Carlo Ancelotti vive um momento diferente na carreira. Depois de décadas em clubes de ponta na Europa, o treinador italiano agora respira os ares do Rio de Janeiro como técnico da seleção brasileira. Em entrevista à revista France Football, concedida na sede da CBF, Carletto falou sobre sua adaptação ao novo desafio, relembrou a última temporada no Real Madrid e comentou temas quentes do futebol mundial, como sua relação com Vinicius Júnior e a chegada de Kylian Mbappé a Chamartín. O tom foi descontraído, mas deixou frases marcantes, como a que ecoou no noticiário europeu: “O único clube que poderia treinar depois do Brasil é o Real Madrid”.
Para Ancelotti, adaptar-se ao Brasil tem sido “fácil”. Ele afirma que se instalou no país justamente para absorver a cultura e se aproximar do torcedor. “É outro ritmo. Tenho que me empapar da cultura do país, por isso me instalei no Rio”, contou. E elogiou o ambiente na CBF: “Encontrei uma federação muito bem organizada. Desde o presidente até o diretor, todos são fantásticos, entusiastas. Trabalhamos em um ambiente excelente, com seriedade. Vim com meus assistentes, mas não precisava de mais nada. A estrutura é perfeita”.
Ancelotti e o peso de comandar a Seleção e a relação com os craques
Perguntado se vencer a Copa do Mundo é uma obrigação comparável à de conquistar a Champions no Real Madrid, Ancelotti foi direto: “É uma obrigação tentar, mas ninguém tem a obrigação de ganhar”. Ele lembrou que, mesmo em seis anos de Madrid, “não ganhei seis Champions; ganhei três”. Para ele, o futebol é imprevisível demais para falar em obrigação absoluta.
Sobre Vinicius Júnior, Ancelotti disse não ter segredo: “Tenho uma relação fantástica com Vini, faz o que peço. Nunca tive problemas com ele”. E explicou que treinar uma seleção facilita esse tipo de convivência: “No fim, não precisa lidar com esses problemas tão a miúdo. Se um jogador não está contente com seu papel, não há problema, chamo outro. Já não tenho a obrigação que tinha em um clube de gerir um jogador durante toda a temporada”.
Neymar, Mbappé e a gestão de estrelas
Carletto também falou da ausência de Neymar nas primeiras listas. Para ele, um craque precisa estar 100% fisicamente. “Uma seleção deve reunir os jogadores mais talentosos, mas também precisam estar em boa forma. Neymar está melhorando sua condição. Sem dúvida é o mais talentoso. Quero que esteja realmente bem para poder jogar. Poderá participar do Mundial se estiver em forma. O objetivo dele deve ser estar pronto em junho”, afirmou.
Quando o assunto foi Mbappé, o italiano não poupou elogios. “Foi muito fácil. Em um ano, Mbappé nunca me pediu nada, nem bater pênaltis, nem jogar, nem não jogar. Sempre se comportou muito bem, com humildade. Fez uma temporada altíssima, com 44 gols. Acho que a segunda será ainda melhor porque já está adaptado”, analisou. E explicou por que o usou como centroavante: “Para mim, Mbappé é um ‘9’. É aí que melhor expressa suas qualidades. Rápido, técnico, habilidoso, capaz de combinações fulminantes. No lado teria as mesmas qualidades, mas marcaria menos. Para Mbappé é melhor estar na ponta do ataque”.
Bastidores do Real Madrid e reflexões sobre o futebol atual
Ancelotti não fugiu de comentar a temporada passada no Real Madrid. Disse que foi “complicada” por conta do excesso de lesões na defesa: “Militão, Rüdiger, Alaba, Mendy, Carvajal… são muitos jogadores importantes. Houve partidas em que só tínhamos dois defensores de ofício, e um deles recém-saído da base”. Ainda assim, deixou claro que guarda enorme carinho pelo clube e que, se algum dia voltasse a um time, só poderia ser o Real Madrid.
Ele também abordou temas estruturais do futebol. Para Ancelotti, o excesso de jogos prejudica a qualidade dos espetáculos e a saúde dos atletas: “Demasiados danos para os jogadores. Demasiadas lesões. E uma pior qualidade nos jogos”. Criticou a sobrecarga do calendário e mencionou o Mundial de Clubes: “A ideia da competição é boa, mas deveria estar em um calendário que não fosse este. A FIFA sempre quer mais partidas, a UEFA quer uma Champions com mais jogos, e as ligas não querem reduzir os campeonatos. É um problema”.
Filosofia, estilo e o futuro pós-Brasil
Questionado sobre se o futebol de seleções perdeu importância, Ancelotti admitiu que “por causa do aumento das competições, sim, perdeu algo”. Mas defendeu que o Mundial “é a única competição que verá o mundo inteiro”. Sobre estilo de jogo, destacou que ele depende dos jogadores disponíveis. “Guardiola impôs um estilo com Xavi, Iniesta, Busquets e Messi. Klopp impôs intensidade porque tinha jogadores para isso. Guardiola não teria imposto seu estilo com os jogadores de Klopp, e vice-versa”.
Carletto ainda brincou sobre sua famosa tranquilidade à beira do campo. Para ele, isso não é um estilo tático, mas uma capacidade de “gerir pessoas, não jogadores”. E deixou em aberto o futuro: tem contrato de um ano com a Seleção, mas pode ficar mais. “Posso ficar dois anos mais. Ou quatro. Preparar outro Mundial. Mas estou muito feliz aqui”, afirmou. Uma coisa é certa: enquanto estiver no Brasil, Ancelotti se dedicará a fazer história com a amarelinha — e, se depender do seu carisma e experiência, o torcedor brasileiro pode sonhar alto.

