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Alice Pereira: quem é a brasileira de apenas 20 anos que chamou a atenção com grande atuação no UFC Vegas 122?

Alice Pereira voltou a chamar a atenção do mundo do MMA com uma atuação dominante no UFC Vegas 122. No dia 10 de outubro, a brasileira derrotou a russa Daria Zhelezniakova após o primeiro round, em uma luta na qual combinou pressão na trocação, capacidade de levar o combate para o chão e golpes contundentes por cima. O corte profundo provocado na adversária impediu que a russa retornasse para o segundo assalto, e a performance rendeu à baiana mais um bônus de Performance da Noite, no valor de US$ 100 mil.

O resultado, porém, representa mais do que uma vitória expressiva. Aos 20 anos, Alice começa a construir uma trajetória que chama a atenção pela rapidez com que avançou no MMA profissional e pela identidade que vem desenvolvendo dentro do octógono. Conhecida pelo apelido de “Golden Girl”, a peso-galo tem na agressividade uma de suas principais características, mas seu jogo não se resume à disposição para atacar. A maneira como pressiona as adversárias, busca impor o ritmo e aproveita as oportunidades para definir os combates ajuda a explicar por que ela se tornou um nome interessante para acompanhar na divisão.

A brasileira ainda está no começo da carreira, e o caminho até uma eventual disputa pelo cinturão exige etapas importantes. Mesmo assim, suas atuações recentes já permitem identificar os fundamentos de seu estilo e entender como uma atleta que começou a treinar artes marciais há poucos anos conseguiu chegar tão cedo ao principal evento de MMA do mundo.

De Feira de Santana ao octógono do UFC

Natural da Bahia, Alice iniciou sua trajetória nas artes marciais em 2022. Ela sempre teve vontade de praticar a modalidade, mas só conseguiu encontrar a oportunidade de começar naquele período. A partir daí, o treinamento passou a ocupar um espaço central em sua rotina, dando início a uma evolução que a levou ao MMA profissional em 2023.

A velocidade dessa ascensão ajuda a dimensionar a importância de sua trajetória. Em vez de passar muitos anos acumulando experiência em diferentes organizações antes de chegar ao maior palco do esporte, Alice construiu rapidamente um cartel competitivo e chamou a atenção por sua capacidade de conseguir vitórias antes do limite. Seu histórico profissional inclui triunfos por nocaute e nocaute técnico, além de uma vitória por finalização, uma variedade que mostra que seu repertório não está restrito a uma única maneira de vencer.

A estreia no UFC aconteceu em setembro de 2025, contra Montserrat Rendon, no evento Noche UFC. Alice acabou derrotada por decisão dividida dos juízes, um resultado que interrompeu seu início de carreira na organização antes que pudesse conquistar a primeira vitória. A experiência, no entanto, também representou o contato com um nível de competição diferente, no qual a margem para erros diminui e a capacidade de administrar os três rounds se torna tão importante quanto o poder de definição.

A resposta veio em abril de 2026. Diante de Hailey Cowan, Alice conseguiu um nocaute no segundo round e conquistou sua primeira vitória no UFC. O desempenho também lhe rendeu um bônus de Performance da Noite, reconhecimento que indicava não apenas a importância do resultado, mas a maneira contundente como havia sido construído. Em outubro, contra Zhelezniakova, a brasileira voltou a vencer antes do limite e recebeu novamente a premiação.

A sequência mostra uma atleta que conseguiu reagir rapidamente ao revés da estreia e transformar as oportunidades seguintes em resultados expressivos. Ainda é cedo para tratar essa evolução como garantia de sucesso futuro, mas a capacidade de responder à derrota e conquistar duas vitórias consecutivas por interrupção é um sinal positivo em uma fase na qual experiência e adaptação fazem diferença.

