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Matheus Nunes: o jogador que se tornou indispensável ao Manchester City sem fazer barulho

Em um clássico como Manchester United x Manchester City, é natural que os holofotes procurem os protagonistas mais óbvios. Erling Haaland, Gianluigi Donnarumma, Enzo Fernández, Marc Guéhi, Elliot Anderson e Iliman Ndiaye tiveram atuações importantes na vitória por 1 a 0 do City em Old Trafford. Mas, enquanto alguns nomes decidiram o jogo com ações que chamaram imediatamente a atenção, Matheus Nunes fez algo diferente: passou os 90 minutos construindo uma atuação que talvez explique melhor do que qualquer outra por que ele se tornou tão importante para a equipe de Enzo Maresca.

O português foi um dos grandes responsáveis por sustentar o Manchester City em um jogo que exigiu concentração, disciplina e capacidade de adaptação. Depois de ficar com dez jogadores, o City precisou defender durante longos períodos e proteger uma vantagem mínima diante do maior rival. Nunes, atuando novamente como lateral-direito, respondeu à exigência com uma atuação completa.

Foram duas interceptações, dois bloqueios, quatro duelos terrestres vencidos, cinco cortes e oito recuperações. Com a bola, completou 34 passes, com 92% de aproveitamento, além de 14 passes que quebraram linhas. Percorreu 10,4 quilômetros em campo e, principalmente, conseguiu reduzir progressivamente a influência de Marcus Rashford pelo lado esquerdo do ataque do United.

O curioso é que nada disso parece particularmente espetacular quando observado individualmente. E talvez seja justamente essa a maior qualidade de Nunes.

De contratação para o meio-campo a solução para a lateral

Quando o Manchester City contratou Matheus Nunes, a expectativa era bastante diferente. O português chegou do Wolverhampton como meio-campista, associado principalmente à capacidade física, condução e potência para percorrer grandes espaços.

A adaptação à lateral-direita aconteceu posteriormente, durante o trabalho de Pep Guardiola. Em vez de tratar a mudança como uma improvisação, o City encontrou em Nunes características que poderiam ser potencializadas naquela posição. A capacidade de correr, a força nos duelos, a disponibilidade para cobrir espaços e a segurança crescente com a bola fizeram com que o português deixasse de ser apenas um meio-campista deslocado para a defesa.

Um jogador improvisado normalmente ocupa uma posição porque o treinador não possui alternativa. Matheus Nunes, cada vez mais, parece ocupar a lateral porque suas características oferecem soluções específicas para o modelo de jogo do City.

A transformação também diz muito sobre a maneira como o clube passou a montar seu elenco. O Manchester City atravessou uma profunda renovação de peças nos últimos tempos. Jogadores importantes deixaram o clube, novos nomes chegaram e a equipe precisou encontrar diferentes combinações para continuar competitiva. Nesse processo, jogadores capazes de desempenhar mais de uma função ganharam um valor ainda maior.

Matheus Nunes se encaixa perfeitamente nessa categoria. Ele conhece o meio-campo, mas consegue atuar na lateral. Pode participar da construção, mas também possui capacidade física para defender grandes espaços. Pode aproximar-se da área central ou permanecer aberto. E, quando a partida exige, consegue simplesmente correr, disputar e proteger o setor. Em um elenco em transformação, isso é ouro.

Contra o United, Matheus Nunes mostrou o valor da consistência

O clássico de Old Trafford foi um dos melhores exemplos dessa importância. O City precisava proteger uma vantagem de 1 a 0 e passou boa parte da segunda etapa em uma situação especialmente desconfortável: com um jogador a menos. Em um cenário assim, a atuação de um lateral não pode ser analisada apenas pela capacidade de apoiar o ataque.

A prioridade passa a ser sobreviver. E Matheus Nunes fez isso. Rashford começou o clássico criando problemas pela esquerda, mas sua influência diminuiu conforme o jogo avançou. O lateral português permaneceu concentrado, não abandonou sua posição de maneira irresponsável e conseguiu limitar o espaço disponível para o atacante.

Suas cinco rebatidas e oito recuperações mostram um jogador constantemente envolvido na proteção da própria área. As duas interceptações e os dois bloqueios reforçam outro aspecto: Nunes não estava simplesmente acompanhando a jogada; estava antecipando algumas das ações do adversário.

Isso se torna ainda mais relevante quando o time joga com dez. Com um jogador a menos, cada erro de posicionamento custa mais. Um lateral que abandona seu setor abre uma avenida para o adversário. Uma disputa perdida pode criar uma situação de superioridade numérica. Uma recuperação mal executada pode devolver imediatamente a posse ao rival.

Matheus Nunes reduziu esse risco. Foi uma atuação de sobrevivência, mas também de inteligência.

No entanto, a característica mais interessante de Matheus Nunes seja justamente o fato de sua origem no meio-campo continuar aparecendo quando ele joga como lateral.

Os 92% de precisão nos passes são apenas uma parte da história. Os 14 passes para quebrar linhas mostram que sua contribuição não se limita a tocar a bola para o jogador mais próximo.

Matheus Nunes unes consegue participar da progressão. Isso muda a maneira como o City pode construir suas jogadas.

Um lateral puramente defensivo pode oferecer segurança, mas limita algumas possibilidades na posse. Nunes oferece algo diferente porque sua formação como meio-campista permite que ele reconheça espaços interiores e encontre passes capazes de avançar o bloco.

É uma espécie de híbrido. Ele pode ser lateral quando o City precisa defender e transformar-se em um jogador adicional de meio-campo quando a equipe possui a bola.

Essa versatilidade é particularmente importante para um treinador como Maresca, cujo modelo depende de jogadores capazes de interpretar diferentes alturas e funções dentro do campo.

A posição indicada na escalação, portanto, conta apenas uma parte da história. Nunes é lateral-direito, mas seu futebol continua carregando elementos de meio-campista.

O coadjuvante que deixou de ser coadjuvante

É possível que Matheus Nunes nunca seja o jogador mais celebrado do Manchester City.

E talvez nem precise ser. Sua importância está justamente em outra característica: ele tornou-se aquele jogador que o treinador sabe que pode colocar em campo quando precisa de confiabilidade.

O clássico de Old Trafford foi uma demonstração quase perfeita disso. Enquanto Haaland precisava decidir na frente, Donnarumma precisava defender atrás e os outros jogadores precisavam compensar a expulsão, Nunes precisava simplesmente continuar fazendo seu trabalho. E fez.

O português completou 90 minutos em alta intensidade, ajudou a controlar Rashford, participou da construção, ganhou duelos e acumulou ações defensivas. Não marcou, não deu assistência e não produziu o tipo de lance que costuma viralizar.

Mas foi fundamental para que o City preservasse o resultado. Essa talvez seja a melhor definição para o momento de Nunes: ele se tornou indispensável sem precisar parecer indispensável.

A transformação de meio-campista em lateral poderia ter sido apenas uma solução circunstancial. Em vez disso, tornou-se uma das histórias mais interessantes da evolução do elenco do Manchester City.

Matheus Nunes aprendeu uma nova posição, incorporou novas responsabilidades e encontrou uma maneira de transformar versatilidade em consistência.

No futebol de alto nível, isso também é uma forma de protagonismo. Às vezes, o jogador mais importante não é aquele que decide a partida. É aquele que permite que todos os outros façam o que precisam fazer.

Em Old Trafford, Matheus Nunes foi exatamente esse jogador.

(Foto: Getty Images)