Eddie Howe Newcastle
Futebol Premier League

Análise tática: por que o Newcastle ‘trava’ em jogos grandes na Premier League?

O Newcastle perdeu mais uma na Premier League. Dessa vez, os Magpies foram derrotados por 2 a 1 de virada contra o Arsenal, em casa, e amargaram o quinto jogo sem vencer em seis rodadas do Campeonato Inglês. Esse início de competição é péssimo para uma equipe que investiu em reforços e vem de uma campanha sólida na temporada passada.

Com isso, o técnico Eddie Howe se vê sob pressão. A equipe teve um começo de temporada complicado, enfrentando clubes do Big Six como Liverpool e Arsenal, além de adversários duros como Bournemouth e Aston Villa. Para completar, a estreia na Champions League não trouxe alívio, e os Magpies foram derrotados pelo Barcelona em casa.

No entanto, existe uma tendência em relação ao clube em jogos grandes. O Newcastle é vulnerável defensivamente e ineficaz em transição, e alguns fatores ajudam a explicar isso. Confira os principais pontos.

O estilo de jogo de Eddie Howe

Para contextualizar, o Newcastle de Eddie Howe recebeu muitos elogios na última temporada. Trata-se de um time agressivo, que conseguia, na maioria das vezes, incomodar os rivais na pressão. Howe mantém a mesma base tática que usava no Bournemouth, com três meio-campistas combativos, dois pontas incisivos e um centroavante capaz de se movimentar entre linhas.

Quando chegou ao Newcastle, o lema de Howe era “intensidade”. O time precisava ser intenso, sempre atacando a bola e recuperando alto. No entanto, após o mau começo em 2024/25, o treinador se mostrou mais adaptável. Em alguns jogos, mudou formações para reforçar o meio-campo, atuando em bloco médio, ou até baixo, transformando a equipe em um 5-4-1 compacto.

A característica dos jogadores facilita essa adaptação. Um meio-campo com Sandro Tonali, Bruno Guimarães e Joelinton permite ser forte quando sobe as linhas para pressionar os volantes adversários ou quando se fecha mais atrás. O Newcastle deixou de ser um time apenas intenso, vulnerável em transição, para se tornar mais versátil e seguro em diferentes contextos.

No entanto, a palavra da vez parece ter mudado de novo. O Newcastle voltou a ser um time intenso e teimoso na pressão, e contra rivais mais fortes, isso se torna um risco.

Quando a intensidade vira problema

Na derrota contra o Arsenal, o Newcastle abriu o placar no primeiro tempo com o jovem atacante Nick Woltemade, e a expectativa era uma atuação parecida com a final da Copa da Liga Inglesa passada, quando superaram o poderoso Liverpool campeão da Premier League. Mas não foi o que aconteceu.

Em vez de mostrar adaptabilidade, o Newcastle insistiu em ser agressivo, e não de forma eficiente. A equipe não adiantou as linhas, tentou recuperar a bola na área rival, mas se fechou em bloco médio, onde os volantes perseguiam os meio-campistas do Arsenal. Isso deixava buracos entre linhas, já que os zagueiros hesitavam em acompanhar pela ameaça de Viktor Gyökeres no comando de ataque.

Isso expôs o Newcastle, permitindo várias chances para o Arsenal. Para comparar, quando os Magpies fizeram grande atuação defensiva contra o Liverpool, os Reds tiveram apenas 17 ações na área. Já contra o Arsenal foram 43, incluindo 18 finalizações dentro da área.

Apesar disso, os números defensivos não são ruins no geral. O time está entre os cinco melhores em vários quesitos estatísticos da Premier League. Mas é importante notar que quatro dos cinco gols sofridos no campeonato foram contra equipes do Big Six, quando o Newcastle adota postura mais conservadora.

O Newcastle que não machuca em transição

Outra característica que virou problema neste ano é o ataque em transição. O Newcastle foi letal na temporada passada nesse aspecto, explorando a velocidade e força de Alexander Isak junto a Anthony Gordon e Harvey Barnes.

Nesta temporada, porém, o rendimento caiu, especialmente nas transições. Segundo a Opta, o Newcastle é apenas o nono em quantidade de ataques nesse estilo, mas ainda não marcou gols assim. A principal razão é a qualidade dos passes. O time é o quarto que mais tenta passes para frente e o nono em passes que quebram linhas, mas só o 13º em acerto total.

Além disso, a pressão deixou de render gols. O Newcastle é o segundo em roubadas de bola perto da área rival (49), e 13% dessas ações terminam em finalizações, a sexta melhor taxa da liga. No entanto, ainda não conseguiu transformar turnovers em gols.

Essa queda tem relação com mudanças no elenco. Trocar Isak por Woltemade significa perder velocidade em transição, mas ganhar presença aérea. O Newcastle, porém, insiste para que o alemão replique características do sueco, o que não é viável. O resultado é um time que finaliza pouco (11º da liga) e tem apenas a quinta pior marca em gols esperados (xG).

Howe precisa corrigir o rumo

Mesmo com início ruim, Howe já mostrou ser capaz de reverter situações e recolocar seus times nos trilhos. O inglês é um técnico de elite e precisa encontrar rapidamente formas de deixar sua equipe mais disciplinada sem a bola e, ao mesmo tempo, encaixar o novo centroavante para que, assim como Isak, ele potencialize os companheiros além de seus próprios gols.

No momento, o Newcastle não é sombra do time que encerrou a última temporada, e talvez a solução passe por mudanças estruturais no estilo de jogo de um treinador brilhante, mas que ainda precisa se provar.

(Foto: Getty Images)