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Igor Paixão: por que retorno ao Brasil pode ser o caminho para o ponta voltar à seleção?

Igor Paixão vive um momento curioso na carreira. Aos 26 anos, o atacante construiu praticamente toda a trajetória recente longe do futebol brasileiro, passou pelo Feyenoord, chegou ao Olympique de Marseille e hoje é um jogador valorizado no mercado europeu. Mesmo assim, existe uma pergunta que começa a ganhar força justamente no início de um novo ciclo da Seleção Brasileira: será que um retorno ao Brasil poderia aproximá-lo novamente de Carlo Ancelotti?

A possibilidade não é tão distante quanto parece. O próprio Paixão revelou recentemente que seus empresários receberam contatos de Flamengo e Palmeiras, embora nenhuma das sondagens tenha se transformado em uma proposta concreta. O jogador também admitiu publicamente que tem o sonho de defender o Flamengo, clube pelo qual torce desde criança.

A questão, portanto, deixou de ser apenas financeira ou sentimental. Existe também um componente esportivo, principalmente porque Paixão está em uma idade na qual precisa pensar não apenas no próximo contrato, mas no espaço que ainda pode conquistar dentro da Seleção.

O momento parece particularmente favorável para isso. Carlo Ancelotti acaba de iniciar um novo ciclo depois da Copa do Mundo de 2026 e deixou claro que pretende observar uma nova geração de jogadores. A primeira convocação pós-Mundial teve oito estreantes e incluiu nomes que estavam atuando no futebol brasileiro, o que abre uma possibilidade interessante para atletas que consigam assumir protagonismo por aqui.

É nesse cenário que o Brasil pode voltar a ser uma alternativa interessante para Paixão.

Samuel Lino mostrou que o caminho pode funcionar

O melhor exemplo está justamente no Flamengo. Samuel Lino passou boa parte de sua carreira profissional no futebol europeu e, depois de atuar em Portugal e construir uma trajetória de destaque no Atlético de Madrid, retornou ao Brasil para defender o clube carioca. O começo não foi simples, já que terminou 2025 em baixa e chegou a ser criticado pela torcida, mas o cenário mudou completamente em 2026.

Com a chegada de Leonardo Jardim, Lino encontrou um papel mais importante dentro da equipe, aumentou sua produção ofensiva e se transformou em um dos principais jogadores do Flamengo. O crescimento foi suficiente para chamar a atenção de Ancelotti e colocá-lo na primeira convocação da Seleção depois da Copa do Mundo.

O detalhe é importante porque Lino não foi convocado simplesmente por estar retornando de uma passagem ruim pela Europa. Ele encontrou no futebol brasileiro um ambiente no qual conseguiu jogar mais, assumir protagonismo e aparecer com frequência suficiente para ser observado pela comissão técnica da Seleção.

Na primeira lista do novo ciclo, anunciada em setembro, seu nome estava ao lado de Pedro entre os jogadores do Flamengo chamados por Ancelotti. A história continuou na Data Fifa, quando Samuel Lino marcou seus primeiros gols pela Seleção e fez dois na goleada por 4 a 0 sobre a Índia, encerrando a primeira excursão de Ancelotti depois da Copa com ainda mais força dentro do grupo.

Para Igor Paixão, esse exemplo é impossível de ignorar. O caso de Lino mostra que um retorno ao Brasil não precisa representar uma interrupção na carreira europeia, mas pode funcionar como uma mudança de ambiente capaz de recuperar protagonismo e aproximar um jogador da Seleção.

O problema de Paixão não parece ser falta de qualidade

Não é necessário tratar Igor Paixão como um jogador que perdeu espaço na Europa para justificar uma possível volta. Pelo contrário, o atacante chegou ao Marseille depois de uma passagem importante pelo Feyenoord e continua sendo um jogador valorizado, enquanto o interesse de outros mercados demonstra que ainda possui prestígio internacional e capacidade para atuar em alto nível.

O problema parece estar muito mais relacionado à visibilidade. A Seleção Brasileira possui uma quantidade enorme de jogadores ofensivos espalhados pelo mundo e, em uma disputa tão congestionada, não basta necessariamente apresentar um bom desempenho em um grande clube europeu. É preciso construir uma sequência suficientemente forte para se tornar uma opção impossível de ignorar.

No Brasil, essa exposição é naturalmente maior. Um jogador que atua semanalmente por Flamengo, Palmeiras, Atlético-MG, Corinthians ou outro grande clube está submetido a uma lupa constante. Seus números são discutidos, suas atuações são analisadas e seus jogos mais importantes chegam diretamente ao debate nacional sobre a Seleção.

Para um atacante que precisa entrar em uma disputa extremamente concorrida, isso pode fazer diferença. Paixão teria de deixar de ser apenas mais um brasileiro atuando bem na Europa para se transformar em protagonista de um dos maiores clubes do país, algo que Samuel Lino conseguiu fazer no Flamengo.

A comparação não significa que as trajetórias sejam iguais ou que o retorno ao Brasil garantiria uma convocação. O que o caso de Lino demonstra é que a combinação entre protagonismo, exposição e desempenho pode acelerar o caminho de um jogador que já possui qualidade, mas ainda precisa se colocar de maneira mais clara no radar da Seleção.

O novo ciclo de Ancelotti abre uma janela que Paixão não tinha antes

Existe ainda um fator que pode pesar na decisão. Se Paixão estivesse tentando entrar na Seleção durante um ciclo consolidado, com uma lista praticamente definida e uma Copa do Mundo próxima, uma mudança de clube seria muito mais arriscada, porque o treinador teria menos tempo para experimentar e os espaços seriam naturalmente menores.

