Cusco FC
Futebol Libertadores

Adversário do Flamengo na Libertadores, Cusco FC é mais conhecido do que parece; conheça a história do time peruano

O sorteio da fase de grupos da Libertadores colocou frente a frente Flamengo e Cusco FC em um duelo que, à primeira vista, pode parecer desequilibrado. Para o torcedor mais desavisado, o clube peruano surge como uma novidade no cenário continental. No entanto, essa percepção ignora elementos importantes da trajetória recente da equipe, que ajudam a explicar por que o confronto exige mais atenção do que o nome sugere.

O Cusco FC é, na prática, a continuidade do Real Garcilaso, equipe que ganhou relevância na América do Sul ao longo da década passada. A mudança de identidade, oficializada em dezembro de 2019, foi parte de um processo mais amplo de reposicionamento institucional. Ao abandonar a antiga nomenclatura, vinculada à escola Inca Garcilaso de la Vega, o clube buscou uma conexão mais direta com a cidade de Cusco, um dos maiores símbolos históricos e culturais do Peru.

Cusco é um nome reconhecido internacionalmente, associado ao legado do Império Inca e ao turismo global impulsionado por Machu Picchu. Ao adotar essa identidade, o clube tentou ampliar seu alcance, fortalecer a base local de torcedores e se tornar mais atrativo fora do país. A reformulação também atingiu os elementos visuais: novo escudo, novas cores e maior presença do dourado e do preto, numa clara tentativa de incorporar referências históricas e culturais ao projeto esportivo.

O histórico do Real Garcilaso contra brasileiros e o Flamengo contra peruanos

Apesar de ser um clube fundado apenas em 2009, sua trajetória na Libertadores é mais consistente do que se imagina. Entre 2013 e 2019, ainda como Real Garcilaso, a equipe participou de quatro edições do torneio. Logo em sua estreia, alcançou um feito expressivo ao avançar às quartas de final. Naquele ano, terminou a fase de grupos em segundo lugar e eliminou o tradicional Nacional, do Uruguai, nas oitavas. A campanha só foi interrompida diante do Santa Fe, evidenciando que, mesmo jovem, o clube já demonstrava capacidade competitiva em nível continental.

Esse histórico ganha ainda mais relevância quando se observa o desempenho contra clubes brasileiros. O então Real Garcilaso construiu uma reputação de adversário incômodo, especialmente atuando em casa. Em confrontos pela Libertadores, venceu Cruzeiro e Santos em Cusco, aproveitando não apenas o apoio da torcida, mas também um fator determinante: a altitude.

A cidade de Cusco está localizada a mais de 3.300 metros acima do nível do mar, condição que frequentemente impacta o rendimento de equipes visitantes. Historicamente, clubes brasileiros enfrentam dificuldades nessas condições, o que amplia o grau de imprevisibilidade do confronto.

No entanto, o Flamengo chega respaldado por um retrospecto amplamente favorável contra equipes peruanas. Em seis partidas disputadas ao longo de sua história, o clube carioca nunca foi derrotado. O desempenho inclui uma campanha sólida na fase de grupos de 2008, com três vitórias e um empate contra Cienciano e Coronel Bolognesi, além de dois triunfos consistentes sobre o Sporting Cristal em 2022.

Os problemas do Cusco FC desde a mudança de identidade

Após a mudança de identidade em 2019, o clube enfrentou um período de instabilidade, com campanhas pouco expressivas no cenário nacional. A recuperação começou a ganhar forma apenas a partir de 2024, quando voltou a figurar entre os melhores colocados da liga peruana. No ano seguinte, consolidou essa evolução ao terminar como vice-líder tanto do Apertura quanto do Clausura, ficando atrás apenas do Universitario.

Ainda assim, o Cusco FC vive um processo de reconstrução. A atual temporada indica um time competitivo, mas irregular. A equipe ocupa posição intermediária no campeonato nacional e busca maior consistência, apesar de apresentar sinais de evolução, com vitórias recentes que ajudam a sustentar a confiança do elenco.

Nos bastidores, a situação também influencia o cenário esportivo. A saída do técnico Miguel Rondelli, pouco antes da estreia na Libertadores, gerou instabilidade e expôs tensões no futebol peruano. A diretoria do Cusco chegou a acusar o Melgar de assediar o treinador, o que evidencia um ambiente turbulento em um momento decisivo da temporada.

Para seu lugar, foi escolhido o uruguaio Alejandro Orfila, treinador com perfil ofensivo e abordagem tática progressista. Ex-zagueiro de clubes como River Plate, Sampdoria e San Lorenzo, Orfila costuma propor equipes que assumem o protagonismo, independentemente do contexto. No entanto, diante de um adversário tecnicamente superior como o Flamengo, é possível que adapte sua estratégia, priorizando organização defensiva e transições rápidas. A comissão técnica ainda carrega uma curiosa ligação com o futebol brasileiro. O auxiliar Jonathan Bottinelli é irmão de Darío Bottinelli, que teve passagem pelo Flamengo entre 2011 e 2012.

Dentro de campo, os números indicam um ataque relativamente produtivo, mas ainda em fase de ajuste coletivo. O time marcou 12 gols em nove partidas na temporada, desempenho que sugere capacidade ofensiva, mas também aponta para oscilações.

Diante desse panorama, o duelo entre Flamengo e Cusco FC se apresenta como um confronto de narrativas distintas. De um lado, um clube consolidado, com elenco mais qualificado e histórico recente de protagonismo continental. Do outro, uma equipe que busca reafirmar sua identidade após um processo de transformação institucional, apostando no fator local e na reconstrução esportiva para surpreender.