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NFL Série Unidades Lendárias – Air Coryell (Chargers)

(por Rodrigo Mota) Você já imaginou uma partida de futebol americano sem passes para a frente? Pois é, as regras e a estrutura do futebol americano que vemos hoje, já foram muito diferentes no passado.Assim eram os jogos do esporte bem nos primórdios do seu tempo, um jogo cheio de corridas e uma forma que lembra muito o rúgbi. Apesar de o futebol americano já existir desde 1870, só em 1906 que foi introduzido ao jogo o passe para frente. Na época as regras eram diferentes: se o passe fosse incompleto sem ninguém encostar na bola era turnover para o adversário (Loucura, sim ou claro?), além do contato entre defensor e recebedor ser permitido enquanto o passe estava no ar (realidade muito diferente das interferências de passe de hoje em dia), vale lembrar também que a bola era muito diferente, no começo ela era mais redonda sendo praticamente impossível mandar os espirais perfeitos que vemos hoje em dia, mas essa era a situação no início da trajetória.Como o jogo de passe era encarado como “muito arriscado” as equipes não tinham dó de alimentar o jogo terrestre, até por isso era muito comum jogadores mais pesados no esporte, sendo assim o passe, era só usado em situações de urgência, como terceiras descidas longas por exemplo. Mas com o passar dos anos alguns técnicos começaram a enxergar potencial nesse inexplorado estilo de jogo. Algumas regras mudaram para favorecer o passe e as equipes começaram a implementar o jogo aéreo em seus esquemas ofensivos, logico que ainda de maneira cautelosa, priorizando o jogo terrestre. Ainda muito cru, mas já mais presente o jogo aéreo começou a aparecer no final da década de 30. Em 1940, a bola mudou e se transformou na bola que conhecemos hoje (leve e no formato oval) feita para o passe para a frente. No mesmo ano o Chicago Bears utilizou o artificio do passe para vencer o campeonato da NFL, com uma revolucionaria formação chamada de “T formation”, a equipe venceu o Washington Redskins por 73-0 na final, e a partir dai começou a se moldar o futebol americano que conhecemos hoje.A partir da década de 40 começaram a surgir os quarterbacks, as estrelas das equipes atualmente. Antes de 1940 o quarterback era chamado de halfback ou tailback, e suas funções não eram exclusivamente de passar ou ceder o handoff, nesta época os “quarterbacks” em primeiro lugar corriam, chutavam (dropkicks e punts) e na última opção passavam. Com a mudança no estilo de jogo começaram a aparecer os quarterbacks que priorizavam passar a bola e os homens que são grandes responsáveis pelo sucesso de sua equipe. Mas não se engane, apesar de estarmos em uma era com o jogo aéreo presente, 20 tentativas de passes era considerado um exagero.Até que em 1978, Don Coryell chegou em San Diego. Coryell havia chamado a atenção com seu estilo de jogo revolucionário em que ele chamava mais jogadas de passe do que o habitual. O treinador iniciou a sua carreira na universidade de San Diego State, em 1961, e, após 12 temporadas, ele fez a transição para a NFL, em 1974 ele assumiu o St. Louis Cardinals (hoje Arizona Cardinals) e fez três temporadas por lá, onde conseguiu levar a equipe a uma pós-temporada depois de 26 anos.Em 1978 Coryell chegou em sua última parada como treinador, San Diego. Lá ele desenvolveu um estilo de jogo que revolucionou o futebol americano. Com a implementação da “regra de Mel Blount”, em 1978 onde o defensor não poderia mais ter contato livre com o jogador na linha de scrimmage, abriu-se uma porta para wide receivers terem mais espaço e tempo para correr suas rotas, isso também ajudou em um ponto principal do sistema conhecido como “Air Coryell”. O sistema “Air Coryell” consistia em três pontos principais: jogo terrestre pelo meio, passes longos explorando a velocidade em rotas mais verticais, e alguns passes de curta e média distância para preencher todo o espaço do campo.Com isso em mente, Coryell contava com Dan Fouts, quarterback da equipe que tinha um braço forte. Ele foi um dos primeiros a executar o estilo de jogo vertical. Além de Fouts, a equipe contava também com dois grandes wide receivers do seu tempo, Charles Joiner e Wes Chandler. Além