Por mais que o Barcelona siga sendo ligado à busca por um novo centroavante, Hansi Flick pode já ter encontrado uma solução dentro do próprio elenco. Ela não é exatamente tradicional, mas vem funcionando muito bem neste início de temporada.
Não há um centroavante fixo entre os zagueiros, nem um jogador preso à área esperando cruzamentos ou funcionando como substituto direto de Robert Lewandowski. No lugar disso, aparece Raphinha, que deixou de ser apenas uma opção pelos lados e passou a atuar como principal referência ofensiva da equipe.
O que inicialmente parecia apenas uma adaptação passou rapidamente a chamar atenção. O brasileiro marcou oito gols em seis partidas oficiais, balançando as redes em todos os jogos, com exceção da vitória sobre o Levante.
Foram seis gols em cinco partidas de La Liga e mais dois na goleada por 5 a 1 sobre o Feyenoord, pela Champions League. Enquanto isso, o Barcelona venceu seus seis jogos e marcou 26 gols.
O cenário lembra um movimento recente que deu muito certo no futebol europeu. No PSG, Ousmane Dembélé também deixou de ser apenas um ponta e passou a atuar em uma função central mais difícil de definir. A transformação terminou com muitos gols, título da Champions League e a conquista da Bola de Ouro de 2025.
Raphinha não joga como um centroavante tradicional
Antes da partida contra o Valencia, Hansi Flick deixou claro que a utilização de Raphinha pelo centro não era mais apenas uma solução emergencial. O treinador afirmou que o brasileiro era a melhor opção do Barcelona para a posição de camisa 9.
A escolha tem relação direta com as características do jogador. Raphinha gosta de se movimentar para dentro, possui intensidade para pressionar, velocidade para atacar espaços e capacidade física para participar de diferentes momentos da jogada.
Seu papel não consiste em permanecer esperando a bola dentro da área. O brasileiro se aproxima do meio-campo, aparece pelos lados, tenta atacar as costas da defesa e se movimenta constantemente para abrir espaços.
Quando o Barcelona perde a posse, Raphinha também precisa ser o primeiro a pressionar a saída adversária. Em seguida, pode voltar rapidamente a ocupar espaços próximos ao gol.
Os números mostram que a adaptação está funcionando. O brasileiro marcou dois gols e deu uma assistência contra o Elche, balançou as redes contra o Athletic Club, anotou dois diante do Rayo Vallecano e marcou mais um contra o Valencia.
Depois, voltou a marcar duas vezes contra o Feyenoord e ainda distribuiu assistências diante do Levante. Com seis gols em cinco partidas de La Liga, Raphinha assumiu a liderança inicial da artilharia.
O brasileiro também foi eleito o melhor jogador de agosto no Campeonato Espanhol depois de marcar cinco gols e distribuir uma assistência durante o mês.
A sensação é que Flick não tenta transformar Raphinha em um centroavante clássico. A ideia parece ser colocá-lo em uma posição que aproveite ao máximo suas melhores características e, ao mesmo tempo, diminua o problema do Barcelona na busca por um novo camisa 9.
Dembélé virou exemplo de transformação no PSG
É justamente aí que a comparação com Ousmane Dembélé começa a fazer sentido. Quando Luis Enrique mudou a posição do francês no PSG, a proposta não era simplesmente colocar um ponta no centro do ataque para aumentar sua quantidade de gols.
A ideia também passava por diminuir algumas limitações impostas pela atuação aberta. Dembélé posteriormente reconheceu que a mudança para uma função central ajudou bastante seu futebol.
O francês também precisou aprender novos comportamentos sem a bola. Pressionar zagueiros e goleiros, entender posicionamentos defensivos e manter intensidade na primeira linha de marcação passaram a fazer parte de seu papel.
Os resultados foram enormes. Na temporada 2024/25, Dembélé terminou com 37 gols e 15 assistências, foi eleito o melhor jogador da Champions League e conquistou a Bola de Ouro.
Na competição europeia, marcou oito gols e distribuiu seis assistências em 15 partidas. Mas sua importância não estava apenas na capacidade de finalizar.
Dembélé passou a ser responsável por iniciar a pressão sem a bola e também por recuar para criar superioridade numérica no meio-campo. Com isso, tornou-se um jogador difícil de acompanhar.
O atacante central do PSG passou a funcionar como o primeiro defensor quando a equipe não tinha a bola e como uma referência extremamente móvel quando o time atacava.
Raphinha já vinha mudando com Hansi Flick
Apesar das semelhanças, existe uma diferença importante entre Raphinha e Dembélé. O francês precisou passar por uma mudança mais profunda em seu jogo, enquanto o brasileiro já vinha vivendo uma transformação desde a chegada de Hansi Flick.
Na temporada 2024/25, Raphinha marcou 34 gols e distribuiu 22 assistências em 57 partidas. O brasileiro deixou de ser um jogador frequentemente ligado a possíveis transferências para se transformar em uma das principais figuras do Barcelona.
Seu desempenho também o levou à quinta colocação na votação da Bola de Ouro.
Mesmo naquela temporada, Raphinha já não atuava exatamente como um ponta esquerda tradicional. Em vários momentos, deixava o lado do campo e aparecia por dentro, ocupando espaços próximos da posição de camisa 10.
Naquela época, Lewandowski funcionava como referência central, enquanto Raphinha era responsável por oferecer movimentação ao seu redor.
Por isso, atuar agora como camisa 9 pode ser visto menos como uma transformação completa e mais como uma continuação natural de sua evolução.
Ainda assim, seis partidas representam uma amostra pequena. Haverá jogos em que o Barcelona enfrentará defesas muito fechadas, situações em que apenas movimentação talvez não seja suficiente para criar espaços.
Também existirão momentos em que o time precisará de alguém brigando fisicamente entre dois zagueiros, além de partidas de Champions League nas quais será necessário ter um atacante capaz de jogar de costas para o gol.
Raphinha não precisa se transformar em todos os tipos de centroavante ao mesmo tempo. E o Barcelona também não deveria esperar isso dele.
Barcelona pode construir ataque sem um camisa 9 fixo
A chegada de Gabriel Jesus ajuda justamente nesse sentido. O brasileiro oferece a Hansi Flick uma alternativa de centroavante mais reconhecida e com características diferentes.
Mesmo assim, considerando a configuração atual do elenco, não existem muitas dúvidas de que Raphinha deverá seguir como principal opção do Barcelona pelo centro do ataque.
A grande lição do caso Dembélé no PSG não é que todo ponta deve virar centroavante. A questão principal está em entender que as divisões tradicionais entre posições podem esconder aquilo que um jogador possui de melhor.
Dembélé se tornou ainda mais perigoso quando deixou de ficar preso à linha lateral e passou a ter liberdade para movimentar todo o ataque.
Flick pode estar percebendo algo parecido com Raphinha. Existe até uma coincidência interessante: quando Dembélé conquistou a Bola de Ouro em 2025, o brasileiro terminou em quinto na votação.
Agora, os caminhos dos dois parecem se aproximar também do ponto de vista tático.
Talvez a discussão não seja mais sobre Raphinha conseguir ou não se transformar no novo camisa 9 do Barcelona. A ideia pode ser justamente construir uma equipe em que os adversários nunca saibam exatamente onde encontrar esse centroavante.
Foi essa imprevisibilidade que ajudou o PSG a construir um ataque extremamente difícil de defender. E, pelo início apresentado pelo Barcelona, Hansi Flick pode estar tentando reproduzir uma fórmula parecida na Catalunha.
Foto: Divulgação/Barcelona



