O Philadelphia 76ers começa a temporada 2026/27 da NBA cercado por uma sensação diferente das anteriores. O elenco dos Sixers reúne jogadores capazes de decidir partidas, nomes experientes e jovens que já demonstraram potencial para assumir responsabilidades importantes. Ainda assim, existe uma questão que nenhum talento individual consegue resolver: até que ponto cada jogador está disposto a abrir mão de parte de suas próprias preferências para que o time funcione como um todo?
Essa parece ser a principal mensagem deixada pelo início da preparação dos Sixers. De LeBron James a Jabari Walker, passando por Joel Embiid, Tyrese Maxey, Jaylen Brown e VJ Edgecombe, diferentes integrantes do elenco chegaram ao training camp falando praticamente a mesma língua. O objetivo não é descobrir quem será o protagonista absoluto, quem terá mais arremessos ou quem ocupará o posto simbólico de “alpha”. A prioridade é construir uma equipe capaz de funcionar mesmo quando isso significar que determinados jogadores terão de fazer menos em algumas áreas para que o conjunto consiga fazer mais.
A palavra “sacrifício”, porém, ganhou interpretações diferentes dentro do próprio elenco. Para alguns, ela pode parecer uma renúncia. Para outros, representa justamente uma escolha consciente em favor de algo maior. É essa segunda interpretação que pode definir o destino de Philadelphia.
O problema dos Sixers não é encontrar talento, mas fazer o talento coexistir
Os Sixers chegam à temporada com uma quantidade de talento que torna difícil imaginar que a equipe precise simplesmente de mais uma estrela para resolver seus problemas. A questão é outra. Quanto desse talento pode permanecer intacto quando os melhores jogadores precisam dividir espaço, responsabilidades e protagonismo?
VJ Edgecombe é um dos exemplos mais claros. A terceira escolha do Draft de 2025 teve uma excelente temporada de estreia, foi selecionado para o All-Rookie First Team e mostrou que pode ter um papel importante na estrutura da equipe. Ao mesmo tempo, seu desenvolvimento acontece dentro de um elenco que reúne jogadores estabelecidos e acostumados a ter a bola nas mãos.
Isso significa que Edgecombe terá de aprender a adaptar seu jogo, mas a responsabilidade não pode ser colocada apenas sobre o jovem. Os veteranos também precisarão modificar hábitos. Um jogador que durante anos teve liberdade para criar suas próprias jogadas pode precisar atuar mais sem a bola. Outro poderá ter de assumir uma função defensiva mais pesada. Um terceiro talvez precise aceitar uma redução na quantidade de arremessos.
É justamente aí que a temporada começa a ficar interessante. Em equipes extremamente talentosas, a dificuldade raramente está em descobrir quem consegue jogar. O problema está em descobrir quem consegue jogar bem ao lado dos outros. A diferença parece pequena, mas é fundamental. Uma coleção de grandes jogadores pode produzir números impressionantes individualmente e ainda assim não funcionar como uma equipe de alto nível.
Os Sixers parecem estar tentando evitar esse caminho antes mesmo de a temporada começar.
LeBron colocou os próprios interesses dentro da discussão
A presença de LeBron James torna essa conversa ainda mais significativa. Aos 41 anos e depois de uma carreira construída em torno de protagonismo, o astro poderia naturalmente ser tratado como uma exceção dentro da estrutura.
Não foi essa a mensagem transmitida. LeBron colocou a si próprio dentro da ideia de adaptação. Se todos terão papéis diferentes, ele também terá. A declaração é importante porque estabelece uma espécie de referência para o restante do vestiário: se um jogador com 22 seleções para o All-Star Game aceita que seu papel pode mudar em nome do objetivo coletivo, fica mais difícil para os demais tratarem qualquer alteração como uma afronta pessoal.
Isso também muda a maneira de enxergar a palavra “sacrifício”. Em uma equipe que pretende disputar um campeonato, abrir mão de alguma coisa não precisa representar uma perda. Pode significar simplesmente escolher onde determinado jogador será mais útil.
Um atleta pode marcar menos pontos e, ainda assim, ser mais importante para o time. Outro pode tocar menos na bola, mas melhorar o espaçamento. Um terceiro pode ter menos liberdade ofensiva e compensar isso defendendo em um nível mais alto.
O basquete de alto nível exige exatamente esse tipo de flexibilidade. LeBron parece entender isso a partir da própria experiência. Ao longo de sua carreira, diversos jogadores produziram temporadas estatisticamente impressionantes sem transformar esse desempenho individual em grandes campanhas coletivas. Para uma equipe que busca algo maior, a matemática precisa mudar: nem sempre o melhor cenário para o indivíduo é o melhor cenário para o grupo.
Embiid e Maxey carregam uma motivação diferente
Se existe alguém dentro dos Sixers que conhece o peso dessa discussão, são Joel Embiid e Tyrese Maxey. Embiid é o jogador mais antigo do elenco e atravessou praticamente toda a era recente da franquia. Maxey também cresceu dentro do projeto e se transformou em uma das principais referências da equipe. Os dois já experimentaram temporadas de grande produção individual, mas também conhecem a frustração de ver o time ficar aquém do objetivo máximo.
É por isso que a disposição para mudar pode assumir um significado diferente para eles. Para Embiid, depois de anos como principal referência ofensiva e de sucessivas tentativas de chegar às fases mais avançadas dos playoffs, o objetivo não pode mais ser apenas produzir uma temporada estatisticamente dominante. O que falta à trajetória do pivô é justamente transformar excelência individual em uma conquista coletiva.
