O campeão meio-pesado do UFC, Magomed Ankalaev, se prepara para uma revanche de peso contra Alex “Poatan” Pereira, mas, antes mesmo de pisar novamente no octógono, seu nome voltou às manchetes por conta de uma declaração que repercutiu nas redes sociais. Em um tweet antigo, ressuscitado nos últimos dias, o russo afirmou que a luta mais fácil de sua carreira foi contra Anthony Smith, veterano que anunciou aposentadoria recentemente.
“Meu amigo Chael Sonnen, você tem razão: minha luta mais difícil na divisão foi contra Aleksandar Rakić. Minha luta mais fácil de todas foi contra Anthony Smith. Acertei nele uma combinação que eu usava em um videogame quando tinha 12 anos”, escreveu Ankalaev em outubro de 2024.
A fala, apesar de carregada de ironia, toca em um ponto delicado: o legado de Smith dentro do UFC. Conhecido como “Lionheart”, Anthony Smith construiu uma trajetória respeitável, com mais de 50 lutas profissionais e um cartel repleto de batalhas memoráveis. No entanto, ao contrário de outros nomes que marcaram a categoria pelo refinamento técnico, Smith será lembrado, acima de tudo, por sua resiliência.
O estilo de luta de Anthony Smith
Desde os primeiros passos no octógono, Smith mostrou um arsenal técnico sólido, mas não exatamente brilhante. Seus golpes eram funcionais, mas previsíveis; seu grappling eficiente, mas raramente dominante. O que o diferenciava era a capacidade de absorver castigo, resistir em situações adversas e, por vezes, transformar a própria durabilidade em arma psicológica contra o adversário.
Smith tinha uma defesa de striking muitas vezes exposta, o que o deixava vulnerável contra atletas mais rápidos ou precisos. Ainda assim, sua capacidade de aguentar o ritmo e continuar avançando fazia dele um oponente perigoso. Lutadores como Glover Teixeira e Jon Jones, que o derrotaram, destacaram depois da luta que Smith jamais parava de tentar. Era a personificação de um lutador que se recusava a quebrar mentalmente.
Esse perfil o transformou em espécie de “teste de fogo” para a elite da divisão. Quem conseguia superar Anthony Smith sabia que estava preparado para os maiores desafios do peso meio-pesado. Foi o que aconteceu com Magomed Ankalaev, que, em 2022, dominou Smith com facilidade, explorando justamente as brechas técnicas que sempre estiveram presentes no jogo do esadunidense.
Ankalaev e a leitura do confronto
Do ponto de vista de Ankalaev, a análise faz sentido. O russo é um dos lutadores mais metódicos e calculistas da atualidade, dono de uma base sólida no sambo e de uma capacidade ímpar de controlar a distância. Contra Smith, ele encontrou um rival que não tinha a mesma precisão, velocidade ou defesa para lidar com seu jogo. O resultado foi uma luta em que Ankalaev praticamente ditou todas as ações, sem grandes ameaças.
Por isso, ao recordar o duelo como “a luta mais fácil” de sua carreira, Ankalaev não apenas expressa confiança, mas também revela o quão previsível pode ter parecido o jogo de Smith quando confrontado com um atleta do mais alto nível técnico.
A crítica implícita de Ankalaev não apaga o valor da carreira de Anthony Smith. Embora nunca tenha conquistado o cinturão, o “Lionheart” se tornou uma figura emblemática do UFC justamente por encarar qualquer adversário, em qualquer circunstância. Sua luta contra Jon Jones, em 2019, por exemplo, ficou marcada não apenas pela derrota, mas pela postura digna diante de um dos maiores da história. Quando Jones foi penalizado por um golpe ilegal, Smith poderia ter vencido por desqualificação, mas optou por continuar, reforçando sua imagem de guerreiro.
Essa resiliência, mais do que qualquer aspecto técnico, é o que define seu legado. Anthony Smith pode não ter sido o lutador mais refinado de sua geração, mas foi um dos mais corajosos. Sua disposição para enfrentar qualquer um fez dele um pilar da divisão meio-pesado durante anos.
Ankalaev, Pereira e a atualidade da divisão
Enquanto isso, Ankalaev segue sua trajetória como campeão. A revanche contra Poatan promete ser uma das lutas mais aguardadas do ano, reunindo dois estilos contrastantes: a frieza do russo contra o poder de nocaute explosivo do brasileiro. Para muitos, Ankalaev é favorito justamente por sua consistência técnica, a mesma que lhe permitiu enxergar em Anthony Smith um adversário acessível.
No entanto, há algo que a declaração de Ankalaev talvez ignore: em um esporte como o MMA, a resiliência também é técnica. Anthony Smith pode ter sido sua luta mais “fácil” do ponto de vista estratégico, mas construiu uma carreira longeva em uma das divisões mais duras justamente porque sempre esteve disposto a ir além dos limites. Essa é uma qualidade que poucos têm — e que, em certo sentido, complementa e até desafia a frieza cirúrgica de campeões como Ankalaev.
No fim das contas, o tweet revela mais sobre a confiança do russo do que sobre o valor real de Anthony Smith. Se a resiliência não foi suficiente para superar a elite, ela foi o que manteve Smith relevante em um cenário de altíssimo nível por mais de uma década. E isso, por si só, já garante ao “Lionheart” um lugar de respeito na história do UFC.
(Foto: Getty Images)