O Atlético-MG começa a olhar para duas de suas principais promessas da base com uma atenção diferente. Riquelme e Gabriel Veneno, ambos de 17 anos, já entraram no radar de Eduardo Domínguez e começaram a aparecer entre os relacionados do time profissional, mas o treinador argentino não pretende tratar os dois da mesma maneira. Enquanto Riquelme está mais próximo de receber minutos, Veneno ainda será submetido a um processo de desenvolvimento antes de dar o próximo passo.
A diferença não significa que o Atlético tenha dúvidas sobre o potencial de nenhum dos dois. Pelo contrário. Riquelme e Veneno são frequentemente convocados para as seleções brasileiras de base e fazem parte de uma geração que vem sendo tratada pelo clube como uma das principais apostas para o futuro. O próprio Atlético lista os dois entre os jogadores alvinegros chamados para as seleções brasileiras em 2026.
O que muda é a compreensão de que talento e preparação não necessariamente avançam no mesmo ritmo. Aos 17 anos, a transição entre a base e o futebol profissional exige cuidado, principalmente para evitar que a expectativa criada em torno de um jogador seja maior do que aquilo que ele está preparado para entregar naquele momento.
É justamente nesse equilíbrio que Domínguez parece trabalhar.
Riquelme já começa a bater à porta do profissional
Entre os dois, Riquelme é quem parece estar mais próximo de atravessar definitivamente a porta que separa a base do elenco principal. O atacante já foi relacionado por Domínguez e, segundo o próprio treinador, vem aproveitando bem os treinamentos para se aproximar de uma oportunidade.
Existe ainda uma explicação específica para o fato de ele ter demorado a aparecer nesse ambiente. O jogador passou por uma situação contratual envolvendo documentos e assinatura, o que impediu sua integração ao grupo profissional durante determinado período. Depois de resolver a questão, voltou a treinar normalmente e passou a ganhar espaço na rotina do elenco.
A renovação de contrato também ajuda a entender a confiança do Atlético no atacante. Riquelme oficializou em agosto a extensão do vínculo até dezembro de 2029, depois de estar no clube desde os 11 anos. Ele alterna entre as equipes sub-17 e sub-20 e já é presença frequente nas convocações da Seleção Brasileira Sub-17.
O momento na base reforça essa evolução. No Campeonato Brasileiro Sub-17, Riquelme marcou na vitória por 4 a 1 sobre o Juventude, em setembro, resultado que garantiu ao Atlético uma vaga nas quartas de final. O atacante também participou da campanha do clube na Copa do Brasil Sub-17, competição na qual o Galo terminou como vice-campeão.
Mais do que os números ou as convocações, entretanto, existe uma indicação importante no discurso de Domínguez: Riquelme já está sendo observado dentro do ambiente profissional não apenas como uma promessa distante, mas como uma possibilidade real para o elenco.
Isso muda o estágio da carreira. A próxima oportunidade pode não significar uma sequência de jogos ou uma vaga entre os titulares. É possível que a estreia aconteça em um contexto controlado, com poucos minutos e dentro de uma partida na qual Domínguez consiga avaliar o jogador sem colocá-lo diante de uma responsabilidade excessiva. Ainda assim, o simples fato de estar sendo preparado para esse momento mostra que o clube entende que ele já está suficientemente próximo.
Veneno tem talento, mas o Atlético não quer acelerar o relógio
A situação de Gabriel Veneno é um pouco diferente. O atacante também possui 17 anos, também é convocado para a Seleção Brasileira de base e também é considerado uma das principais joias do Atlético, mas Domínguez entende que ainda existe um caminho a percorrer antes de colocá-lo definitivamente no futebol profissional.
O treinador foi claro ao explicar que o jogador ainda precisa evoluir fisicamente e que o clube não quer submetê-lo a situações que possam gerar dúvidas ou insegurança durante esse processo. A preocupação não está relacionada à capacidade técnica de Veneno, mas ao momento adequado para sua transição.
