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Futebol Premier League

Arsenal pode quebrar recorde histórico de Mourinho? Defesa de Arteta ameaça marca de 15 gols sofridos na Premier League 2004/05

Em uma era marcada pelo avanço da ciência esportiva, da análise de desempenho e de uma busca quase obsessiva pela eficiência tática, poucos recordes do futebol moderno ainda parecem inalcançáveis. Um deles, no entanto, resiste há duas décadas: a campanha defensiva quase perfeita do Chelsea de José Mourinho em 2004/05, que terminou a Premier League com apenas 15 gols sofridos em 38 rodadas — um feito que muitos acreditavam ser impossível de repetir.

Mas, 20 anos depois, um novo candidato surge para desafiar essa marca: o Arsenal de Mikel Arteta, que, após oito rodadas na temporada 2025/26, exibe uma solidez defensiva raramente vista na história recente da liga.

Os Gunners sofreram apenas três gols em oito jogos, o que representa uma média de 0,38 por partida. Mantido esse ritmo, o time terminaria o campeonato com cerca de 14,4 gols sofridos, superando a lendária barreira dos 15 e estabelecendo um novo parâmetro de excelência defensiva na Premier League.

A muralha de Arteta: estrutura, consistência e controle

O sucesso defensivo do Arsenal não é fruto do acaso. Desde sua chegada em 2019, Mikel Arteta vem lapidando um modelo de jogo baseado em controle, compactação e intensidade coletiva. Se nas primeiras temporadas a equipe mostrava oscilações e certa fragilidade, hoje o sistema é um dos mais sofisticados da Europa.

O coração dessa muralha do Arsenal está na dupla de zaga formada por Gabriel Magalhães e William Saliba — dois defensores em plena sintonia. Juntos, eles disputaram seis das oito partidas do campeonato e têm sido a base de um sistema que concede pouquíssimas oportunidades claras aos adversários. Quando um deles não pôde atuar, o jovem Cristhian Mosquera, de 21 anos, entrou sem comprometer o padrão defensivo, mostrando que o elenco foi montado com profundidade e coerência.

Nas laterais, Riccardo Calafiori e Jurriën Timber completam a linha defensiva com um equilíbrio raro entre força física e leitura tática. Timber, recuperado de uma grave lesão, parece ainda mais maduro, enquanto Calafiori rapidamente se adaptou ao ritmo da Premier League e se tornou uma peça essencial na construção de jogadas desde o campo defensivo.

No gol, David Raya vive talvez o melhor momento da carreira. Seguro com os pés e decisivo nas poucas vezes em que é exigido, o espanhol trouxe calma e precisão à saída de bola — elemento-chave no estilo de posse dominante de Arteta.

Mais do que números frios, o Arsenal demonstra autoridade territorial. De acordo com dados de performance, os londrinos estão entre os líderes das cinco principais ligas europeias em menor número de finalizações sofridas e em xG contra (expected goals conceded). Além disso, a maioria dos chutes cedidos vêm de fora da área, o que demonstra o nível de controle dentro da zona crítica — o espaço de seis jardas que, tradicionalmente, define os jogos de elite.

O fantasma de Mourinho e a lição de 1999

A temporada 2004/05 do Chelsea permanece um marco na história do futebol inglês. Sob o comando de José Mourinho, os Blues combinaram uma disciplina tática quase militar com uma estrutura coletiva de rara solidez. Petr Čech, John Terry, Ricardo Carvalho e Claude Makélélé formavam um eixo defensivo quase impenetrável.

Nem mesmo os grandes times que vieram depois — como o Manchester United de 2007/08, o Liverpool de 2018/19 ou o próprio Chelsea de 2005/06 — conseguiram chegar tão perto do número mágico dos 15 gols sofridos. Todos ficaram, no mínimo, sete gols acima.

O Arsenal, porém, mostra um equilíbrio que vai além da simples defesa. A equipe atual não apenas protege bem sua área, como mantém a posse e pressiona alto, reduzindo o tempo de ataque adversário. Em outras palavras, defende-se com a bola — um princípio que Mourinho, com seu estilo mais reativo, raramente utilizava.

Há também uma lição interna no passado dos Gunners. Em 1998/99, o time de Arsène Wenger sofreu apenas 17 gols — a segunda melhor marca da era Premier League —, mas perdeu o título para o Manchester United. O problema, naquela época, não era o sistema defensivo, e sim a falta de poder ofensivo: o Arsenal marcou apenas 59 gols, 21 a menos que os campeões.

Desta vez, o cenário é diferente. Mesmo sem estar em sua melhor forma, o time de Arteta já soma 15 gols marcados em oito partidas, com um xG (expectativa de gols) de 14,1, o quarto melhor da liga. O ataque, portanto, está longe de ser um problema — ainda mais considerando que o treinador tem lidado com ausências importantes.

O ataque ainda pode evoluir — e isso torna o Arsenal mais perigoso

Se a defesa brilha, o ataque ainda tem espaço para crescer. Martin Ødegaard, Noni Madueke e Kai Havertz perderam jogos por lesão, enquanto o centroavante Viktor Gyökeres, principal contratação da temporada, ainda busca adaptação completa ao ritmo da Premier League. Bukayo Saka, por sua vez, também passou um breve período fora dos gramados.

Mesmo assim, o Arsenal tem criado o suficiente para vencer, e sua estrutura coletiva permite que o time não dependa exclusivamente de individualidades. O retorno de todos esses nomes promete elevar o nível ofensivo e transformar o equilíbrio defensivo em uma verdadeira plataforma para o título.

Quebrar o recorde de 15 gols sofridos é uma tarefa quase mitológica, mas o Arsenal de 2025/26 está mais perto do que qualquer outro time chegou nos últimos 20 anos. Mikel Arteta construiu uma equipe que alia disciplina, versatilidade e um senso de controle raramente visto — e que, se mantiver a consistência, não apenas entrará para a história, mas também consolidará um modelo moderno de excelência defensiva.

O recorde de Mourinho parecia intocável. Hoje, o Arsenal mostra que, com ciência, paciência e filosofia, até as marcas mais lendárias podem ser ameaçadas.

Foto: Julian Finney/Getty Images