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Futebol Premier League

Arne Slot e os erros que levaram à sua demissão no Liverpool

Assumir o Liverpool depois da era de Jürgen Klopp sempre seria uma tarefa complexa. O treinador alemão não deixou apenas títulos em Anfield. Deixou uma identidade clara, um estilo de jogo reconhecível e uma conexão rara com a torcida. Arne Slot chegou cercado de expectativas após conquistar a Premier League logo em sua primeira temporada, mas o que parecia o início de uma nova era transformou-se rapidamente em uma história de desgaste, erros de planejamento e perda de identidade.

A demissão do treinador após uma decepcionante quinta colocação na Premier League não pode ser explicada por um único fator. Ela é resultado de uma série de decisões que, somadas, desmontaram as bases que sustentavam o Liverpool competitivo dos últimos anos. Entre problemas de mercado, conflitos internos e dificuldades para adaptar o elenco, Slot viu seu projeto desmoronar gradualmente.

Os erros que levaram à demissão de Slot

O primeiro grande erro foi subestimar o impacto da saída de Trent Alexander-Arnold. Durante anos, o lateral foi muito mais do que um defensor. Era um dos principais organizadores ofensivos da equipe, responsável por acelerar transições, criar chances e controlar o ritmo das partidas a partir de uma posição pouco convencional. Sua transferência para o Real Madrid deixou um vazio que o clube nunca conseguiu preencher adequadamente.

A contratação de Jeremie Frimpong parecia interessante no papel, mas não solucionava o problema estrutural. O holandês era um jogador acostumado a atuar como ala em sistemas de três zagueiros, com características completamente diferentes das de Alexander-Arnold. Quando os problemas físicos apareceram e limitaram sua participação, ficou evidente que o Liverpool havia perdido uma peça única sem possuir um plano claro para substituí-la. As improvisações posteriores apenas reforçaram essa percepção.

Outro ponto decisivo foi a venda de Luis Díaz. O colombiano viveu seu melhor momento com a chegada de Slot e foi um dos protagonistas da campanha que terminou com o título inglês. Quando o Bayern de Munique apresentou uma proposta milionária, a diretoria enxergou uma oportunidade de mercado. O problema não foi a venda em si, mas a ausência de reposição.

A aposta em Cody Gakpo como sucessor natural revelou-se equivocada. O holandês atravessou uma temporada irregular e nunca conseguiu oferecer o mesmo nível de intensidade, profundidade e capacidade de desequilíbrio. Ao mesmo tempo, Rio Ngumoha ainda estava em fase de desenvolvimento e não poderia carregar a responsabilidade de substituir um jogador consolidado. O contraste ficou ainda mais evidente quando Díaz brilhou na Alemanha, acumulando números impressionantes e consolidando-se como um dos jogadores mais produtivos do futebol europeu.

Se a saída de Díaz enfraqueceu o setor ofensivo, a contratação de Alexander Isak representou um investimento que nunca entregou o retorno esperado. O atacante chegou por um valor recorde, cercado de expectativas, mas os problemas físicos que já marcavam sua carreira continuaram a aparecer. A falta de sequência impediu que ele encontrasse ritmo, e a grave lesão sofrida durante a temporada acabou comprometendo boa parte dos planos do Liverpool.

A situação ficou ainda mais complicada porque Hugo Ekitike, que havia começado o ano em grande forma, também sofreu com lesões. O resultado foi um ataque constantemente desfalcado, incapaz de manter regularidade em um campeonato que exige consistência ao longo de dez meses.

Os problemas com Salah foram a gota d’água

No entanto, talvez nenhum episódio tenha simbolizado tão bem o desgaste de Slot quanto sua relação com Mohamed Salah. O egípcio não atravessava seu melhor momento técnico, e a decisão de colocá-lo no banco poderia ser defendida sob o aspecto esportivo. O problema foi a maneira como a situação se desenvolveu.

Salah sempre representou muito mais do que um jogador para o Liverpool. Ele é um dos maiores ídolos da história recente do clube. Quando o atacante passou a demonstrar publicamente sua insatisfação, a torcida naturalmente se posicionou ao lado do craque. A partir daquele momento, Slot deixou de enfrentar apenas uma crise de resultados. Passou a enfrentar também uma crise de liderança.

As declarações posteriores de Salah, cobrando um retorno ao chamado “heavy metal football” popularizado por Klopp, evidenciaram um choque de visões sobre o que o Liverpool deveria ser. Para muitos torcedores, Slot nunca conseguiu construir uma identidade própria suficientemente forte para substituir a que existia anteriormente.

Os resultados em campo apenas ampliaram a pressão. Derrotas em Anfield para equipes teoricamente inferiores, como Nottingham Forest e PSV, levantaram dúvidas sobre a competitividade da equipe. Perder faz parte do futebol, mas a maneira como essas derrotas aconteceram foi o que mais preocupou. Em vários momentos, o Liverpool parecia sem reação, incapaz de controlar partidas ou impor seu estilo diante de adversários menos qualificados.

A eliminação na FA Cup diante do Manchester City também teve peso grande. Em uma temporada em que o título da Premier League escapou cedo, os copos nacionais surgiam como oportunidade de redenção. Em vez disso, o Liverpool foi dominado e expôs novamente fragilidades defensivas e dificuldades de criação.

Talvez o aspecto mais preocupante tenha sido a desconexão crescente entre o treinador e os torcedores. Isso ficou evidente quando Anfield reagiu com vaias à substituição do jovem Rio Ngumoha contra o Chelsea. A manifestação não era apenas sobre uma troca específica. Era uma demonstração pública de insatisfação acumulada durante meses.

Quando uma torcida deixa de acreditar nas decisões do treinador, o processo costuma se tornar irreversível. E foi exatamente isso que aconteceu. Mesmo explicando posteriormente que o próprio jogador havia pedido para sair por questões físicas, Slot já não possuía mais o benefício da dúvida.

No fim das contas, a queda de Arne Slot não aconteceu apenas porque o Liverpool terminou em quinto lugar. Ela ocorreu porque o clube perdeu características que o tornaram uma potência europeia durante a última década. A equipe já não pressionava como antes, não atacava com a mesma agressividade e tampouco transmitia a sensação de que possuía um plano claro para voltar ao topo com Slot.

O Liverpool de Klopp podia vencer ou perder, mas sempre sabia exatamente quem era. O Liverpool de Slot passou a temporada inteira tentando descobrir isso. Quando chegou ao fim, nem o treinador, nem os jogadores, nem a torcida pareciam ter encontrado a resposta.

(Foto: Getty Images)