Essa diferença é importante porque Veneno já apresenta sinais suficientes para despertar expectativa. O atacante foi descoberto pelo Atlético na Copa Dois de Julho, em 2023, quando defendia a Seleção de Santa Rita de Cássia, e rapidamente chamou a atenção do clube. Desde então, passou a se destacar nas categorias de base e também ganhou espaço nas seleções brasileiras.
Em agosto, por exemplo, foi um dos grandes nomes da vitória do Atlético por 3 a 0 sobre o Grêmio pelo Brasileiro Sub-17. Veneno marcou duas vezes em um intervalo de poucos minutos e terminou a partida como principal referência ofensiva do time. Mais recentemente, na vitória por 4 a 1 sobre o Juventude, participou diretamente de dois gols, dando uma assistência em uma cobrança de falta e outra para Charlin.
O desempenho explica por que existe tanta expectativa em torno de seu nome, mas não altera a avaliação de Domínguez. O técnico parece entender que dominar uma categoria de base não significa automaticamente estar pronto para enfrentar jogadores profissionais, especialmente em uma equipe que disputa partidas de alta exigência física e competitiva.
Veneno pode ser um jogador muito talentoso e, ao mesmo tempo, precisar de mais tempo.
O Atlético parece ter aprendido a diferença entre revelar e acelerar
Existe uma discussão importante por trás da decisão de Domínguez. Nos últimos anos, o futebol brasileiro passou a acelerar cada vez mais a promoção de jovens jogadores, principalmente porque a base se transformou em uma fonte relevante de talento esportivo e também de receita.
O Atlético não foge dessa lógica. O próprio clube reconhece a formação de atletas como uma parte estratégica do projeto, tanto pela possibilidade de renovar o elenco quanto pela capacidade de gerar valor em futuras negociações.
Mas revelar um jogador não significa simplesmente colocá-lo em campo o mais rápido possível.
Existe uma diferença entre oferecer uma primeira experiência no profissional e transformar um jovem em uma peça efetivamente utilizada. A estreia pode acontecer aos 17 anos, mas a consolidação pode exigir meses ou até anos de trabalho. Nesse processo, cada jogador possui um ritmo diferente.
Riquelme parece estar chegando a esse ponto. Veneno ainda não. A postura de Domínguez sugere que o Atlético pretende respeitar justamente essa diferença. O treinador não está fechando a porta para Veneno, tampouco colocando Riquelme imediatamente dentro da equipe principal. Está tentando identificar qual dos dois está preparado para cada etapa.
Isso pode parecer conservador diante da ansiedade natural provocada por grandes promessas, mas pode ser importante para o desenvolvimento dos jogadores.
As joias não precisam carregar o peso de salvar o Atlético
Existe ainda um detalhe que costuma ser ignorado quando jovens jogadores começam a aparecer entre os profissionais: o contexto no qual eles serão lançados. Riquelme e Veneno não precisam entrar em campo com a responsabilidade de resolver os problemas do Atlético. Eles precisam receber minutos suficientes para entender o nível de exigência do futebol profissional, adaptar-se à velocidade das decisões e começar a construir confiança.
Para Riquelme, esse processo pode começar antes. O atacante já está treinando com o grupo, já foi relacionado e, segundo Domínguez, está aproveitando bem as oportunidades. O próximo passo parece ser transformar essa presença em minutos efetivos.
Para Veneno, o caminho provavelmente será mais gradual. O clube quer que ele desenvolva a parte física e amadureça antes de submetê-lo a uma rotina que pode cobrar muito de um jogador tão jovem.
Essa diferença também protege o Atlético de uma armadilha comum. Quando uma promessa recebe destaque muito cedo, qualquer sequência ruim pode ser interpretada como uma decepção, mesmo que o jogador ainda esteja simplesmente atravessando seu processo natural de formação.
Domínguez parece querer evitar justamente isso.
(Foto: Daniela Veiga/Atlético)