Maxey vive uma situação semelhante em outra etapa da carreira. Ele representa uma geração mais jovem, mas já passou tempo suficiente dentro da franquia para compreender que talento sem consistência não garante avanço nos playoffs.
A mensagem dos dois é parecida: o elenco pode ter jogadores suficientes para competir, mas isso não terá grande significado se não existir disposição para trabalhar dentro de uma estrutura comum.
Esse talvez seja o ponto mais importante do discurso dos Sixers. A equipe não parece estar tentando convencer seus jogadores de que eles precisam ser menos importantes. O objetivo é convencê-los de que podem ser importantes de maneiras diferentes.
Jaylen Brown rejeita a ideia de um único “alpha”
Jaylen Brown também entrou nessa discussão quando foi questionado sobre quem seria o “alpha” do novo Philadelphia.
A resposta foi significativa porque rejeitou a própria premissa da pergunta. Em vez de tentar estabelecer uma hierarquia individual, Brown direcionou a conversa para aquilo que parece ser a principal característica pretendida para o elenco: uma estrutura na qual diferentes jogadores possam assumir responsabilidades diferentes conforme a necessidade.
Isso é particularmente importante em uma equipe com várias referências. Em uma partida, Embiid pode ser a principal arma ofensiva. Em outra, Maxey pode assumir mais responsabilidades com a bola. Brown pode ser fundamental defensivamente ou atacar uma determinada vantagem criada pelo sistema. Edgecombe pode ter noites em que sua velocidade e agressividade mudem o ritmo da equipe.
A questão não é descobrir quem será o dono permanente do time. É criar uma estrutura suficientemente flexível para que o protagonista possa mudar de acordo com o jogo.
Esse conceito é muito diferente da ideia tradicional de uma equipe construída ao redor de uma única estrela. Em vez de depender de uma hierarquia rígida, Philadelphia tenta criar uma hierarquia variável, na qual o papel de cada jogador pode ser alterado sem que isso seja interpretado como diminuição de status.
Para funcionar, porém, será necessária confiança.
Nick Nurse prefere falar em adaptação, não em renúncia
O próprio Nick Nurse demonstrou certa resistência à palavra “sacrifício”. Para o treinador, o termo pode transmitir a impressão de que determinado jogador está sendo obrigado a abandonar uma característica importante de seu jogo.
Sua interpretação é diferente: cada atleta deve continuar sendo quem é, mas precisa entender o que a equipe necessita em determinados momentos.
Essa diferença é fundamental. Uma equipe não pode pedir que seus jogadores deixem de fazer aquilo que os tornou bons. O trabalho de um treinador é descobrir como essas características podem ser combinadas. Se um jogador é excelente pontuador, não necessariamente precisa pontuar menos; pode apenas precisar escolher melhor quando atacar. Se outro é criador, pode precisar dividir mais a bola. Se um defensor é especialista em marcar no perímetro, talvez seja necessário colocá-lo em confrontos específicos.
A ideia é adaptar o talento, e não apagá-lo. Esse pode ser o caminho mais saudável para os Sixers. O problema de uma equipe cheia de estrelas não é necessariamente o ego. Muitas vezes, é a falta de clareza. Jogadores precisam saber quando assumir, quando recuar, quando acelerar e quando permitir que outro companheiro seja o protagonista.
Nurse terá justamente a tarefa de transformar essa disposição coletiva em comportamentos concretos dentro da quadra.
O verdadeiro teste começará quando o jogo apertar
O discurso do training camp é importante, mas ainda não prova que a transformação acontecerá. É relativamente fácil falar sobre coletividade antes do início da temporada. O teste real surgirá quando um jogador estiver com poucos arremessos em uma partida importante, quando outro estiver pontuando muito e precisar continuar envolvido, ou quando uma estrela precisar aceitar uma função defensiva menos glamourosa em um jogo de playoffs.
É nesses momentos que será possível descobrir se a ideia de sacrifício realmente foi incorporada pelo elenco. Os Sixers têm talento suficiente para criar expectativas. O desafio é transformar essa expectativa em uma identidade coletiva.
A temporada 2026/27, portanto, pode ser menos sobre descobrir quem é a maior estrela de Philadelphia e mais sobre descobrir se todas elas conseguem funcionar juntas. Embiid não precisa necessariamente deixar de ser Embiid. Maxey não precisa deixar de ser Maxey. Brown, Edgecombe e LeBron também não precisam abandonar aquilo que os torna especiais.
Mas todos precisarão aceitar que haverá momentos em que o melhor para a equipe não será necessariamente o melhor para suas estatísticas individuais.
É justamente aí que a palavra “sacrifício” ganha outro significado. Não se trata de perder espaço, prestígio ou importância. Trata-se de escolher conscientemente quando colocar essas coisas em segundo plano para aumentar a possibilidade de conquistar algo que nenhum jogador consegue alcançar sozinho.
Philadelphia já teve talento. Já teve estrelas. Já teve jogadores capazes de produzir números extraordinários. Agora, a equipe precisa descobrir se consegue transformar tudo isso em uma unidade.
Porque, no fim, o campeonato não será decidido por quem conseguir provar que é o “alpha”. Será decidido por quem conseguir entender quando deve assumir o protagonismo e quando deve abrir espaço para o companheiro.
E essa pode ser a diferença entre mais uma temporada de grandes expectativas e uma equipe finalmente preparada para transformar seu talento coletivo em uma campanha capaz de superar as barreiras que a franquia não conseguiu ultrapassar nos últimos anos.



