A Itália historicamente figura entre as seleções mais respeitadas do futebol mundial, mas uma particularidade legal tem sido apontada como um possível freio ao pleno desenvolvimento da Azzurra dentro de campo. Mesmo após a conquista da Eurocopa em 2020 e o status recente de quarta melhor seleção do planeta, o país despencou para a 12ª colocação no Ranking Mundial da FIFA, enquanto o prestígio de outrora vai se dissipando. A ausência nas Copas do Mundo de 2018 e 2022 simboliza esse declínio gradual, transformando o temor que eles inspiravam no continente em algo cada vez mais distante.
Embora o elenco atual conte com talentos de nível internacional como Gianluigi Donnarumma, Federico Dimarco, Riccardo Calafiori, Sandro Tonali e Alessandro Bastoni, a equipe comandada por Gennaro Gattuso ainda não alcança o mesmo peso simbólico da geração campeã mundial de 2006. Naquela ocasião, sob o comando de Marcello Lippi, a Itália era liderada por ícones eternos como Gianluigi Buffon, Andrea Pirlo, Alessandro Del Piero e Francesco Totti, considerados a última grande geração vitoriosa do país.
Mesmo aposentado da seleção desde 2006, Paolo Maldini segue como um dos maiores nomes da história do futebol italiano. Apesar da qualidade técnica de Bastoni, nenhum defensor contemporâneo conseguiu se aproximar do legado deixado pelo lendário jogador do Milan na lateral esquerda. Ainda assim, um jovem talento tem chamado a atenção de analistas e torcedores, alimentando rumores de que a Itália finalmente pode ter encontrado um sucessor à altura — não fosse um obstáculo decisivo: ele não pode atuar pela Azzurra, apesar de ter nascido em território italiano.
Nos últimos meses, reacendeu-se no país o debate em torno de uma legislação que ultrapassa o futebol e toca em temas sensíveis como imigração, cidadania e identidade nacional. Muitos acreditam que essa lei possa estar impedindo a seleção italiana de recuperar parte de sua antiga glória. O nome de Honest Ahanor ganhou destaque após a transferência milionária do defensor de apenas 17 anos para a Atalanta, no último verão europeu. Desde então, ele se tornou peça importante no sistema defensivo da equipe, que vem apresentando crescimento na Serie A após um início instável de campanha.
A negociação, avaliada em 20 milhões de euros junto ao Genoa, causou surpresa e entrou para a história como a segunda contratação mais cara já feita por um italiano dessa idade. O desempenho do jovem atraiu o interesse de gigantes europeus, como o Chelsea, que cogita apresentar uma oferta de até 60 milhões de euros na próxima janela de transferências. Apesar de ter se tornado o jogador mais jovem da Itália a iniciar uma partida da UEFA Champions League, Ahanor jamais foi convocado para qualquer categoria da seleção nacional — não por questões técnicas, mas por não ser reconhecido legalmente como cidadão italiano.
Nascido na Campânia, no sul do país, filho de pais nigerianos, o zagueiro cresceu integralmente inserido no sistema educacional e esportivo italiano, sem qualquer distinção cultural em relação a outros jovens de sua geração. No entanto, a legislação do país segue determinando que o nascimento em solo italiano não garante automaticamente a cidadania. O processo exige vínculo sanguíneo ou descendência direta. Filhos de imigrantes só podem solicitar a cidadania ao completar 18 anos, desde que comprovem residência legal e contínua, mesmo que a naturalização seja concedida posteriormente.
A situação remete ao caso de Mario Balotelli, ex-atacante do Manchester City, que nasceu na Sicília, filho de pais ganeses, e só pôde defender a Itália após atingir a maioridade. Apesar de recorrentes apelos por mudanças na lei, um referendo que propunha acelerar a concessão de cidadania a estrangeiros fracassou em 2025 devido à baixa participação popular, após a primeira-ministra Giorgia Meloni incentivar o boicote à votação.
Independentemente do debate político ou social sobre os méritos da legislação, sob a ótica esportiva o risco é evidente: a Itália pode perder jovens promessas para seleções estrangeiras, já que muitos atletas optam por representar o país de origem de seus pais em vez de aguardar até os 18 anos para requerer o passaporte italiano. Ahanor, inclusive, já foi sondado pela seleção da Nigéria, mas teria escolhido esperar a maioridade para, então, aceitar uma eventual convocação da Azzurra.

Lei da cidadania volta ao centro do debate às vésperas da repescagem da Itália rumo à Copa do Mundo de 2026
Às vésperas da decisiva repescagem para a Copa do Mundo de 2026, em março, contra a Irlanda do Norte — antes de uma possível final diante de Bósnia ou País de Gales —, a Itália volta a se ver no centro de uma discussão que extrapola as quatro linhas. A legislação de cidadania ressurge como um tema sensível, especialmente diante da possibilidade de o país não conseguir “assegurar” aquele que muitos já apelidam de o próximo Paolo Maldini.
Em um momento em que a Azzurra luta para evitar mais uma ausência em Mundiais, o simbolismo do debate se intensifica. O caso de Honest Ahanor, lateral-esquerdo de enorme projeção, escancara as limitações do sistema atual. Formado integralmente na Itália, moldado dentro da cultura futebolística local e apontado como um talento geracional, o jovem ainda não pode defender oficialmente a seleção nacional por entraves legais, e não técnicos.
A legislação italiana permanece baseada no princípio do jus sanguinis, em que a nacionalidade é herdada pelo sangue, e não pelo local de nascimento. Na prática, isso significa que atletas nascidos e criados no país podem passar anos fora das seleções de base, perdendo etapas importantes de desenvolvimento internacional.
O contraste com o momento esportivo é evidente. A seleção chega pressionada para a repescagem contra a Irlanda do Norte, ciente de que qualquer deslize pode representar mais um trauma recente. Paralelamente, talentos capazes de renovar o elenco — sobretudo em posições historicamente fortes, como a defesa — seguem fora do alcance da Nazionale por questões burocráticas.
Ahanor é descrito por analistas como um lateral moderno, forte fisicamente, inteligente taticamente e com boa capacidade ofensiva. As comparações com Paolo Maldini, ainda que prematuras, ajudam a dimensionar o potencial que a Itália corre o risco de não aproveitar plenamente.
Embora o tema tenha retornado à pauta política, propostas de flexibilização da cidadania seguem encontrando resistência e apatia popular. Para críticos do modelo atual, o futebol apenas evidencia um problema estrutural: a Itália forma jogadores, investe em suas bases, mas pode vê-los defender outras bandeiras por falta de reconhecimento legal.
Às vésperas de um confronto que pode definir o futuro imediato da Azzurra, o debate ganha caráter de urgência. Entre resultados de curto prazo e decisões de impacto duradouro, a pergunta que ecoa fora dos gramados permanece: quantos “novos Maldinis” a Itália pode se dar ao luxo de perder?
Enquanto a resposta não chega, as atenções se voltam para a repescagem contra a Irlanda do Norte — mas a discussão sobre identidade, cidadania e o futuro do futebol italiano está longe de ouvir o apito final.
(Foto: Getty Images)