França Olise
Futebol Bundesliga

Michael Olise chega perto dos € 200 milhões de valor de mercado, mas ele vale tudo isso?

Michael Olise nunca precisou falar muito para chamar atenção. O atacante do Bayern é conhecido por um comportamento reservado fora de campo, mas existe uma diferença enorme entre a personalidade do jogador diante dos microfones e aquilo que acontece quando ele recebe a bola. Aos 24 anos, Olise transformou o silêncio em uma espécie de característica da própria carreira, porque cada vez mais é dentro das quatro linhas que ele encontra a melhor maneira de responder.

A evolução no Bayern ajuda a explicar por que seu nome passou a ser colocado entre os grandes jogadores ofensivos do futebol mundial. Contratado pelo clube alemão em 2024 por € 53 milhões, depois de se destacar no Crystal Palace, o francês rapidamente deixou de parecer uma aposta cara para se transformar em um dos principais ativos esportivos da equipe. Na temporada 2025/26, foi eleito o melhor jogador da Bundesliga e terminou a competição com 15 gols e 19 assistências, números que resumem a dimensão que alcançou em pouco tempo.

O mais interessante, porém, não está apenas nos números. Olise parece ter encontrado um ambiente no qual sua personalidade reservada não representa uma limitação, mas quase uma vantagem. Ele não precisa ser o jogador mais expansivo do vestiário para exercer liderança. Seu futebol passou a falar por ele.

E, nesse momento, talvez seja justamente isso que torne sua ascensão tão impressionante.

Olise transformou talento em regularidade

Existe uma diferença importante entre ser capaz de produzir momentos extraordinários e conseguir fazer isso com frequência. Olise já demonstrava essa capacidade desde os tempos de Crystal Palace, quando chamou atenção pela habilidade no um contra um, pela qualidade do passe e pela capacidade de finalizar de média distância.

No Bayern, entretanto, essas características ganharam outra dimensão. O francês deixou de ser apenas um jogador capaz de decidir partidas isoladamente e passou a fazer parte da estrutura ofensiva de uma equipe que precisa produzir em alto nível praticamente todas as semanas.

Na temporada 2025/26, Olise registrou 15 gols e 19 assistências na Bundesliga e foi eleito o melhor jogador da competição. Na Champions League, também teve participação importante, com quatro gols e sete assistências até a fase semifinal.

A evolução estatística acompanha uma mudança de responsabilidade. No Bayern, Olise não é apenas alguém a quem a bola chega para que uma jogada seja criada. Ele é um dos jogadores que a equipe procura quando precisa acelerar uma posse, quebrar uma linha defensiva ou produzir uma situação de vantagem pelo lado direito.

Isso explica por que sua presença pode mudar completamente a maneira como um adversário defende o Bayern.

Quando Olise recebe aberto, o defensor precisa decidir se sai para enfrentá-lo ou se protege o espaço às suas costas. Se aproxima demais, o francês pode utilizar o primeiro toque para escapar ou cortar para dentro. Se recua, ganha espaço para conduzir, cruzar ou encontrar um companheiro entre as linhas.

A variedade é justamente o que torna sua ação tão difícil de controlar.

O francês joga como se tivesse sempre uma resposta diferente

Uma das características mais interessantes de Olise é a maneira como ele manipula o defensor antes de executar a jogada. O atacante não depende apenas de velocidade para superar adversários. Muitas vezes, consegue criar a vantagem justamente porque faz o marcador acreditar que irá tomar uma decisão e, no último instante, escolhe outra.

O corte para dentro, o falso chute, a mudança de direção e o passe vertical fazem parte de um repertório que transforma cada recepção em uma possibilidade de ruptura.

No Bayern, isso ganhou ainda mais força porque o francês está cercado por jogadores capazes de aproveitar os espaços que ele cria. A presença de Harry Kane como referência central e de Luis Díaz pelo outro lado aumenta as alternativas disponíveis para a equipe, enquanto Olise pode alternar entre buscar a finalização e participar da construção.

Não é por acaso que o próprio Bayern já comparou a combinação entre Olise e Díaz a uma nova versão da antiga dupla formada por Arjen Robben e Franck Ribéry, embora com características diferentes. O francês representa a parte mais técnica e criativa, enquanto o colombiano acrescenta maior agressividade e imprevisibilidade.

Essa estrutura permite que Olise tenha liberdade sem que o Bayern se torne dependente de uma única solução. O atacante pode receber, esperar o movimento dos companheiros e escolher o momento certo para acelerar.

É uma liberdade que Vincent Kompany parece compreender muito bem.

Kompany encontrou a maneira certa de utilizar Olise

O técnico do Bayern tem papel importante nessa transformação porque não parece interessado em limitar Olise a uma função rígida. O francês pode começar aberto pela direita, mas tem liberdade para ocupar zonas interiores, aproximar-se de Kane ou aparecer em posições diferentes durante a construção.

Em vez de transformar sua criatividade em algo previsível, Kompany parece ter criado condições para que ela seja utilizada como uma arma.

O próprio Olise explicou que, dependendo da posição em que recebe, o treinador espera que ele ataque o adversário no um contra um, chute e jogue com liberdade.

Essa confiança ajuda a explicar por que o atacante passou a produzir números tão altos sem perder sua identidade. O Bayern não está tentando transformar Olise em um jogador diferente. Está tentando potencializar aquilo que ele já fazia naturalmente.

