Arrascaeta Flamengo
Futebol Libertadores

Flamengo deixa vantagem virar armadilha, mas encontra no caos a força para avançar na Libertadores

A vantagem de Quito virou uma armadilha no Maracanã

O Flamengo entrou no Maracanã com uma situação que qualquer equipe gostaria de ter antes de um jogo decisivo: dois gols de vantagem construídos fora de casa. O problema é que essa margem, em vez de servir como ponto de partida para uma partida controlada, acabou se transformando em uma espécie de armadilha.

O time de Leonardo Jardim não precisava sair desesperadamente para atacar. Também não precisava correr riscos desnecessários. Mas precisava entender que o 2 a 0 não significava que o confronto estava resolvido.

E o início da partida mostrou justamente o contrário.

O Flamengo até teve alguns momentos de controle, mas não conseguiu impor ritmo, pressionar a saída do Independiente del Valle ou manter o adversário longe de sua área. Aos poucos, os equatorianos perceberam que havia espaço para jogar.

O problema deixou de ser apenas técnico. O Flamengo passou a disputar uma partida em que o adversário acreditava cada vez mais que poderia buscar a classificação. Aos 30 minutos, a consequência apareceu. Perelló ganhou de Ayrton Lucas em uma bola longa, cruzou, Rossi espalmou e Reasco aproveitou o rebote para marcar.

O 1 a 0 ainda deixava o Flamengo em vantagem no agregado. Mas a sensação em campo já era outra.

O Flamengo perdeu o controle antes de perder a vantagem

O gol do Del Valle não transformou sozinho uma classificação encaminhada em drama. O que fez isso foi a maneira como o Flamengo chegou até ele.

A equipe encontrava dificuldades para construir, errava passes em regiões perigosas e tinha pouca capacidade para acelerar quando recuperava a bola. Bruno Henrique teve uma grande oportunidade no primeiro tempo, mas não conseguiu aproveitar. Paquetá também não encontrava o espaço necessário para participar da partida como o time precisava.

Do outro lado, o Del Valle crescia.

A equipe equatoriana passou a pressionar mais, encontrar os lados do campo e incomodar a defesa rubro-negra. O Flamengo terminou o primeiro tempo com a vantagem do confronto reduzida, mas principalmente com a impressão de que havia permitido que uma situação confortável se tornasse desnecessariamente complicada.

O segundo tempo começou com a mesma necessidade de encontrar uma resposta. Jardim colocou Arrascaeta e Plata aos 13 minutos, tentando devolver criatividade e capacidade de retenção ao time. Só que, pouco depois, veio o lance que mudou definitivamente a partida.

Jorginho recebeu o segundo cartão amarelo e foi expulso. A partir dali, o Flamengo deixou de jogar pela classificação e passou a jogar para sobreviver à pressão.

E foi justamente nesse momento que apareceu uma versão mais competitiva da equipe.

Quando a tática falhou, o Flamengo encontrou força para competir

Com um jogador a menos, o cenário exigia outra postura.

O Flamengo recuou, reorganizou suas linhas e passou a defender praticamente com cinco jogadores. Saúl entrou no lugar de Bruno Henrique, enquanto Samuel Lino passou a atuar mais recuado. A prioridade já não era controlar a partida com a bola, mas impedir que o Del Valle transformasse a superioridade numérica em um segundo gol.

Foi aí que a equipe mostrou uma característica que não havia aparecido com a mesma força durante boa parte da noite: concentração. O Del Valle pressionou, levantou bolas na área e tentou acelerar cada ataque. Aos 32 minutos, chegou a marcar novamente, mas o gol foi anulado por impedimento.

O Flamengo continuava sob pressão. Só que não desmoronou.

Essa talvez seja a parte mais importante da classificação. O time havia perdido controle, sofrido um gol e ficado com um jogador a menos. Ainda assim, conseguiu reorganizar a estrutura e disputar os minutos mais difíceis da partida com outra intensidade.

O caos que ameaçava eliminar o Flamengo acabou funcionando como combustível.

Arrascaeta resolve, mas a classificação não foi só dele

Aos 38 minutos, aconteceu o lance que mudou definitivamente o confronto. Rossi deu um balão para a frente, a bola quicou no campo, o goleiro Quintana hesitou e Arrascaeta, que havia entrado no segundo tempo, aproveitou para cabecear para o gol vazio.

Foi um gol improvável, quase acidental. Mas também foi o gol que o Flamengo precisava.

Arrascaeta apareceu novamente em um momento decisivo, mas reduzir a classificação ao lance seria ignorar o que aconteceu nos minutos anteriores. O Flamengo precisava primeiro sobreviver para depois ter a oportunidade de encontrar uma jogada como aquela.

Depois do empate, o Del Valle ainda tentou pressionar. Schunke e Carabajal tiveram oportunidades pelo alto, Sornoza exigiu Rossi e o Flamengo precisou defender até o último lance.

Desta vez, porém, não perdeu a organização. A equipe suportou a pressão e confirmou a classificação por 3 a 1 no agregado.

O Flamengo avançou, mas não pode precisar do caos novamente

A vaga na semifinal está garantida. E isso precisa ser valorizado.

O Flamengo teve uma atuação abaixo do que se esperava, complicou um confronto que havia encaminhado com autoridade em Quito e chegou a ficar em uma situação extremamente desconfortável no Maracanã.

Mas também mostrou algo importante quando tudo parecia caminhar para o pior.

Com um jogador a menos, o time encontrou concentração. Quando precisou defender, defendeu. Quando precisou disputar cada bola, disputou. E quando apareceu uma oportunidade improvável, Arrascaeta aproveitou.

É uma força que conta muito em mata-mata. O problema é que ela não pode virar desculpa para o que aconteceu antes.

O Flamengo avançou porque tinha construído uma vantagem enorme no primeiro jogo e porque conseguiu sobreviver quando o cenário saiu do controle. Contra o Estudiantes, porém, a margem para brincar com o jogo será muito menor.

A classificação mostrou que o Flamengo tem força para resistir ao caos. Agora, o desafio será não criar o caos desnecessariamente.

Porque uma equipe que pretende chegar ao título da Libertadores precisa saber sobreviver aos momentos de pressão. Mas também precisa saber evitar que uma vantagem de dois gols transforme uma noite que poderia ser tranquila em uma batalha pela sobrevivência.

O Flamengo quase deixou a própria vantagem virar um problema. No fim, encontrou no caos a força que precisava para seguir vivo.

Foto: Adriano Fontes / CRF / Divulgação