Futebol Serie A

Donyell Malen: como a Roma encontrou o jogador que a Premier League não conseguiu enxergar

Oito meses atrás, Donyell Malen era um atacante que ainda tentava descobrir como poderia ser relevante no futebol inglês. Hoje, nenhum jogador das cinco principais ligas da Europa marcou mais gols do que ele desde sua estreia pela Roma, em janeiro. A transformação é tão radical que parece contar a história de dois jogadores diferentes: aquele que passou pela Premier League sem conseguir atingir o potencial esperado e o atacante que, na Itália, se tornou uma das armas ofensivas mais produtivas do continente.

Desde que estreou pela Roma, Malen marcou 20 gols, superando nomes como Harry Kane e Lamine Yamal no mesmo período. Quando gols e assistências são somados, são 22 participações diretas em gols, também o melhor número entre os jogadores das cinco grandes ligas europeias. Aos 27 anos, o holandês passou de uma peça que não encontrava espaço definido no Aston Villa para o centro de um projeto ofensivo.

A explicação mais fácil seria falar em confiança. Jogadores mudam de ambiente, recuperam autoestima e reencontram a capacidade de decidir partidas. Existe, evidentemente, um componente psicológico nessa transformação. Mas os números sugerem que há algo mais concreto acontecendo em Roma.

A diferença pode estar menos na versão de Malen e mais na maneira como a Roma decidiu utilizá-lo.

O atacante que finalmente ganhou uma posição

A passagem pelo Aston Villa ajuda a dimensionar a transformação. Em 46 partidas pelo clube inglês, Malen marcou dez gols e deu duas assistências. Na Roma, já são 21 gols e três assistências em apenas 25 jogos.

Mais impressionante do que o número bruto é a velocidade com que os gols passaram a aparecer. Na Inglaterra, Malen precisava de aproximadamente 149,8 minutos para marcar. Na Itália, esse intervalo caiu para 96,7 minutos. É uma diferença grande demais para ser ignorada.

No entanto, existe um detalhe ainda mais importante: a posição. No Aston Villa, Malen foi utilizado em diferentes regiões do ataque. Apenas 52% de seus minutos de Premier League aconteceram como centroavante. Ele podia aparecer pelos lados, atuar mais aberto ou ocupar diferentes funções dentro da linha ofensiva.

Em Roma, a situação é praticamente oposta. Sob o comando de Gian Piero Gasperini, 99% dos minutos de Malen na Serie A aconteceram pelo centro.

Isso significa que a Roma não precisou descobrir uma nova versão do jogador. Descobriu onde colocá-lo. Malen passou a ser o ponto de referência do ataque. Recebeu uma função mais clara, passou a atacar a área com maior frequência e deixou de gastar parte de sua energia tentando interpretar diferentes posições no setor ofensivo.

A consequência é que suas melhores características passaram a aparecer com maior regularidade.

Existe uma diferença fundamental entre um atacante que participa do sistema ofensivo e um atacante em torno do qual o sistema ofensivo é construído.

No Aston Villa, Malen parecia muitas vezes pertencer à primeira categoria. Era uma peça que poderia ocupar diferentes espaços e oferecer soluções distintas. Em Roma, tornou-se uma referência.

Essa mudança altera o tipo de decisão que o jogador precisa tomar. Quando atua aberto, o atacante precisa pensar em condução, combinação pelo corredor, cruzamento e movimentação para dentro. Como centroavante, a relação com o gol muda. A prioridade passa a ser atacar o espaço entre os zagueiros, ocupar a área, antecipar cruzamentos e estar preparado para finalizar.

É justamente nessa região que Malen parece ter encontrado seu melhor futebol. Depois do empate por 1 a 1 contra o Fenerbahçe pela Champions League, no qual participou da construção do gol da Roma, o jornalista francês Julien Laurens destacou a importância que o holandês ganhou no funcionamento da equipe de Gasperini. Segundo ele, Malen se tornou “o coração de tudo o que eles fazem com a bola”.

