O Palmeiras não ganhou, mas encontrou algo importante
O 0 a 0 com o Grêmio deixa uma sensação difícil para o Palmeiras. Pelo volume apresentado, pela quantidade de chances criadas e pelo domínio exercido durante praticamente toda a partida, o resultado parece pequeno diante do que o time produziu. Foram 29 finalizações, 65% de posse de bola e duas bolas no travessão.
E ainda assim, nenhum gol. O responsável direto por isso foi Weverton.
O goleiro do Grêmio fez uma daquelas partidas que transformam um empate em resultado para ser comemorado. Defendeu finalizações de diferentes maneiras, apareceu quando o Palmeiras conseguiu entrar na área e evitou que a superioridade do adversário se transformasse em uma derrota.
Para o Palmeiras, porém, existe uma leitura mais importante do que a frustração pelo resultado. Pela primeira vez em algum tempo, o time conseguiu transformar domínio territorial em um repertório ofensivo realmente variado.
Não foi apenas cruzamento. Não foi apenas ligação direta. Não foi apenas uma tentativa individual de resolver a partida. O Palmeiras encontrou diferentes caminhos para chegar ao gol.
E isso pode ser mais importante do que os dois pontos que ficaram pelo caminho.
A linha de quatro ajudou o Palmeiras a jogar mais à frente
A retomada da linha de quatro defensores teve papel importante na atuação.
Com mais jogadores participando da construção, o Palmeiras conseguiu empurrar o Grêmio para perto da própria área e manter a posse durante períodos longos. O adversário, protegido por uma linha de cinco, tentou fechar os espaços, mas encontrou dificuldade para impedir a circulação alviverde.
O meio-campo foi fundamental.
Marlon Freitas, que normalmente teria uma função mais defensiva, participou ativamente da construção e terminou a partida com 109 passes. Lucas Evangelista também ajudou a manter a equipe instalada no campo de ataque.
Essa ocupação permitiu que o Palmeiras atacasse de diferentes maneiras.
Andreas Pereira apareceu entre os setores, Arias buscou combinações pelos lados e os laterais tiveram liberdade para avançar. Quando o Grêmio fechava um corredor, o Palmeiras conseguia encontrar outro.
É uma mudança importante porque uma equipe que pretende disputar títulos precisa conseguir atacar adversários que adotam diferentes estratégias defensivas.
Contra o Grêmio, o Palmeiras conseguiu. Faltou apenas a parte mais difícil: colocar a bola dentro.
Vitor Roque e Flaco López deram outra dinâmica ao ataque
A dupla de ataque também merece atenção.
Vitor Roque não ficou preso entre os zagueiros. Movimentou-se, atacou espaços e conseguiu aparecer em zonas perigosas. Em uma dessas jogadas, acertou o travessão.
Flaco López ofereceu uma característica diferente. Saiu da referência em alguns momentos, participou da construção e funcionou como apoio para a aproximação dos jogadores que vinham de trás.
Essa combinação ajudou a evitar um problema recorrente: deixar o centroavante isolado contra uma defesa numerosa.
Quando Vitor Roque saía da posição, Flaco podia ocupar espaços. Quando um dos dois recuava, Andreas e os jogadores de lado encontravam espaço para atacar.
O resultado foi um Palmeiras menos previsível. E essa talvez seja a principal evolução da partida. A equipe não precisou escolher entre jogar por dentro ou pelos lados. Conseguiu alternar os caminhos.
Arias, Andreas e Marlon mostram que o ataque pode ter mais gente
Outro ponto interessante foi a quantidade de jogadores envolvidos nas ações ofensivas. O Palmeiras não ficou esperando que apenas seus atacantes resolvessem.
Arias buscou acelerar pelos lados, Andreas apareceu para tabelar e finalizar, enquanto Marlon Freitas avançou muito mais do que sua função habitual sugeriria. Isso cria um problema para a defesa adversária.
Se os zagueiros acompanham Vitor Roque e Flaco, alguém pode aparecer de trás. Se os laterais fecham os corredores, o meio ganha espaço. Se o Grêmio protege a entrada da área, o Palmeiras consegue buscar amplitude.
Foi justamente essa movimentação que produziu parte das melhores chances.
O time conseguiu chegar ao fundo, atacar a segunda trave, finalizar de média distância e combinar pelo corredor central.
Não houve uma única fórmula. Houve repertório.
E isso importa porque o Palmeiras chega à reta final da temporada precisando dividir forças entre diferentes competições. Quanto mais soluções ofensivas tiver, menos dependente ficará de um único tipo de partida.
Weverton impediu que a evolução virasse uma vitória
A atuação do goleiro gremista não pode ser tratada como detalhe. Weverton foi o grande motivo pelo qual o Palmeiras não saiu de Porto Alegre com os três pontos. O ex-goleiro alviverde parecia disposto a transformar cada finalização em uma nova defesa importante.
E conseguiu.
A situação é curiosa porque o Palmeiras encontrou justamente o tipo de atuação que costuma ser cobrada de seus próprios goleiros em jogos decisivos: alguém capaz de aparecer quando o time precisa.
Dessa vez, o obstáculo estava do outro lado. Isso também ajuda a colocar a falta de eficiência em perspectiva. O Palmeiras precisa melhorar suas finalizações? Sim. Precisa aproveitar melhor as oportunidades claras? Também.
Mas seria simplista resumir a partida a um problema de pontaria.
Em algumas situações, o time fez o que precisava fazer e encontrou um goleiro em estado excepcional.
A bola no travessão é outro exemplo. Pequenos detalhes separaram uma atuação dominante de uma vitória.
O resultado incomoda, mas a atuação abre um caminho
É justamente por isso que o empate precisa ser analisado com duas lentes. A primeira é inevitavelmente negativa. O Palmeiras voltou a perder pontos contra um adversário que luta na parte de baixo da tabela, depois de já ter empatado com Remo, Internacional e Mirassol. Em uma disputa apertada pela liderança, esses resultados têm peso.
A segunda, porém, aponta para algo que o time vinha procurando. O Palmeiras finalmente mostrou uma estrutura ofensiva capaz de produzir sem depender exclusivamente de bolas alçadas na área ou de momentos individuais.
Isso não garante que os próximos jogos terão o mesmo desempenho. Nem significa que o problema da eficiência esteja resolvido. Mas oferece uma base.
Agora, a comissão técnica tem algo concreto para trabalhar: manter a ocupação do campo ofensivo, preservar a aproximação entre os setores e encontrar maneiras de transformar esse volume em gols.
A pausa no calendário chega em um momento importante para isso. O Palmeiras terá tempo para recuperar jogadores, corrigir detalhes e preparar a sequência decisiva da temporada.
O time ainda está vivo nas três frentes que disputa e terá uma maratona de decisões pela frente. Por isso, talvez a principal notícia de Porto Alegre não esteja na tabela – está no campo.
O Palmeiras perdeu pontos, mas mostrou uma versão ofensiva que há algum tempo a torcida queria enxergar. Criou, variou, pressionou e encontrou espaços contra uma defesa que passou boa parte do jogo tentando sobreviver.
Weverton impediu a vitória. Mas não conseguiu esconder a mudança. O Palmeiras finalmente parece ter encontrado um caminho ofensivo. Agora precisa transformar esse caminho em gols.
Na reta final da temporada, jogar bem sem vencer não será suficiente para conquistar títulos. Mas jogar bem dessa maneira pode ser exatamente o ponto de partida que faltava para voltar a transformar domínio em resultado.
FOTO: LUCAS UEBEL/GRÊMIO FBPA/DIVULGAÇÃO



