O Flamengo voltou da Argentina com um resultado que pode ser considerado positivo, mas que também expôs limitações importantes em seu desempenho. O empate por 0 a 0 com o Estudiantes, na noite de quinta-feira, em La Plata, deixou a decisão da semifinal da Libertadores completamente aberta. O time de Leonardo Jardim não conseguiu criar oportunidades suficientes para ameaçar o gol adversário, terminou a partida sem acertar uma finalização na direção da meta e passou boa parte dos 90 minutos tentando controlar os riscos. Ainda assim, saiu do Estádio Uno sem sofrer gols e agora decidirá a classificação diante de sua torcida, no Maracanã.
A estratégia rubro-negra teve uma lógica clara. Em um ambiente tradicionalmente hostil para os visitantes na Libertadores, o Flamengo procurou controlar o ritmo da partida, reduzir os espaços e evitar que a pressão exercida pelo Estudiantes nas arquibancadas se transformasse em domínio dentro de campo. Os números mostram que a equipe conseguiu parte desse objetivo: teve 59% de posse de bola, acertou 80% dos passes e registrou mais desarmes do que os argentinos.
O problema é que controlar a bola não significou controlar completamente o jogo. Enquanto o Flamengo circulava a posse sem conseguir transformá-la em perigo, o Estudiantes encontrou maneiras de chegar à área e terminou com 18 finalizações, seis delas na direção do gol. Os argentinos também criaram três oportunidades consideradas claras, contra nenhuma do adversário brasileiro.
A diferença ajuda a explicar por que o empate precisa ser analisado sob duas perspectivas. Do ponto de vista do resultado, o Flamengo cumpriu uma parte importante da missão ao evitar a derrota fora de casa. Do ponto de vista da atuação, porém, a equipe ficou muito distante do futebol que a tornou competitiva ao longo da temporada. Para chegar à final, o Rubro-Negro precisará aproveitar a vantagem de decidir no Maracanã sem repetir uma apresentação tão limitada ofensivamente.
O Flamengo conseguiu esfriar o ambiente, mas também esfriou o próprio ataque
A principal escolha de Leonardo Jardim foi tentar retirar do Estudiantes aquilo que costuma tornar seus jogos em casa particularmente difíceis: a capacidade de transformar intensidade, pressão e contato físico em uma sequência de ataques que empurre o adversário para perto da própria área.
Para isso, o Flamengo procurou manter a posse e evitar que a partida se transformasse em uma disputa desorganizada. O time teve mais passes, maior precisão na circulação da bola e conseguiu competir nos duelos defensivos. A equipe argentina, por sua vez, encontrou dificuldades para transformar sua presença em campo ofensivo em uma vantagem no placar.
Essa estratégia, no entanto, teve um custo. O Flamengo praticamente abdicou de atacar com a agressividade habitual e terminou a partida com apenas cinco finalizações, nenhuma delas na direção do gol. Bruno Henrique e Samuel Lino tiveram dificuldades para encontrar espaços, enquanto o restante da equipe também apresentou problemas para acelerar as jogadas e transformar a posse em oportunidades concretas.
O resultado foi uma partida na qual o time brasileiro conseguiu neutralizar parte da pressão adversária, mas não ofereceu uma ameaça ofensiva suficiente para obrigar o Estudiantes a mudar seu comportamento. Os argentinos puderam manter a iniciativa em diferentes momentos, avançar seus jogadores e insistir nas bolas aéreas sem precisar se preocupar tanto com os contra-ataques.
Existe uma diferença importante entre diminuir o ritmo de um jogo e permitir que ele seja controlado pelo adversário. O Flamengo conseguiu evitar que o confronto se transformasse em uma sequência de ataques perigosos, mas não construiu uma alternativa consistente para aproveitar os espaços que surgiam quando o Estudiantes avançava.
