Mikel Arteta, Arsenal. Foto: Glyn Kirk/AFP via Getty Images
Futebol Premier League

Arsenal precisa provar que a força do elenco vai além dos titulares após derrota para o Brighton

O Arsenal começou a temporada 2026-27 com a aparência de uma equipe pronta para transformar sua regularidade em uma campanha consistente ao título da Premier League. Quatro vitórias nas primeiras rodadas do campeonato, somadas a outros três triunfos nas diferentes competições, reforçaram a sensação de que o time de Mikel Arteta havia encontrado um nível de estabilidade capaz de sustentá-lo mesmo diante de adversários difíceis. A derrota por 3 a 0 para o Brighton, no entanto, interrompeu esse embalo de maneira abrupta e abriu espaço para uma sequência de preocupações que se tornaram ainda maiores durante a Data Fifa.

Além do desempenho muito abaixo do esperado no sul da Inglaterra, os Gunners viram três jogadores importantes apresentarem problemas físicos durante o período internacional. Kai Havertz e Christos Tzolis sofreram lesões musculares que podem afastá-los por várias semanas, enquanto Ezri Konsa deixou a concentração da seleção inglesa depois de sofrer uma pancada no treinamento. Em um intervalo relativamente curto, o Arsenal passou da condição de equipe que parecia difícil de parar para uma situação em que precisa reorganizar setores importantes da escalação justamente depois de sua pior atuação em anos.

O cenário preocupa, mas também oferece uma oportunidade para avaliar o verdadeiro tamanho do elenco montado por Arteta. A profundidade do grupo não foi construída apenas para permitir rotações em partidas de menor importância, mas para manter a competitividade quando os titulares não estiverem disponíveis. Agora, com a sequência contra Leeds, Lille e Nottingham Forest pela frente, o Arsenal terá de demonstrar que os investimentos e o planejamento das últimas temporadas produziram alternativas capazes de sustentar o nível da equipe mesmo diante de adversidades simultâneas.

A derrota para o Brighton interrompeu uma sequência que parecia consolidar o Arsenal

O resultado em Brighton foi mais importante do que uma derrota isolada na quinta rodada da Premier League. O Arsenal não conseguiu acompanhar a intensidade da pressão adversária, teve dificuldades para sair jogando e passou boa parte do confronto reagindo aos movimentos de uma equipe que soube explorar suas fragilidades. O placar de 3 a 0 traduziu uma superioridade que foi além da eficiência nas finalizações, expondo problemas na organização e na capacidade dos londrinos de controlar o ritmo da partida.

Foi a derrota mais pesada do Arsenal em qualquer competição em mais de três anos, repetindo justamente o placar do último revés por três ou mais gols de diferença, também contra o Brighton, em maio de 2023. A coincidência chama a atenção, mas o dado mais importante está na frequência com que esse tipo de resultado aconteceu desde então. Em suas 158 partidas anteriores em todas as competições, o Arsenal havia sofrido três gols em apenas uma ocasião, o que ajuda a dimensionar o quanto a atuação recente destoou do padrão defensivo estabelecido pela equipe.

A derrota também encerrou uma sequência de 16 jogos sem perder em todas as competições. Embora nenhuma equipe consiga atravessar uma temporada inteira sem tropeços, a maneira como o Arsenal foi superado tornou o resultado especialmente incômodo. O Brighton não apenas aproveitou algumas oportunidades, mas conseguiu impor seu estilo de jogo e dificultar a construção de uma equipe que normalmente encontra soluções para escapar da pressão e estabelecer seu domínio territorial.

Essa diferença entre perder e ser dominado é importante para entender o momento dos Gunners. Uma derrota apertada poderia ser explicada por uma finalização desperdiçada, uma falha individual ou uma circunstância específica. Contra o Brighton, no entanto, o Arsenal teve dificuldades estruturais para responder à intensidade do adversário. A equipe não conseguiu encontrar estabilidade durante o confronto e terminou exposta em um nível incomum para um time que vinha sendo reconhecido pela consistência.