A observação ajuda a explicar por que a explosão estatística não parece ser apenas uma sequência aleatória de jogos.

A Roma transformou Malen em protagonista. E o jogador respondeu com gols.

A Itália não mudou apenas Malen, mudou o contexto

A história de Malen também se encaixa em um fenômeno maior envolvendo jogadores que passaram pela Premier League e encontraram na Serie A um ambiente mais adequado para suas características.

Scott McTominay é um exemplo. Depois de deixar o Manchester United pelo Napoli, o escocês se tornou uma peça importante no futebol italiano e já soma 22 gols na Serie A desde sua chegada.

Rasmus Højlund também encontrou uma nova dinâmica em Nápoles depois de uma passagem pelo Manchester United marcada por questionamentos sobre seu rendimento. Desde sua estreia pelo Napoli, o dinamarquês acumulou 19 participações em gols na competição.

A trajetória desses jogadores não significa que a Serie A seja necessariamente um campeonato no qual qualquer atleta da Premier League automaticamente prosperará. O que existe é outra possibilidade: uma mudança de ambiente pode revelar características que não estavam sendo potencializadas no contexto anterior.

Isso é particularmente relevante para Malen porque ele não chegou à Inglaterra como um atacante sem pedigree. Antes da Premier League, já havia construído uma reputação como goleador. O problema não era a ausência de talento ofensivo. Era encontrar uma maneira de transformar esse talento em produção constante dentro de um novo contexto.

A Roma aparentemente encontrou a resposta.

O que a Premier League pode ter perdido

O caso de Malen também levanta uma discussão interessante sobre avaliação de jogadores.

No futebol moderno, é comum que uma passagem abaixo das expectativas seja interpretada como uma sentença definitiva sobre o atleta. Se um atacante não marca o suficiente em determinado clube, rapidamente surgem conclusões sobre suas limitações, sua adaptação ou sua capacidade de atuar naquele nível.

Malen mostra como essa análise pode ser incompleta.

Um jogador não existe isoladamente. Seu rendimento depende do espaço que recebe, dos companheiros ao redor, da função que exerce, do treinador e até da frequência com que participa de determinadas situações de jogo.

No Aston Villa, Malen precisava se adaptar ao sistema. Na Roma, o sistema parece ter se adaptado melhor a Malen.

Ao colocá-lo quase exclusivamente como centroavante, Gasperini reduziu a quantidade de funções que Malen precisa interpretar e aumentou a frequência com que ele aparece onde é mais perigoso: próximo ao gol.

O resultado é um atacante mais eficiente, mas não necessariamente um atacante completamente diferente. É como se a Roma tivesse removido o ruído ao redor de Malen.

De promessa desperdiçada a peça importante

Existe ainda uma dimensão simbólica nessa recuperação.

Aos 27 anos, Malen já não está na fase em que pode ser tratado apenas como uma promessa esperando pelo momento de explodir. Ele já acumulou experiências em diferentes países, passou por grandes clubes e enfrentou a pressão de corresponder a expectativas elevadas.

Por isso, sua explosão em Roma tem um significado diferente.

Não se trata apenas de um jovem descobrindo seu potencial. Trata-se de um jogador estabelecido finalmente encontrando um contexto no qual suas melhores características conseguem aparecer de forma consistente.

E isso torna sua história particularmente relevante para a própria Roma.

O clube não encontrou simplesmente um atacante em boa fase. Encontrou uma referência ofensiva capaz de mudar a maneira como a equipe ameaça seus adversários.

Quando um jogador participa diretamente de 22 gols desde sua chegada, ele deixa de ser apenas um componente do sistema. Passa a influenciar a própria estrutura do time.

A Roma encontrou em Malen um ponto de partida para seus ataques.

Malen, por sua vez, encontrou na Roma algo que parecia ter perdido na Inglaterra: clareza.

(Foto: Getty Images)