A agressividade como identidade de luta

O estilo de Alice começa pela iniciativa. A brasileira prefere não permitir que a adversária estabeleça tranquilamente a distância e encontre seu próprio ritmo. Em vez de esperar o desenvolvimento da luta, procura acelerar as ações, avançar e obrigar a rival a responder sob pressão. Essa característica ficou especialmente clara antes do UFC Vegas 122, quando explicou que precisava neutralizar a movimentação e os golpes retos de Zhelezniakova, uma atleta que poderia ser perigosa caso tivesse liberdade para controlar o espaço.

A estratégia não significa simplesmente atacar de maneira desordenada. A agressividade precisa ser acompanhada pela leitura da distância, pela escolha dos momentos de entrada e pela capacidade de transformar pressão em golpes efetivos. Alice reconheceu que não bastava avançar: era necessário encontrar a distância correta para que sua iniciativa realmente comprometesse o jogo da russa.

Esse detalhe ajuda a compreender a principal característica de seu estilo. A brasileira tenta fazer com que a luta aconteça em um ritmo favorável a ela, reduzindo o tempo disponível para a adversária preparar suas ações. Quando consegue impor essa dinâmica, pode obrigar a rival a recuar, defender-se e tomar decisões em condições menos confortáveis.

O perfil oficial da atleta no UFC a classifica como striker, e seus números reforçam a importância da trocação em seu repertório. O histórico divulgado pela organização registra seis vitórias por nocaute ou nocaute técnico e uma por finalização, além de apontar que a maior parte de seus golpes significativos conectados aconteceu em pé. A capacidade de definir lutas com golpes fortes é, portanto, uma parte central de sua identidade competitiva.

O desafio para uma lutadora com esse perfil é equilibrar intensidade e precisão. Pressionar constantemente pode ser uma vantagem, mas também exige controle para não oferecer oportunidades de contra-ataque, desperdiçar energia ou entrar no alcance de uma adversária mais eficiente na longa distância. À medida que o nível de oposição aumenta, a capacidade de alternar o ritmo e escolher quando acelerar tende a ser tão importante quanto a agressividade em si.

A vitória sobre Zhelezniakova mostrou que Alice pode ir além da trocação

Se a pressão em pé é uma das marcas de Alice, sua atuação no UFC Vegas 122 também mostrou que ela pode encontrar caminhos diferentes para controlar uma luta. Contra Zhelezniakova, a brasileira começou impondo intensidade na trocação, mas não ficou presa à disputa em pé. Quando surgiu a oportunidade, levou a adversária ao chão e passou a trabalhar de uma posição superior, limitando sua movimentação e aumentando gradualmente o volume de golpes.

A transição foi importante porque alterou a natureza do combate. Em vez de continuar trocando golpes em uma distância na qual ambas poderiam encontrar oportunidades, Alice passou a controlar a posição e a reduzir as opções de resposta da russa. No solo, conseguiu avançar e conectar golpes contundentes, incluindo cotoveladas que provocaram um corte profundo na cabeça da adversária.

Zhelezniakova não retornou para o segundo round, e o resultado foi oficialmente registrado como uma vitória de Alice por interrupção após o primeiro assalto. A atuação demonstrou que a brasileira pode usar a pressão em pé para abrir caminho a outras soluções, em vez de depender exclusivamente de um nocaute construído na trocação.

Isso não significa que uma única luta seja suficiente para concluir que Alice possui um jogo completo em todas as áreas do MMA. O grappling defensivo, a capacidade de sair de posições desfavoráveis, a defesa contra quedas e o desempenho em combates longos ainda precisam ser avaliados diante de adversárias com diferentes características. A vitória, porém, ofereceu uma demonstração concreta de adaptação: quando a oportunidade apareceu, ela conseguiu aproveitar o chão para ampliar o controle e criar as condições para a interrupção.

Esse tipo de recurso pode se tornar importante no desenvolvimento da brasileira. Uma atleta conhecida pela agressividade na trocação fica mais difícil de enfrentar quando também consegue ameaçar com quedas, controlar posições e causar dano por cima. As adversárias passam a ter mais decisões para tomar e menos liberdade para se concentrar apenas em bloquear os golpes em pé.