Agora, a situação é diferente. A Copa do Mundo de 2026 terminou, e Ancelotti começou oficialmente a preparação para o Mundial de 2030. Na primeira convocação, o italiano deixou clara a intenção de observar jogadores e construir uma nova geração, o que amplia consideravelmente a janela para atletas que ainda não conseguiram se estabelecer no grupo.

Paixão não precisa necessariamente chegar ao Brasil e ser convocado imediatamente. O caminho mais realista seria construir uma sequência suficientemente forte para entrar no radar, ganhar espaço nas próximas convocações e mostrar que pode transportar seu futebol para o nível internacional.

O horizonte também é muito maior. Se o atacante retornasse ao Brasil e assumisse protagonismo em um clube como Flamengo ou Palmeiras, teria tempo para disputar espaço ao longo de todo o ciclo. Poderia ser chamado para amistosos, participar de novas Datas Fifa e mostrar que consegue desempenhar um papel importante em uma equipe de alto nível.

O ponto não seria abandonar a Europa, mas aproveitar um momento em que a Seleção está sendo reconstruída para aumentar sua presença na discussão.

Flamengo e Palmeiras oferecem caminhos diferentes

A sondagem dos dois clubes também cria uma discussão interessante porque Flamengo e Palmeiras poderiam oferecer a Paixão contextos diferentes.

No Flamengo, existe o componente emocional. O próprio jogador declarou que vestir a camisa rubro-negra é um sonho de infância e que espera realizar esse desejo no momento certo. Mas existe também uma questão esportiva, já que o clube carioca acabou de produzir um exemplo muito próximo daquilo que Paixão procura: Samuel Lino voltou ao Brasil, tornou-se protagonista e foi convocado por Ancelotti.

Isso não significa que a história necessariamente se repetiria. Lino possui características próprias, e o sucesso de um jogador não garante o mesmo resultado para outro. Ainda assim, existe uma estrutura que pode ser atraente para um atacante que deseja disputar espaço na Seleção, especialmente se conseguir ocupar um papel central na equipe.

No Palmeiras, a lógica seria diferente, mas não menos interessante. O clube também oferece exposição, competitividade e um ambiente acostumado a disputar títulos importantes. Um bom desempenho em uma equipe desse tamanho inevitavelmente colocaria Paixão sob os olhos de Ancelotti, principalmente em um momento no qual o treinador está disposto a observar novas alternativas.

A diferença é que, no Flamengo, haveria ainda uma narrativa pronta: o jogador que sempre sonhou em vestir a camisa rubro-negra e que retorna ao país justamente para tentar alcançar a Seleção. No Palmeiras, a escolha poderia ser mais diretamente associada a uma decisão esportiva, baseada no projeto e na possibilidade de protagonismo.

A Seleção pode ser o argumento que faltava para voltar

Até aqui, Paixão ainda não tem uma razão esportiva definitiva para deixar a Europa. Ele está valorizado, joga em um grande clube francês e continua tendo mercado internacional. A Seleção, entretanto, muda a equação porque o atacante sabe que existe uma concorrência enorme por posições ofensivas.

Vini Jr., Raphinha, Estêvão, Endrick, Rayan, Matheus Cunha, Samuel Lino e outros jogadores disputam espaço em um setor no qual Ancelotti terá muitas opções. Nesse cenário, atuar em um clube brasileiro de grande exposição e assumir protagonismo pode ser uma maneira de tornar sua candidatura mais evidente.

Paixão não precisa voltar ao Brasil para provar que é bom. Precisa encontrar um ambiente no qual consiga transformar sua qualidade em protagonismo constante, porque é esse tipo de sequência que pode fazer com que seu nome deixe de ser apenas uma possibilidade e passe a ser uma alternativa concreta para a Seleção.

O novo ciclo oferece tempo, enquanto Flamengo e Palmeiras oferecem visibilidade. A idade oferece maturidade, e a experiência europeia dá a Paixão uma bagagem que muitos jogadores do futebol brasileiro ainda estão tentando conquistar. O desafio seria transformar todos esses fatores em desempenho suficiente para entrar definitivamente na disputa.

Por isso, a escolha não deveria ser encarada apenas como uma decisão entre Europa e Brasil. Para Igor Paixão, a pergunta mais interessante talvez seja onde ele tem mais chances de se tornar um jogador indispensável.

Permanecer na Europa pode ser a decisão mais segura para a continuidade de sua carreira internacional, mas retornar ao Brasil, assumir o protagonismo de um Flamengo ou Palmeiras e entrar no radar constante de Ancelotti pode representar uma decisão mais agressiva do ponto de vista esportivo. Samuel Lino mostrou recentemente que esse caminho pode funcionar, ainda que cada trajetória tenha suas próprias circunstâncias.

Agora, Igor Paixão tem diante de si uma oportunidade parecida. Aos 26 anos, ainda existe tempo suficiente para construir uma história importante com a Seleção, e o novo ciclo acabou de começar com um treinador disposto a observar jogadores que encontraram no futebol brasileiro uma nova versão de si mesmos.

Se o retorno acontecer, portanto, não precisará ser encarado como uma desistência do projeto europeu. Pode ser justamente uma tentativa de dar um passo diferente para alcançar um objetivo que ainda não conseguiu conquistar. Para Paixão, voltar ao Brasil pode significar trocar a segurança de uma carreira consolidada na Europa pela possibilidade de se tornar protagonista em casa e, a partir disso, convencer Ancelotti de que merece uma oportunidade.

(Foto: Getty Images)