Ainda assim, seria precipitado transformar uma atuação ruim em uma conclusão definitiva sobre a capacidade do Arsenal de disputar o título. Desde o início de 2024, o clube perdeu duas partidas consecutivas de Premier League em apenas uma ocasião, contra Bournemouth e Manchester City, em abril daquele ano, enquanto o Manchester City acumulou três sequências de derrotas consecutivas no campeonato durante o mesmo período. A estatística não garante uma reação imediata, mas demonstra que Arteta construiu uma equipe acostumada a responder depois de resultados negativos.

A questão agora é saber se essa capacidade de recuperação será suficiente para superar uma adversidade diferente. Desta vez, o Arsenal não precisa apenas corrigir erros táticos e recuperar a confiança. Também terá de lidar com possíveis ausências de jogadores importantes, o que torna a profundidade do elenco uma parte central da resposta.

Gyökeres ganha uma oportunidade importante para responder às críticas

Entre os jogadores que podem se beneficiar diretamente das mudanças na escalação, Viktor Gyökeres aparece como um dos nomes mais importantes. Com a possível ausência de Havertz, o atacante sueco surge como a alternativa natural para assumir a referência ofensiva e liderar o ataque nas próximas partidas. O momento também oferece a ele uma oportunidade de responder às críticas que acompanharam seu início no Arsenal, especialmente diante das expectativas criadas pelo investimento realizado em sua contratação.

Gyökeres ainda não conseguiu convencer todos os torcedores de que corresponde integralmente ao valor pago por seus serviços. Em alguns momentos, demonstrou dificuldades para participar do funcionamento coletivo da equipe, e suas atuações passaram a ser avaliadas com uma cobrança proporcional ao tamanho da expectativa. Isso não significa, porém, que sua passagem pelo clube tenha sido improdutiva ou que ele não possua condições de assumir uma função importante no time.

Na temporada anterior, o sueco marcou pelo menos 20 gols em todas as competições durante seu primeiro ano no Arsenal, tornando-se o primeiro jogador do clube a alcançar esse número em uma temporada de estreia desde Alexis Sánchez, que marcou 25 gols em 2014-15. Na era da Premier League, apenas Thierry Henry também havia conseguido atingir a marca em seu primeiro ano pelo clube, com 26 gols em 1999-2000. São referências históricas relevantes para compreender que, apesar das oscilações, Gyökeres já demonstrou capacidade de produzir resultados concretos.

O atacante também chega da Data Fifa em boa condição de confiança, depois de marcar nas quatro partidas da seleção sueca pela Liga das Nações. A sequência pode ajudá-lo a encontrar ritmo justamente no momento em que Arteta mais precisa de uma resposta ofensiva. Com Havertz potencialmente afastado por várias semanas, o sueco deve receber minutos e responsabilidades que talvez não estivessem inicialmente previstos para esta fase da temporada.

O confronto contra o Leeds oferece uma oportunidade. Gyökeres marcou três gols contra o adversário, mais do que contra qualquer outra equipe da Premier League, e participou da vitória por 5 a 0 no Emirates Stadium na temporada passada, quando marcou seus primeiros gols pelo Arsenal. Os Gunners também venceram os últimos sete encontros entre as equipes no campeonato, com um agregado de 24 a 5, um histórico que reforça a possibilidade de uma recuperação imediata.

Naturalmente, os números anteriores não garantem que o atacante repetirá o desempenho, sobretudo porque o Leeds iniciou a temporada de maneira competitiva e está entre as equipes que ainda não perderam. Mesmo assim, o contexto é favorável para que Gyökeres mostre que pode ser mais do que uma alternativa emergencial. Em um calendário que exige rotação e capacidade de adaptação, o Arsenal precisa de um centroavante que não dependa exclusivamente da presença de Havertz para produzir gols e participar do jogo coletivo.

