmeiras serão adversários de peso. No Brasileirão, cada rodada terá impacto direto na luta contra o rebaixamento. E os jogos estarão cada vez mais próximos uns dos outros.
O Vasco precisará dos seus principais jogadores, mas também precisará daqueles que, até pouco tempo atrás, eram apenas alternativas.
Esse talvez seja o maior desafio de Pedro Emanuel: não escolher simplesmente os 11 melhores, mas os 11 mais preparados para cada contexto.
O Vasco ganhou o direito de sonhar, mas o calendário vai cobrar escolhas
A curva ascendente do Vasco nas copas criou uma responsabilidade que não existia algumas semanas atrás. O clube agora precisa sustentar dois sonhos enquanto tenta resolver um problema bastante concreto no Brasileirão.
Talvez não seja necessário deixar nenhum campeonato de lado. Mas será necessário aceitar que não será possível tratar todos os jogos da mesma maneira.
Haverá partidas em que o Vasco precisará colocar força máxima. Haverá outras em que o desgaste exigirá mudanças. E haverá momentos em que a tabela, a condição física dos jogadores e a importância de cada confronto determinarão as escolhas.
É justamente para isso que os reforços foram contratados. O Vasco deixou de ter apenas um problema de elenco. Agora tem um problema de calendário. E esse talvez seja o melhor sinal de que alguma coisa realmente mudou em São Januário.
Porque o desafio já não é encontrar um time capaz de competir, mas, sim, esse time continuar competitivo quando cada jogo começar a exigir uma escolha.
Foto: Matheus Lima/Vasco/Divulgação

