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Ancelotti insiste em erro de sobrepor funções táticas às características individuais

O Brasil de Carlo Ancelotti estreou na Copa do Mundo sem conseguir convencer. No sábado (13), a Seleção Brasileira empatou por 1 a 1 com o Marrocos em uma atuação abaixo do esperado. Apesar de Vinicius Júnior ter marcado o gol do empate brasileiro ainda no primeiro tempo, o desempenho da equipe gerou preocupação e deixou mais dúvidas do que respostas para a sequência do torneio.

O empate não incomoda apenas pelo resultado. Dentro de campo, o Brasil encontrou dificuldades para criar jogadas, perdeu o controle do meio-campo durante vários momentos da partida e viu alguns de seus principais jogadores renderem pouco. 

Naturalmente, uma atuação ruim não pode ser explicada por um único motivo. No entanto, parte dos problemas passa pelas escolhas de Carlo Ancelotti. Em busca de um modelo de jogo específico, o treinador acabou colocando alguns atletas em funções que não aproveitam aquilo que eles fazem de melhor.

Ancelotti precisa adaptar o esquema às características dos jogadores

Um dos casos mais evidentes é o de Casemiro. Ao longo da carreira, o volante construiu sua reputação sendo uma peça sólida para a defesa. Sua principal função sempre foi dar equilíbrio ao time, fechar espaços e proteger a linha de zaga.

Contra o Marrocos, porém, o Brasil sofreu justamente no setor central do campo. A seleção africana conseguiu controlar boa parte das ações no meio-campo, encontrando espaço para avançar e criar situações perigosas. Neste cenário, em diversos momentos, a equipe brasileira pareceu vulnerável defensivamente.

Parte dessa dificuldade passa pela função exercida por Casemiro. Quando o sistema exige que o volante participe mais da construção e cubra grandes espaços ao mesmo tempo, o jogador acaba ficando distante daquilo que melhor sabe fazer. O Brasil perde proteção defensiva e também não ganha um organizador de jogo capaz de compensar essa mudança de função.

Outro exemplo importante é Igor Thiago. O atacante chega à Copa após uma temporada excelente pelo Brentford. Foram 25 gols em 40 partidas, sendo 22 deles na Premier League. Os números mostram que estamos falando de um centroavante em grande fase.

Sendo assim, é difícil colocar a atuação apagada da estreia apenas na conta do jogador. No futebol inglês, Igor Thiago normalmente atua com companheiros próximos, recebendo apoio constante para tabelas e movimentações curtas. É comum vê-lo jogando com atletas que ocupam espaços próximos à sua posição, facilitando sua participação nas jogadas.

Na Seleção Brasileira, porém, o atacante passou boa parte do jogo isolado entre os defensores marroquinos. Inclusive, em oportunidades anteriores, o rendimento de Igor Thiago foi mais interessante quando atuou ao lado de Endrick, justamente porque tinha um parceiro próximo para dividir a marcação e criar combinações ofensivas.

Neste cenário, a impressão deixada pela estreia é que alguns jogadores precisaram se adaptar ao esquema de Carlo Ancelotti, quando talvez o caminho mais eficiente fosse adaptar o esquema aos jogadores.

Ancelotti também errou com Raphinha e Luiz Henrique

Talvez nenhum exemplo ilustre melhor a situação do que aquilo que aconteceu pelos lados do ataque brasileiro. Raphinha viveu os melhores momentos de sua carreira atuando aberto. Foi assim que se tornou um dos principais jogadores do Barcelona, participando diretamente das conquistas recentes do clube espanhol e chegando até mesmo a ser citado como possível candidato à Bola de Ouro durante a temporada 2024/25.

Sua principal característica sempre foi atacar espaços, acelerar transições e gerar profundidade pelo lado do campo. Ainda assim, contra o Marrocos, o atacante passou boa parte do tempo atuando por dentro, longe da faixa onde normalmente consegue produzir mais. O resultado foi um jogador praticamente apagado durante a partida.

Sem espaço para explorar sua velocidade e sua capacidade de atacar o campo aberto, Raphinha teve dificuldade para influenciar o jogo e pouco conseguiu produzir ofensivamente.

Enquanto isso, Luiz Henrique também recebeu de Ancelotti uma função que parece não favorecer suas melhores qualidades. O atacante se destaca justamente pela capacidade de decidir jogadas em espaços curtos, encarando marcadores no um contra um.

Porém, contra o Marrocos, Ancelotti colocou o jogador atuando aberto pelo lado do campo. Desta forma, Luiz Henrique acabou ficando distante das situações onde normalmente consegue causar mais impacto. O atacante teve dificuldades para participar das jogadas e raramente recebeu a bola em condições favoráveis para explorar sua principal virtude.

A consequência foi um lado ofensivo que produziu pouco. O Brasil teve dificuldade para aproveitar os espaços deixados pelo adversário e perdeu a oportunidade de explorar características que poderiam ser importantes para acelerar os contra-ataques. Neste cenário, a utilização de Luiz Henrique também acabou reduzindo o potencial de Raphinha, que possui justamente o perfil de jogador capaz de render melhor em campo aberto.

Ainda é cedo para fazer avaliações definitivas sobre o trabalho de Carlo Ancelotti na Seleção Brasileira. A Copa do Mundo está apenas começando e o treinador terá tempo para realizar ajustes. No entanto, a estreia contra o Marrocos deixou uma mensagem importante.

O Brasil possui jogadores de alto nível em praticamente todos os setores do campo. Por isso, talvez o desafio mais urgente de Ancelotti não seja encontrar um novo sistema, mas sim garantir que suas principais peças atuem nas funções que melhor aproveitam suas características. Em uma Copa do Mundo, isso costuma fazer toda a diferença.

Créditos da foto de capa: Foto: Rafael Ribeiro/CBF.