da combinação de recebedores, o esquema imposto por Coryell, foi o primeiro que explorou usar mais jogadores para correr rotas. Era comum na época mandar somente os wide receivers e os tight ends (as vezes) correrem, o que o treinador fez, foi botar todos os jogadores elegíveis para correr rotas, ou seja, os running backs e tight ends também se tornaram alvos frequentes de passe. Em 1980, os Chargers contrataram o running back Chuck Muncie, que iniciou a ideia dos corredores da NFL serem ameaças duplas, Muncie tinha a fisicalidade para correr, mas também equilibrava sua leveza com a capacidade de correr rotas e receber passes. Por último, mas não menos importante desta equipe recheada de talentos, vem Kellen Winslow, o tight end que jogou toda a sua carreira pelos Chargers, é considerado por muitos um dos melhores da sua posição de todos os tempos. Para quem hoje vê, Rob Gronkowski, Travis Kelce, Zach Ertz, quem iniciou este conceito do tight end ser uma arma no jogo aéreo, foi Don Coryell com Kellen Winslow. Como diria Al Saunders, assistente dos Chargers, “Winslow era um wide receiver no corpo de um jogador de linha ofensiva”. Com seu atleticismo eminente Winslow tinha uma velocidade e agilidade, acima da média para os jogadores de sua posição, Coryell então resolveu criar mais rotas e situações para que o tight end pudesse se envolver mais no jogo, e Winslow se tornou uma das peças centrais da equipe e um dos melhores jogadores da NFL.Nos anos oito anos em que o “Air Coryell” esteve em campo, os Chargers venceram três vezes consecutivas a título de sua divisão e chegaram a duas finais da AFC, mas falharam em alcançar o Super Bowl. Apesar de nem sempre alcançarem os playoffs, os Chargers lideraram a liga no jogo aéreo em sete dos oito anos que Coryell esteve em San Diego. Dan Fouts veio a ser o MVP da temporada em 1982 e melhor jogador da AFC em 1979 e 1982, além de ter seu número 14 aposentado pelos Chargers. O time marcou época, muitos dos jogadores do ataque foram ao Pro Bowl: Dan Fouts foi seis vezes, Kellen Winslow foi cinco vezes, Wes Chandler foi quatro vezes, Charlie Joiner foi duas vezes e Chuck Muncie foi três vezes. Charles Joiner, Kellen Winslow e Dan Fouts estão no hall da fama. Apesar de ter um ataque explosivo em mãos, as defesas de Don Coryell nunca foram eficientes, com muitas vezes os números sendo os piores ou quase piores da liga, a equipe sofria para vencer seus adversários. Com um início vencedor, os anos seguintes não foram gloriosos, depois de 1982 a equipe não conseguiu se classificar aos playoffs por três anos seguidos, mesmo estando sempre na disputa. Em 1986, após iniciar a temporada 1-7, Coryell se aposentou, ou foi “forçado” a se aposentar, e a partir de sua saída começou a desmontagem dessa equipe dos Chargers.Não tanto pelos números, mas sim pelo conceito que foi introduzido, o “Air Coryell” sem dúvidas entrou para a história da liga. O sistema inovou em quesitos como explorar os jogadores elegíveis para rotas, além dos wide receivers, e foi um dos “pais” das rotas longas. O que Coryell fez foi revolucionário, tanto que as defesas da NFL precisaram se adaptar para defender o seu time, hoje conhecidas como formação nickel e dime, implantadas por defesas adversárias para tentar parar o nunca antes visto estilo de jogo explosivo da equipe. Apesar de não estar no Hall da Fama muitos consideram o esquema de jogo fundamental para o que o futebol americano é hoje “Don é o pai do jogo aéreo moderno. As pessoas falam do West Coast Offense, mas Don iniciou o West Coast décadas atrás e continuou atualizando-o. Você olha pela NFL hoje, e muitos times estão executando uma versão do ataque de Coryell. Os técnicos adicionaram os seus toques, mas ainda é o ataque de Coryell. Ele tem discípulos em todo o lugar da liga. Ele mudou o jogo.” Disse Mike Martz coordenador ofensivo do “Greatest show on turf” e, posteriormente, head coach da equipe.Mesmo com tudo isso “Air Coryell” merece um espaço na nossa lista de unidades lendárias, e a primeira vez que você ver uma bomba de 70 jardas no fundo do campo em jogo de futebol americano, não esqueça de agradecer essa emoção eletrizante a Don Coryell.

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