Depois de muito esperar, o nome de Archie Gray começou a ganhar força no Tottenham. Antes da chegada de Thomas Frank, era possível ver o meio-campista sendo improvisado em inúmeros locais do gramado, menos em sua posição de origem. Agora, com o dinamarquês no comando, o inglês tem ganhado espaço, e parece ter caído nas graças do atual treinador.
Não é exagero dizer que, enquanto vários jogadores experientes oscilaram, decepcionaram ou passaram meses no Departamento Médico, Archie Gray foi quase um ponto fixo em meio ao caos. O garoto chegou do Leeds com status de promessa cara e valiosa, mas o que veio pela frente não foi exatamente um cenário confortável para desenvolver talento. Pelo contrário: foi jogado no olho de um furacão tático, físico e emocional que transformaria qualquer jovem meia em alguém traumatizado por laterais improvisadas.
Mesmo assim, Archie Gray segurou a bronca. Jogou mais minutos que quase todo mundo, não caiu de rendimento, não desapareceu nos grandes jogos e, acima de tudo, não reclamou de absolutamente nada. A paciência, a maturidade e o profissionalismo dele já eram elogiados internamente, mas agora, finalmente atuando em sua posição original, Gray mostra por que os Spurs gastaram tanto nele. E mostra, também, que talvez Thomas Frank já tenha uma solução para vários dos problemas do time, mesmo que ainda não tenha percebido completamente.
Enquanto Frank continua afirmando que não sabe sua escalação titular ideal, Archie Gray trata de responder dentro de campo.
Uma temporada como uma chave inglesa: servindo pra tudo
Na última temporada, Archie Gray virou praticamente a personificação da “multifunção” do Tottenham. Com o elenco desmontado por lesões, o técnico simplesmente começou a usar o garoto em tudo quanto é posição. Archie Gray foi lateral-direito, zagueiro pela direita, zagueiro pela esquerda, lateral-esquerdo, volante e meia. Se Postecoglou pedisse para ele ser gandula por um jogo, ninguém duvidaria.
E tudo isso com apenas 18 anos na maior parte da temporada.
O resultado: Archie Gray terminou o ano com impressionantes 3.243 minutos e 46 jogos, mais do que muitos veteranos consolidados. Só que, mesmo com tanta utilização, ele não era visto como “titular”. Era o remendo, o tapa-buraco, o sobrevivente de uma defesa exposta que virou recordista negativa, sofrendo 65 gols na Premier League.
E o mais impressionante: Archie Gray nunca reclamou. Não soltou indiretas. Não desmotivou. Ele só jogava. E jogava bem, mesmo carregando responsabilidades que não eram dele.
Finalmente, o meio-campo. Finalmente, Archie Gray
Agora, sob o comando de Thomas Frank, Archie Gray finalmente encontrou o lugar onde sempre deveria ter estado: o meio-campo. E o impacto foi imediato. Com ele no setor, o time saiu da lentidão crônica para algo mais dinâmico, mais vertical e, principalmente, mais interessante.
Archie Gray recebe de costas, consegue girar bem, conduz com qualidade e acelera o jogo, tudo o que o Tottenham vinha sofrendo para fazer com a dupla Rodrigo Bentancur e João Palhinha. Essa dupla é defensivamente forte, claro, mas ofensivamente deixa muito a desejar. Até se falou bastante sobre os Spurs terem uma defesa sólida, porém, preciso de muito mais do que isso para saírem vencedores em seus confrontos.
Palhinha, por exemplo, é espetacular sem a bola, mas extremamente limitado com ela. Já Archie Gray, mesmo não sendo um Toni Kroos da vida, compensa com inteligência e progressão. Seus passes progressivos representam 5.8% do total, melhor que Bentancur e Palhinha, sem esquecer de suas conduções para o ataque, que são as mais frequentes entre os meio-campistas, com 6.8 por jogo.
Quando Archie Gray joga, o Tottenham anda. Literalmente.
O lado agressivo, o lado criativo e o lado decisivo
Archie Gray também aparece no último terço, pisa na área, arrisca. Não é apenas um meio-campista “funcional”: é agressivo, criativo e decisivo. Não vê problema em descer e subir, sem contar que, o fato de se aventurar no ataque, não põe dúvidas na sua capacidade de se recuperar depois.
Foi ele quem criou o lance do gol contra salvador contra o Bodø/Glimt. Foi ele quem serviu a assistência açucarada no improvável gol contra o PSG. E foi ele quem mudou o ritmo do time contra o Slavia Praga, com lançamentos, passes verticais e capacidade de organizar e acelerar o jogo ao mesmo tempo.
Thomas Frank elogiou a postura do time após o duelo contra o PSG, dizendo que aquilo sim representava sua identidade. É impossível olhar para aquele jogo e não destacar a influência de Archie Gray.
O presente e o futuro
A fase mais pesada da temporada está chegando, e Archie Gray surge como uma peça fundamental para dar energia, direção e fluidez ao Tottenham. Thomas Frank ainda diz que não sabe seu XI ideal, mas o meio-campista inglês parece estar escrevendo seu próprio nome nessa lista, jogo após jogo.
Se a proposta é ritmo, progressão e coragem, Archie Gray é hoje quem melhor entrega isso.
E, se continuar assim, a pergunta talvez deixe de ser “qual é a posição ideal de Archie Gray?” para virar “como é que os Spurs jogavam sem Archie Gray antes?”.
Porque, finalmente, o garoto está onde sempre deveria ter estado: no centro do jogo. E no centro do Tottenham.
Foto: HENRY NICHOLLS/GettyImages