Mosquera representa a segurança defensiva que Arteta construiu no elenco

Na defesa, a possível ausência de Konsa também coloca em evidência a importância de Cristhian Mosquera. O espanhol chegou ao Arsenal para ampliar as alternativas de Arteta no setor e já demonstrou que pode assumir responsabilidades importantes mesmo em uma fase inicial de sua trajetória pelo clube. Caso o problema físico de Konsa o impeça de atuar, Mosquera surge como o candidato mais natural para ocupar a vaga.

O defensor começou a temporada como titular nas duas primeiras partidas da equipe, que terminou ambos os jogos sem sofrer gols, antes de se lesionar durante o confronto contra o Aston Villa. Agora recuperado e de volta aos treinamentos, ele tem a oportunidade de retomar espaço em um momento no qual a defesa precisa de estabilidade. A ausência prolongada de William Saliba já havia exigido adaptações na linha defensiva, e a possibilidade de perder Konsa aumenta a importância de contar com jogadores capazes de entrar sem provocar uma queda significativa de rendimento.

Os números de Mosquera ajudam a explicar por que sua presença dá tranquilidade. Desde que chegou ao clube, o espanhol registrou uma taxa de sucesso de 71,1% em desarmes ajustados pelo critério de contato com a bola, ficando atrás apenas de Saliba, com 74,5%, entre os jogadores do Arsenal. A métrica considera não apenas as ações em que o defensor tira a posse do adversário, mas também aquelas em que consegue tocar na bola durante o desarme, mesmo que o oponente continue com ela.

O indicador mostra a habilidade de Mosquera no um contra um. Em uma equipe que frequentemente precisa defender com a linha relativamente alta e controlar espaços amplos nas costas dos meio-campistas, a habilidade de vencer duelos e interromper progressões adversárias é especialmente importante. O Arsenal não pode depender apenas de posicionamento coletivo; seus defensores também precisam ser capazes de resolver situações em que ficam expostos diante de atacantes em velocidade.

A possibilidade de utilizar Mosquera como alternativa a Konsa mostra que o planejamento defensivo do Arsenal não depende exclusivamente de uma dupla titular. Saliba continua sendo uma referência, mas a presença de outros jogadores com características semelhantes oferece a Arteta condições de preservar a estrutura da equipe mesmo quando precisa modificar a escalação. Essa profundidade é particularmente valiosa em uma temporada que combina a exigência da Premier League com compromissos continentais e outras competições.

A questão será verificar se Mosquera conseguirá manter o mesmo nível quando enfrentar adversários que pressionem a saída de bola e explorem os espaços deixados pela defesa. A derrota para o Brighton mostrou que o Arsenal pode sofrer quando não consegue controlar a intensidade do jogo. Por isso, a resposta defensiva não dependerá apenas do desempenho individual dos zagueiros, mas também da capacidade coletiva de recuperar a organização e proteger a área.

Eze precisa transformar talento individual em influência constante

Se Gyökeres tem a missão de substituir Havertz e Mosquera pode ocupar a vaga de Konsa, a situação de Christos Tzolis representa talvez o desafio mais delicado para Arteta. O grego havia começado a temporada em excelente nível e rapidamente conquistou espaço como titular pelo lado esquerdo do ataque, ajudando a amenizar a frustração pela tentativa frustrada de contratar nomes de maior projeção, como Morgan Rogers e Vinícius Júnior. Sua possível ausência por várias semanas, portanto, retira da equipe um jogador que havia conseguido preencher uma necessidade importante.

A alternativa mais provável é Eberechi Eze, que vinha alternando participações como reserva na Premier League com oportunidades como titular em partidas de outras competições. O inglês possui características capazes de reproduzir parte da contribuição de Tzolis, principalmente pela habilidade de conduzir a bola e superar adversários em espaços reduzidos. O problema é que ainda não conseguiu demonstrar essa qualidade com regularidade suficiente para se consolidar como uma peça indispensável no funcionamento ofensivo do Arsenal.