A defesa evitou o pior, mas não pode ser a única resposta
Se o Flamengo não conseguiu produzir ofensivamente, ao menos demonstrou capacidade para resistir à pressão. O Estudiantes encontrou espaços para finalizar, mas não conseguiu converter seu volume em gol, em parte porque a defesa rubro-negra apareceu em momentos importantes.
Léo Pereira e Alex Sandro foram decisivos ao impedir que duas finalizações perigosas de dentro da área terminassem em situações ainda mais complicadas. Os bloqueios, realizados em momentos distintos da partida, ajudaram a preservar o empate e evitaram que o Flamengo precisasse buscar uma virada no jogo de volta.
A atuação defensiva ganha importância porque o Estudiantes possui uma arma particularmente perigosa: o jogo aéreo. Carrillo conseguiu se desvencilhar dos marcadores em diferentes ocasiões para cabecear, embora não tenha transformado essas oportunidades em gols. A capacidade dos argentinos de encontrar o centroavante dentro da área será um ponto de atenção para Leonardo Jardim na partida decisiva.
No Maracanã, o Flamengo não poderá tratar as bolas aéreas como um problema secundário. Mesmo que consiga controlar melhor a posse e empurrar o Estudiantes para trás, uma cobrança de falta ou um escanteio pode alterar completamente a eliminatória. A equipe argentina demonstrou que consegue criar perigo sem precisar dominar o jogo durante longos períodos.
O desafio defensivo, portanto, não está apenas em repetir os bloqueios e as intervenções da partida de ida. Está em reduzir a quantidade de situações nas quais os zagueiros precisam resolver o problema perto do próprio gol.
Para isso, o Flamengo terá de melhorar também sua proteção no meio-campo. Quanto menos o Estudiantes conseguir avançar com liberdade, menores serão as oportunidades para cruzamentos, segundas bolas e finalizações dentro da área.
A defesa cumpriu sua função na Argentina, mas depender novamente de bloqueios decisivos e de uma atuação sem erros pode ser uma estratégia arriscada. O Flamengo precisa defender bem, sem transformar a proteção da própria área em seu único plano de jogo.
Carrascal foi uma das poucas alternativas ofensivas
Em uma atuação coletiva abaixo do esperado, Carrascal apareceu como um dos jogadores mais capazes de criar algo diferente. O colombiano teve participação importante na tentativa de conectar o meio-campo ao ataque, mas também encontrou dificuldades para transformar suas ações em finalizações perigosas.
Sua atuação ajuda a identificar um dos problemas enfrentados pelo Flamengo em La Plata: faltou criatividade em zonas nas quais a equipe costuma encontrar soluções. Quando os atacantes não conseguem vencer seus marcadores individualmente, o time precisa de jogadores capazes de receber entre as linhas, acelerar a circulação e encontrar passes que desorganizem a defesa adversária.
Carrascal tentou assumir parte dessa responsabilidade, mas não foi suficiente para alterar o comportamento da partida. O Flamengo continuou com a posse, porém sem conseguir criar uma sequência de jogadas que colocasse o Estudiantes sob pressão constante.
A volta de Jorginho, que cumpriu suspensão no jogo de ida, pode ajudar nesse aspecto. O meio-campista oferece capacidade de organização, qualidade na distribuição dos passes e experiência para controlar o ritmo de uma partida decisiva. Sua presença também pode liberar outros jogadores para ocupar posições mais avançadas, aproximando o meio-campo do ataque.
Isso não significa que Jorginho resolverá sozinho os problemas apresentados na Argentina. A equipe precisará encontrar uma maneira mais eficiente de utilizar a posse de bola e oferecer melhores condições para que seus atacantes recebam em situações favoráveis.
O retorno do volante, entretanto, amplia as alternativas de Jardim e pode ajudar o Flamengo a estabelecer um ritmo diferente no Maracanã. Em vez de apenas manter a bola longe da própria área, o time precisará usá-la para criar vantagens e obrigar o Estudiantes a defender por períodos mais longos.
