Futebol Copa do Mundo

Argentina bate Áustria em jogo que consolidou mais um capítulo histórico de Messi; confira as impressões da partida

A Argentina venceu a Áustria por 2 a 0, garantiu a segunda vitória na Copa do Mundo e ficou muito perto de assegurar a liderança do Grupo J. Mais do que os três pontos e os dois gols de Lionel Messi, a partida em Dallas deixou algumas conclusões importantes para o restante da campanha dos atuais campeões mundiais.

Entre virtudes já conhecidas, problemas que ainda persistem e a inevitável dependência do camisa 10, o confronto ofereceu algumas pistas sobre o que esperar da Albiceleste na sequência do torneio.

Entrosamento e circulação de bola seguem sendo marcas da Argentina

Se existe algo que diferencia a Argentina de boa parte das seleções da Copa, é o nível de entrosamento. A equipe de Lionel Scaloni parece jogar junta há anos, e isso se reflete na forma como ocupa os espaços, troca passes e controla os jogos. Mesmo diante de uma Áustria agressiva e organizada, os argentinos raramente perderam a calma.

Enzo Fernández, Thiago Almada, Julián Álvarez e Messi se movimentaram constantemente, enquanto os laterais ofereciam amplitude e os zagueiros mantinham a saída de bola limpa. A posse argentina não foi estéril. Pelo contrário. Houve circulação rápida, troca de posições e construção paciente para encontrar espaços.

Nem sempre o último passe foi perfeito, mas a fluidez coletiva é evidente. Os jogadores se conhecem, sabem onde cada um estará e conseguem alternar momentos de aceleração e controle sem perder a estrutura. É um time muito confortável jogando junto, algo que continua sendo uma das grandes armas da atual campeã do mundo.

Messi continua escrevendo a história, e o futebol vai sentir sua ausência

Já não existem mais muitos adjetivos disponíveis para definir Lionel Messi. Contra a Áustria, o camisa 10 desperdiçou um pênalti, mas isso não foi suficiente para tirar seu protagonismo. Marcou duas vezes, chegou aos 18 gols em Copas do Mundo e se isolou como maior artilheiro da história do torneio.

Mas o peso da atuação vai além dos números. Messi continua sendo o cérebro da equipe. Quando recua para organizar, a Argentina cresce. Quando acelera, os espaços aparecem. Quando finaliza, quase sempre há perigo.

Mais impressionante é perceber que, aos 39 anos, ele continua sendo o jogador mais decisivo em campo. Não se trata apenas de talento, mas de leitura de jogo, capacidade de decidir e de tornar simples situações complexas.

O futebol inevitavelmente sentirá falta quando Messi decidir encerrar sua carreira. Não apenas a Argentina, mas o esporte como um todo perderá um jogador capaz de transformar qualquer partida em um momento histórico.

A queda física da Argentina pode cobrar um preço alto contra adversários mais fortes

Nem tudo foi perfeito. Depois do pênalti desperdiçado por Messi, a Argentina perdeu intensidade. A pressão diminuiu, o meio-campo passou a cobrir mais espaços e a Áustria cresceu fisicamente na partida.

Durante boa parte do primeiro tempo e em alguns momentos da etapa final, os austríacos conseguiram disputar mais duelos, ganhar segundas bolas e acelerar as transições. A diferença é que faltou qualidade para transformar esse domínio físico em oportunidades reais.

Contra uma seleção mais qualificada, essa queda de intensidade pode se transformar em um problema sério. Equipes como França, Inglaterra ou Espanha dificilmente desperdiçariam tantos espaços oferecidos pela Albiceleste.

A Argentina continua muito organizada, mas a gestão física será fundamental em uma competição curta e desgastante. O elenco é experiente, porém vários jogadores já não possuem a mesma capacidade para sustentar alta intensidade durante os 90 minutos.

Organizada, a Áustria sente falta de mais qualidade perto do gol

Apesar da derrota, a Áustria deixou uma boa impressão. O time de Ralf Rangnick mostrou organização, intensidade e uma pressão pós-perda muito eficiente. Em vários momentos, conseguiu sufocar a saída de bola argentina e disputar a partida em pé de igualdade.

O problema apareceu quando a equipe precisou transformar esse bom comportamento coletivo em produção ofensiva.

A ausência de Christoph Baumgartner foi sentida. Faltou um meia capaz de infiltrar entre as linhas e chegar próximo aos atacantes. Também faltou um centroavante em melhor fase para aproveitar as poucas oportunidades criadas.

A Áustria se mostrou um conjunto competitivo e disciplinado, mas carece daquele jogador capaz de transformar uma boa pressão em chances claras. Contra seleções de primeiro escalão, isso faz toda a diferença.

A dependência de Messi lembra o que a Argentina já viveu em 2022

Talvez a principal reflexão deixada pela partida seja a enorme dependência ofensiva de Lionel Messi.

Os números ajudam a explicar isso. A Argentina produziu 2,65 gols esperados (xG) contra a Áustria, mas 1,88 vieram diretamente das finalizações do camisa 10. O restante do time produziu apenas 0,77 xG. Mais significativo ainda é o dado geral da Copa: os cinco gols argentinos até aqui foram marcados por Messi.

Não é a primeira vez que isso acontece. Em 2022, houve momentos em que a seleção também viveu uma “Messidependência”, até que Julián Álvarez, Enzo Fernández, Mac Allister e outros jogadores cresceram no mata-mata e dividiram o protagonismo.

Em 2026, a situação volta a aparecer. Lautaro Martínez ainda não vive grande fase nas finalizações, Julián participa muito da construção, mas chega menos para concluir, e os meias têm criado mais do que finalizado.

Enquanto Messi continuar decidindo, o problema ficará em segundo plano. Mas é difícil imaginar uma campanha inteira sustentada exclusivamente pelo camisa 10. Em algum momento, a Argentina precisará que outros jogadores assumam protagonismo.

Por enquanto, Messi continua resolvendo. E talvez isso seja suficiente. Mas o restante da seleção precisará aparecer mais se a Albiceleste quiser chegar novamente ao último domingo da Copa do Mundo.

(Foto: Getty Images)