Carlos Queiroz Gana
Futebol Copa do Mundo

Análise tática: Carlos Queiroz, Javier Aguirre e a arte da defesa como o melhor ataque

A Copa do Mundo costuma premiar seleções capazes de controlar os jogos através da bola, mas também há espaço para outro caminho. A seleção de Gana, de Carlos Queiroz, e o México, de Javier Aguirre, mostram que é possível competir em alto nível através da organização defensiva. Em vez de fazer da posse uma obsessão, os dois treinadores transformaram a defesa em uma arma ofensiva. São propostas diferentes em detalhes, mas unidas por um princípio em comum: sofrer pouco para atacar melhor.

Existe um equívoco frequente em associar sistemas defensivos com passividade. Nem Gana nem México jogam assim. As duas equipes são extremamente preocupadas com o espaço entre linhas e com a compactação do bloco, procurando reduzir o campo útil para os adversários. A diferença é que nenhuma delas faz isso esperando simplesmente sobreviver ao jogo. O objetivo é provocar erros e atacar em condições favoráveis.

Carlos Queiroz e Javier Aguirre entendem que, em uma Copa do Mundo, raramente uma seleção conseguirá dominar todas as partidas. Por isso, suas equipes se sentem confortáveis sem a bola. O controle, para ambos, não é medido pela posse, mas pelo número de situações perigosas cedidas ao adversário.

Gana e o tradicional modelo de Carlos Queiroz

Ao longo da carreira, Carlos Queiroz construiu equipes que priorizam disciplina tática e equilíbrio. Com Gana, não é diferente. A estrutura normalmente se transforma em um 4-1-4-1 ou em um 4-5-1 sem a bola, com linhas muito próximas e grande participação dos pontas no fechamento dos corredores laterais.

Os volantes trabalham quase como zagueiros adicionais, enquanto os atacantes não pressionam de maneira desesperada. O objetivo não é recuperar a posse imediatamente, mas induzir o adversário a jogar em zonas onde Gana se sente confortável para defender. Quando a bola é recuperada, a aceleração é imediata.

As transições ofensivas são o coração da equipe. Queiroz sabe que possui jogadores rápidos e fisicamente fortes, capazes de atacar grandes espaços. Assim, em vez de longas trocas de passes, Gana procura transformar recuperações em ataques verticais. É um modelo semelhante ao que o treinador utilizou em suas passagens por Irã e Portugal: poucas oportunidades criadas, mas quase todas muito perigosas.

Queiroz tem em Antoine Semenyo a sua principal arma ofensiva, junto de Ernest Nuamah. O grande problema nessa questão é que Semenyo não é um jogador que gosta de atacar no campo aberto, mas tende a atacar no mano a mano. Nuamah, por sua vez, tende a prosperar quando tem espaço para o ataque, o que ajuda o estilo de jogo do treinador português.

O México de Aguirre defende mais alto

Se Queiroz prefere um bloco médio ou baixo, Javier Aguirre aposta em uma defesa mais agressiva. O México busca recuperar a bola em zonas mais avançadas, sem abrir mão da compactação. A pressão é coordenada e normalmente começa pelos atacantes, que orientam os adversários para os lados do campo.

O sistema mexicano tem uma característica interessante: ele alterna momentos de intensidade com momentos de espera. Aguirre sabe que uma Copa do Mundo exige controle emocional e físico, e por isso sua equipe não pressiona durante noventa minutos. Há momentos em que o México aceita defender em bloco médio, reorganizando suas linhas antes de acelerar novamente.

A principal consequência dessa organização é que o time raramente se parte. Os meio-campistas permanecem próximos da defesa, reduzindo espaços entre setores e permitindo que a equipe recupere rapidamente a forma quando perde a posse. Não é uma seleção brilhante, mas é uma equipe extremamente madura.

Com a bola, o México frequentemente busca Raul Jimenez como a principal referência física, tentando achar jogadores como Julián Quiñones e Roberto Alvarado pelos lados para atacar as costas da linha defensiva. Quando conseguem fazer isso, mandam muita gente para a área para tentar cruzamentos ou rebotes de chutes de longe. É uma seleção extremamente eficiente, e essa Copa vem mostrando isso.

A defesa como início do ataque

Talvez o maior ponto em comum entre Queiroz e Aguirre esteja na forma como entendem o momento da recuperação da bola. Para eles, defender não representa o fim da jogada, mas o início dela. Quando Gana recupera a posse, o passe vertical aparece quase imediatamente. A intenção é aproveitar um adversário ainda desorganizado. Já o México trabalha uma ou duas trocas de passes antes de acelerar, mas a lógica é semelhante: atacar enquanto o rival ainda tenta se reorganizar.

Por isso, as estatísticas de posse de bola pouco importam para essas equipes. O foco está na qualidade dos ataques, não na quantidade. Em vez de produzir vinte finalizações, procuram criar cinco ou seis situações realmente perigosas.

A história das Copas mostra que equipes organizadas defensivamente costumam ser extremamente perigosas nas fases eliminatórias. Foi assim com a Itália em diferentes gerações, com a Croácia em 2018, com Marrocos em 2022 e com várias seleções dirigidas por técnicos pragmáticos.

Carlos Queiroz e Javier Aguirre conhecem esse cenário. Ambos entendem que, em torneios curtos, controlar riscos é tão importante quanto criar oportunidades. Um jogo de mata-mata raramente é decidido pelo número de passes trocados ou pela posse de bola. Muitas vezes, ele é definido por um erro, uma transição ou uma jogada isolada.

No futebol, existe uma tendência de associar protagonismo à posse de bola. Mas Gana e México mostram outra possibilidade. As duas seleções não buscam dominar o adversário através da circulação incessante. Preferem controlar o jogo por meio da organização, da compactação e da inteligência tática.

Carlos Queiroz e Javier Aguirre talvez não produzam o futebol mais vistoso da Copa do Mundo, mas entregam algo igualmente valioso: equipes que sabem exatamente o que fazer em cada fase do jogo. E, em um torneio no qual os detalhes decidem tudo, a velha máxima volta a ganhar força. Para alguns treinadores, a melhor forma de atacar continua sendo defender bem.

(Foto: Getty Images)