Kompany, inclusive, já comparou sua atenção aos detalhes com a que observou em Kevin De Bruyne durante a trajetória do belga no Manchester City e afirmou que Olise possui potencial para se tornar um dos grandes jogadores ofensivos da história.

A comparação é enorme, mas existe uma razão para ela aparecer. Olise não é apenas um jogador de highlights. Ele começou a construir consistência suficiente para que seu impacto seja percebido mesmo quando não marca ou dá assistência.

Na França, Zidane encontrou um líder que não precisa gritar

A evolução no Bayern também mudou sua posição dentro da seleção francesa. Depois da Copa do Mundo de 2026, Zinedine Zidane assumiu o comando da França e rapidamente encontrou em Olise um jogador importante para sua nova equipe.

O primeiro ciclo entre os dois já mostrou essa confiança. Olise participou diretamente dos gols da França nas primeiras partidas sob o novo treinador e decidiu a vitória por 1 a 0 sobre a Bélgica depois de recuperar a bola em seu próprio campo, conduzir por praticamente metade do gramado e finalizar para marcar o gol da vitória.

Antes disso, na estreia de Zidane contra a Turquia, Olise deu a assistência para Kylian Mbappé marcar o único gol da partida.

O detalhe mais interessante, entretanto, está na maneira como Zidane descreve o jogador. Para o treinador, Olise pode ser reservado e tímido fora de campo, mas não demonstra qualquer hesitação quando a bola chega aos seus pés. Essa diferença parece ser justamente o que transforma o francês em um líder pouco convencional.

Ele não precisa comandar a equipe por meio de discursos ou de uma personalidade expansiva. Sua liderança acontece através das decisões tomadas dentro do campo.

É uma característica particularmente valiosa em uma seleção que entra em uma nova fase depois da saída de Didier Deschamps. Zidane precisa construir uma equipe ao redor de jogadores capazes de assumir responsabilidades, e Olise parece estar se colocando cada vez mais nesse grupo.

O mercado já começou a reconhecer aquilo que o futebol mostra

A valorização de Olise é uma consequência natural desse processo. Estimativas recentes colocaram seu valor de transferência em € 198,1 milhões, praticamente quatro vezes o valor pago pelo Bayern em 2024.

É importante tratar esse tipo de avaliação com cautela, porque valores estimados de mercado não correspondem necessariamente ao preço que seria efetivamente pago em uma negociação. Ainda assim, a distância entre os € 53 milhões investidos pelo Bayern e as avaliações atuais ajuda a dimensionar a transformação do jogador.

Mais importante do que o número, porém, é o que ele representa.

Quando Olise chegou a Munique, havia uma expectativa de que ele poderia se tornar um grande jogador. Agora, a discussão é diferente. O francês já está produzindo como protagonista de um dos maiores clubes da Europa e assumindo um papel importante em uma das seleções mais talentosas do mundo.

A diferença entre promessa e realidade está justamente aí.

Olise já conquistou algo que poucos jogadores conseguem tão cedo: tornou-se um dos principais jogadores de um gigante europeu sem precisar alterar aquilo que o fazia especial.

Agora, o desafio é ainda maior. Ele precisa transformar temporadas excelentes em um período prolongado de domínio, algo que separa jogadores de alto nível daqueles que entram definitivamente na conversa sobre os melhores do mundo.

A idade joga a seu favor. Aos 24 anos, Olise ainda está entrando no auge físico e técnico de sua carreira. Se continuar evoluindo no mesmo ritmo, pode chegar aos próximos grandes torneios como um dos jogadores centrais da França e, no Bayern, assumir uma responsabilidade ainda maior nos momentos decisivos.

Os sinais já estão presentes. Em março, por exemplo, marcou duas vezes e deu uma assistência na vitória do Bayern por 6 a 1 sobre a Atalanta pela Champions League, em uma atuação que resumiu boa parte do que o atacante oferece: finalização, drible, passe e capacidade de decidir uma partida quando o nível de dificuldade aumenta.

Na seleção, sua participação na Copa de 2026 também mostrou essa evolução. Olise terminou o Mundial como líder de assistências, com cinco, e ficou a apenas uma de igualar o recorde histórico de Pelé em uma única edição.

Isso muda a maneira como ele deve ser observado daqui para frente.

Michael Olise já não é apenas o jogador reservado que prefere deixar o futebol falar. Essa característica continua fazendo parte de sua personalidade, mas o significado dela mudou. Antes, o silêncio podia ser interpretado como distância. Agora, parece simplesmente a forma como ele escolheu construir sua liderança.

Enquanto outros jogadores precisam convencer o mundo de que são especiais, Olise vem fazendo isso com a bola nos pés. No Bayern, tornou-se uma das principais peças de uma equipe acostumada a disputar títulos. Na França, passou a ocupar um espaço cada vez maior em uma geração recheada de estrelas. E, aos 24 anos, ainda parece haver espaço para que sua influência cresça.

Talvez seja justamente por isso que sua valorização esteja chegando perto dos € 200 milhões. Não porque exista apenas uma promessa de grandeza, mas porque, cada vez mais, o que Olise entrega em campo já corresponde ao valor atribuído a um jogador de elite.

Ele fala pouco. O problema é que, quando começa a jogar, fica cada vez mais difícil alguém falar de outra coisa.

(Foto: Getty Images)