A jovem “Golden Girl” ainda está em fase de construção

A trajetória de Alice chama atenção também por sua idade. Aos 20 anos, ela é apontada pelo perfil oficial do UFC como a lutadora mais jovem do elenco atual da organização. A brasileira treina na Life MMA e na Portugal Top Team, e o próprio UFC registra que ela conquistou a faixa-preta de kickboxing em maio de 2026. São referências importantes para entender a base de sua formação, embora o desenvolvimento no MMA dependa de integrar essas habilidades a um jogo que inclui muito mais do que a luta em pé.

O fato de ter chegado tão cedo ao UFC oferece uma vantagem potencial: Alice tem tempo para acumular experiência, corrigir deficiências e desenvolver diferentes dimensões de seu jogo ainda nos primeiros anos de carreira. Por outro lado, a juventude também significa que ela está em um processo de aprendizado diante de adversárias que podem ter mais tempo de competição, maior variedade de recursos e mais experiência para explorar os erros de uma lutadora agressiva.

A derrota para Rendon, seguida pelas vitórias sobre Cowan e Zhelezniakova, já oferece um pequeno retrato desse processo. Alice experimentou a dificuldade de uma luta decidida pelos juízes e, depois, conseguiu duas interrupções consecutivas. A sequência é animadora, mas não elimina as perguntas que ainda precisam ser respondidas: como ela reage quando não consegue impor a pressão? O que acontece quando encontra uma adversária capaz de neutralizar sua trocação? E como administra o ritmo se a luta se prolongar para os rounds finais?

Essas questões não diminuem o valor de suas conquistas. Pelo contrário, ajudam a colocar a trajetória em perspectiva. O objetivo neste momento não precisa ser transformar cada vitória em uma previsão de disputa de cinturão, mas observar se Alice consegue ampliar seu repertório e demonstrar consistência diante de estilos diferentes.

O próximo passo é transformar impacto em consistência

A vitória no UFC Vegas 122 fortaleceu a posição de Alice Pereira dentro da organização. Além de conquistar seu segundo triunfo consecutivo por interrupção, a brasileira recebeu mais um bônus de Performance da Noite, com premiação de US$ 100 mil. O resultado reforça sua capacidade de produzir atuações que chamam a atenção, mas também aumenta a expectativa sobre os próximos desafios.

O caminho natural agora é enfrentar adversárias que possam testar outras partes de seu jogo. Uma oponente capaz de controlar a distância pode exigir mais paciência e precisão na entrada; uma lutadora com forte grappling pode colocar à prova a defesa de quedas e a capacidade de levantar; enquanto uma rival com boa resistência pode obrigar Alice a demonstrar que consegue manter a qualidade técnica quando a luta não termina rapidamente.

A agressividade continuará sendo uma ferramenta valiosa, desde que venha acompanhada de evolução. Para crescer na divisão, Alice precisará preservar aquilo que a torna perigosa sem se tornar previsível. A capacidade de misturar a trocação com quedas, controlar posições e escolher melhor os momentos de atacar pode ser decisiva para que seu potencial se transforme em resultados sustentáveis.

Por enquanto, a brasileira tem motivos para celebrar. Sua trajetória foi rápida, ela reagiu bem à derrota na estreia e conquistou duas vitórias consecutivas por interrupção, ambas acompanhadas de bônus. Mais importante, a atuação contra Zhelezniakova mostrou que seu jogo pode ir além da imagem de uma striker que avança para trocar golpes.

Alice Pereira ainda está construindo seu nome no UFC. O apelido “Golden Girl”, a juventude e os nocautes ajudam a despertar curiosidade, mas o que definirá seu futuro será a capacidade de continuar evoluindo quando as adversárias estiverem mais preparadas para enfrentá-la. A vitória em Las Vegas não encerra essa história; oferece, na verdade, um novo ponto de partida para descobrir até onde a combinação de agressividade, potência e adaptação poderá levá-la.

(Foto: Divulgação/UFC)