Rayan Cherki comemora o gol marcado. Foto: Michael Regan/Getty Images
Futebol Premier League

Cherki ganhou uma nova função na França, e o Manchester City pode aproveitar

Cherki pode ter encontrado uma nova maneira de ser importante

Rayan Cherki começou a temporada 2026/27 como um dos jogadores mais interessantes do Manchester City. Utilizado principalmente como meia ofensivo, o francês rapidamente transformou talento em produção: são quatro gols e duas assistências em oito partidas por todas as competições.

A atuação contra o Crystal Palace, com dois gols na vitória por 4 a 1, foi o ponto alto desse início. Mas foi justamente longe do Manchester que apareceu uma possibilidade ainda mais interessante para o futuro do jogador.

Na estreia de Zinedine Zidane como técnico da França, Cherki foi utilizado mais recuado, dentro de um meio-campo com três jogadores, e teve uma das suas atuações mais completas pela seleção. Contra a Turquia, participou da construção, ajudou a controlar o ritmo e terminou com 68 passes certos em 74 tentativas. Também realizou três conduções progressivas, totalizando 77,3 metros.

A pergunta que fica para o Manchester City é simples: se Cherki consegue oferecer esse tipo de controle mais atrás, por que não utilizar essa característica em determinados momentos também no clube?

Zidane descobriu uma versão diferente do francês

A mudança de função não transformou Cherki em um volante tradicional. E talvez esse seja justamente o ponto mais interessante.

Contra a Turquia, o francês atuou como um dos meio-campistas do 4-3-3 de Zidane, com responsabilidades defensivas maiores, mas liberdade para participar da construção. Manu Koné ficou mais responsável pela proteção, enquanto Cherki recebeu espaço para avançar e conectar o meio-campo ao ataque.

O resultado foi uma atuação em que o jogador conseguiu participar das duas fases sem perder sua principal característica: a criatividade.

Cherki tocou 88 vezes na bola e acertou 92% dos passes. Também sofreu quatro faltas e completou um drible. Mais do que os números, porém, chamou atenção sua capacidade de aparecer no centro do jogo sem abandonar completamente a responsabilidade defensiva.

Depois da partida, o próprio Cherki afirmou que gosta de atuar nesse tipo de função, justamente por estar mais envolvido no jogo.

Isso pode ser relevante para o Manchester City.

O City pode ganhar criatividade mais perto da saída

A principal vantagem de recuar Cherki não seria simplesmente colocar mais um jogador no meio-campo. Seria colocar um jogador criativo em uma zona na qual ele poderia tocar mais vezes na bola.

Como meia ofensivo, Cherki recebe muitas vezes entre as linhas e precisa esperar que a jogada chegue até ele. Mais recuado, poderia participar da construção desde o início, conduzir, acelerar a circulação e procurar passes verticais antes que a defesa adversária esteja completamente organizada.

É uma característica que pode alterar a dinâmica do Manchester City.

Em partidas nas quais o adversário fecha os espaços próximos à área, ter um jogador capaz de encontrar passes entre linhas é fundamental. Cherki poderia oferecer justamente essa capacidade sem precisar ficar permanentemente preso à função de camisa 10.

A experiência com a França mostrou que existe pelo menos uma possibilidade tática a ser explorada.

Ainda não é uma solução pronta. Mas é uma alternativa.

O francês não precisa deixar de ser criativo para jogar mais atrás

Um dos riscos de qualquer mudança desse tipo é imaginar que Cherki precisaria se transformar em outro jogador.

Não precisa.

A ideia não seria colocá-lo como primeiro volante ou exigir que faça o trabalho defensivo de um jogador especializado nessa função. O que Zidane encontrou foi um meio-termo: Cherki mais baixo, mas ainda responsável por criar.

Isso preserva aquilo que ele tem de melhor. O francês continua podendo conduzir a bola, procurar passes verticais e se aproximar do último terço. A diferença é que começa essas ações alguns metros mais atrás.

Para um jogador com sua qualidade técnica, isso pode significar mais espaço para pensar.

Zidane, inclusive, destacou justamente o comportamento de Cherki sem a bola. O treinador francês afirmou que o jogador mostrou capacidade para defender nessa posição e participar tanto da organização ofensiva quanto defensiva.

Essa talvez seja a parte mais importante da experiência.

A disputa no meio-campo do City torna a ideia ainda mais interessante

O Manchester City não sofre por falta de opções no setor.

Enzo Fernández, Ayyoub Bouaddi e Elliot Anderson oferecem diferentes características ao meio-campo, enquanto outros jogadores também podem atuar em posições mais centrais dependendo do desenho escolhido por Enzo Maresca.

Por isso, Cherki não precisa ser transformado em titular absoluto de uma nova posição. A ideia pode ser mais simples: oferecer outra ferramenta ao treinador.

Há partidas nas quais o City precisará de mais controle físico. Em outras, poderá precisar de criatividade para desmontar um bloco baixo. E haverá jogos nos quais ter Cherki recebendo a bola alguns metros mais atrás pode aumentar a capacidade de circulação da equipe.

A versatilidade ganha valor justamente porque o francês já demonstrou que consegue interpretar funções diferentes.

O melhor Cherki pode ser justamente o mais versátil

Existe uma tendência de definir jogadores criativos por uma única posição. Cherki parece estar escapando dessa lógica.

Ele pode atuar como meia ofensivo, partir de um lado ou aparecer mais recuado. Evidentemente, isso não significa que todas as funções sejam igualmente adequadas ou que uma boa partida na seleção seja suficiente para justificar uma mudança permanente.

A amostra ainda é pequena. Mas há uma diferença entre inventar uma posição para um jogador e identificar uma característica que já existe nele.

Zidane fez a segunda coisa.

O treinador francês não tirou Cherki de sua zona de conforto para simplesmente ocupar espaço. Colocou o jogador em uma posição na qual pudesse tocar mais na bola, participar da construção e continuar oferecendo criatividade.

O francês respondeu bem. Agora, cabe a Maresca decidir se existe espaço para transportar essa ideia ao Manchester City.

Cherki pode virar uma peça ainda mais valiosa

O início de temporada já havia mostrado que Cherki poderia ser importante para o City. Os gols contra o Crystal Palace e a produção ofensiva nas primeiras partidas deixaram isso claro.

A experiência com a França acrescenta outra possibilidade.

Cherki pode não ser apenas o jogador responsável por criar perto da área. Pode ser também alguém capaz de ajudar a construir o jogo desde trás, controlar ritmos e encontrar passes que acelerem a equipe no momento certo.

Isso aumenta seu repertório e, consequentemente, as possibilidades do treinador.

Não significa que Maresca precise copiá-lo imediatamente da França. O futebol de clubes tem outras exigências, adversários diferentes e uma dinâmica de temporada muito mais longa.

Mas ignorar o que aconteceu seria desperdiçar uma informação importante. Zidane mostrou que Cherki pode oferecer mais do que aquilo que normalmente se espera de um camisa 10.

Agora, o Manchester City tem a oportunidade de descobrir se essa nova versão também pode funcionar na Inglaterra. Porque talvez o próximo salto de Cherki não esteja em fazer ainda mais gols ou dar mais assistências. Pode estar em aprender a participar de mais partes do jogo.

E, para um Manchester City que pretende ter diferentes maneiras de controlar uma partida, descobrir que seu meia mais criativo também pode ajudar a controlar o meio-campo é uma possibilidade que merece ser levada a sério.

Foto: Michael Regan/Getty Images