Pedro pode ser a peça decisiva contra um Estudiantes mais fechado
A partida de volta tende a apresentar um desafio tático diferente. Como o empate leva a decisão para os pênaltis, o Estudiantes pode adotar uma postura ainda mais cautelosa no Maracanã, procurando reduzir os espaços e dificultar a construção ofensiva do Flamengo.
Esse cenário aumenta a importância de Pedro. O centroavante pode oferecer uma referência dentro da área, prender os zagueiros e criar condições para que os jogadores que chegam de trás encontrem espaços. Contra uma defesa que provavelmente tentará proteger a região central, sua capacidade de posicionamento e finalização pode ser determinante.
A presença de Pedro, porém, precisa estar acompanhada de um funcionamento ofensivo mais eficiente. Não basta colocar o centroavante em campo e esperar que ele resolva uma partida na qual a equipe não consegue produzir oportunidades claras. O Flamengo precisará acelerar a circulação, variar os corredores e encontrar maneiras de deslocar a linha defensiva argentina.
Os jogadores de lado também terão de participar mais. Bruno Henrique e Samuel Lino precisam oferecer profundidade, atacar os espaços e obrigar os defensores a tomar decisões. Se o Estudiantes conseguir manter todos os jogadores concentrados em proteger a área, o Flamengo poderá repetir o problema da ida: posse de bola elevada, mas pouca capacidade de transformar essa superioridade em perigo.
A equipe brasileira tem recursos técnicos para encontrar soluções, mas precisará mostrar uma postura diferente. A vantagem de jogar em casa não elimina a necessidade de competir, pressionar e assumir riscos calculados.
O Maracanã é uma vantagem, não uma garantia
O empate sem gols deixa a eliminatória em aberto, mas o Flamengo tem um benefício importante: decidirá a vaga diante de sua torcida. O Maracanã pode oferecer um ambiente favorável para aumentar a intensidade da equipe e pressionar o Estudiantes, especialmente se o time brasileiro conseguir começar a partida com agressividade.
Ainda assim, o mando de campo não garante a classificação. Um novo empate levará a decisão para os pênaltis, enquanto uma derrota elimina o Flamengo da competição. A equipe precisa, portanto, transformar o apoio da torcida em vantagem esportiva, sem confundir urgência com precipitação.
O contexto também exige equilíbrio na gestão da semana. Antes de voltar a pensar na Libertadores, o Flamengo enfrenta o Bahia neste domingo, às 18h30, na Arena Fonte Nova, pela 31ª rodada do Campeonato Brasileiro. A disputa nacional acrescenta pressão porque o Rubro-Negro tem apenas um ponto de vantagem sobre o Palmeiras na liderança e não pode se permitir um tropeço que coloque em risco sua posição.
Leonardo Jardim terá de administrar o desgaste físico e mental do elenco, mantendo a equipe competitiva no Brasileirão sem comprometer a preparação para a decisão continental. A rotação poderá ser importante, mas o treinador também precisa preservar o ritmo de jogadores que serão fundamentais contra os argentinos.
O Flamengo tem condições de chegar a mais uma final de Libertadores. O empate em La Plata manteve o caminho aberto e mostrou que a equipe consegue resistir a um ambiente difícil. Mas o resultado não deve esconder o que faltou: capacidade de transformar a posse em oportunidades e de impor seu futebol diante de um adversário que, mesmo sem dominar completamente, conseguiu finalizar muito mais.
Na próxima quinta-feira, o Rubro-Negro precisará mostrar uma versão mais agressiva e criativa de si mesmo. A defesa já demonstrou que pode suportar a pressão do Estudiantes. Agora, o ataque terá de provar que consegue decidir a eliminatória.
Porque, em uma semifinal de Libertadores, sobreviver fora de casa pode ser um passo importante. Para chegar à final, porém, o Flamengo terá de fazer mais do que resistir.
(Foto: Robert Valle/Reuters)