Eze oferece um perfil diferente do grego. Enquanto Tzolis costuma optar por decisões mais seguras quando recebe a bola, o inglês tende a buscar mais o drible e a progressão individual. Os dois estão empatados na liderança do elenco pela distância média percorrida em conduções nesta temporada, com 13 metros, mas Eze apresenta uma frequência maior de tentativas de drible. São 4,3 por 90 minutos em todas as competições, número superior aos 1,8 de Tzolis e atrás apenas de Max Dowman, com 7,3, e Noni Madueke, com 5,6.

Essa diferença pode ser importante para um Arsenal que precisará encontrar maneiras de avançar sem contar com uma de suas principais opções pelo lado esquerdo. Eze pode carregar a bola por distâncias maiores, romper linhas e criar situações de superioridade numérica, oferecendo uma alternativa quando a circulação coletiva não for suficiente para desmontar a defesa adversária. Em partidas nas quais o rival consegue bloquear os espaços centrais, esse tipo de capacidade individual pode mudar o ritmo de um ataque.

No entanto, existe uma diferença entre possuir ferramentas técnicas e utilizá-las de maneira consistente. Eze já apresentou lampejos de qualidade, especialmente em jogos contra o Tottenham, mas ainda precisa ampliar sua influência sobre as partidas. O desempenho pela seleção inglesa durante a Data Fifa também deixou uma impressão mista: ele atuou durante os 90 minutos contra a República Tcheca, mas não demonstrou a mesma capacidade de aceleração e ameaça ofensiva que Anthony Gordon vinha apresentando.

O Arsenal precisará de uma versão mais confiante do jogador nas próximas semanas. Com Tzolis potencialmente fora de ação, Eze deve receber uma sequência de oportunidades que pode mudar sua posição dentro do elenco. Em vez de ser apenas uma alternativa para determinadas circunstâncias, ele terá a chance de provar que consegue assumir a responsabilidade de iniciar partidas importantes e produzir impacto de maneira constante.

É justamente esse tipo de resposta que diferencia um elenco numeroso de um elenco realmente profundo. Ter jogadores capazes de ocupar a mesma posição é importante, mas o verdadeiro valor das alternativas aparece quando elas conseguem preservar o funcionamento coletivo e, em alguns casos, oferecer características diferentes que tornam a equipe menos previsível.

A profundidade do elenco precisa aparecer quando o calendário aperta

A sequência de acontecimentos depois da derrota para o Brighton interrompeu a sensação de estabilidade que acompanhava o Arsenal desde o início da temporada. O time perdeu de maneira contundente, viu jogadores importantes sofrerem problemas físicos e agora precisa reorganizar sua escalação para uma série de compromissos que pode influenciar a construção de confiança ao longo das próximas semanas. É um teste importante para Arteta, mas também para um projeto que passou anos tentando reduzir a dependência de um grupo restrito de titulares.

A profundidade do elenco é frequentemente tratada como uma vantagem que não dá para ver, especialmente durante o mercado de transferências, quando clubes acumulam opções para diferentes posições. Seu valor real, porém, só aparece em momentos como este. Quando Havertz, Tzolis e possivelmente Konsa ficam indisponíveis, não basta apontar os nomes que podem substituí-los. É necessário que esses jogadores consigam entrar em campo e preservar o nível de competitividade de uma equipe que pretende disputar o título.

O Arsenal possui motivos para acreditar que isso é possível. Gyökeres já demonstrou capacidade de marcar gols em volume, Mosquera apresentou números defensivos promissores e Eze dispõe de recursos técnicos para oferecer uma alternativa de progressão ofensiva. Nenhum deles precisa reproduzir exatamente o que o titular ausente fazia. O mais importante será que Arteta consiga ajustar o funcionamento coletivo para aproveitar as características de cada substituto sem perder o equilíbrio que sustentou a equipe nos últimos meses.