O UFC sempre foi marcado por símbolos de poder. Durante boa parte de sua história, esse poder esteve diretamente associado a campeões estadunidenses, que dominaram divisões e se tornaram embaixadores do MMA global. De Randy Couture a Jon Jones, passando por Matt Hughes, Chuck Liddell e Daniel Cormier, os Estados Unidos consolidaram uma era de hegemonia. No entanto, essa realidade mudou.
Atualmente, não há nenhum campeão masculino estadunidense no maior palco do esporte. A única representante do país com cinturão é Kayla Harrison, nos pesos-pena femininos, recém-chegada à organização. Enquanto isso, o topo das divisões masculinas é ocupado por nomes da Rússia, do Cáucaso, da América Latina e da Oceania.
Diante desse cenário, Islam Makhachev, ex-campeão peso-leve e atual desafiante nos meio-médios, ofereceu uma explicação que transcende o aspecto puramente técnico: segundo ele, a diferença está na mentalidade e na forma como lutadores de regiões como Daguestão e Chechênia encaram o esporte.
A responsabilidade como combustível
Em entrevista, Makhachev foi direto: “No nosso caso, atrás do lutador está a família, a cidade, a república inteira. Esse peso da responsabilidade faz com que a gente entre para vencer.”
A fala revela uma dimensão cultural que vai além da preparação atlética. Para lutadores do Cáucaso, o MMA não é apenas uma profissão ou um meio de vida. É um pilar de identidade coletiva, um caminho para honrar tradições e, muitas vezes, escapar de contextos sociais marcados por dificuldades econômicas e políticas. Essa noção de representar algo maior que si mesmo cria uma carga de motivação que se reflete dentro do octógono.
Nos Estados Unidos, por outro lado, a abundância de oportunidades no esporte profissional pode gerar uma relação diferente com o MMA. Não é raro que atletas estadunidenses migrem do wrestling universitário ou de outros esportes buscando carreiras no UFC, mas sem a mesma pressão cultural ou familiar para transformar cada luta em uma questão de honra.
O fator organizacional: recrutamento global e novos polos de poder
Outro ponto levantado por Makhachev diz respeito ao processo de contratação do UFC. Ele afirma que a organização passou a abrir mais espaço para lutadores de regiões como o Cáucaso, o que inevitavelmente mudou o mapa competitivo. De fato, nos últimos anos, Dana White e seus matchmakers investiram pesado em talentos da Rússia, da Geórgia, da América do Sul e da África.
Esse movimento responde não apenas a critérios esportivos, mas também de mercado: a internacionalização do UFC é estratégica. Expandir-se para novos públicos requer heróis locais, e nada fortalece mais uma base de fãs do que ver alguém de sua região conquistar o cinturão. Assim, surgiram campeões como Kamaru Usman (Nigéria/EUA), Alex Pereira (Brasil), Alexander Volkanovski (Austrália) e Ilia Topuria (Espanha/Geórgia).
O resultado é que os Estados Unidos, que antes eram o centro quase exclusivo do talento de elite, agora dividem espaço com um leque muito mais diverso de países.
A lição de Makhachev: lutar e vender
Curiosamente, Makhachev não se limita a destacar a responsabilidade como fator de sucesso. Ele também reconhece a necessidade de aprender inglês e dominar o jogo promocional. Segundo ele, os lutadores do Cáucaso precisam se adaptar à lógica do entretenimento que move o UFC. “Temos que vender eventos ao vivo e ser interessantes para o público”, disse.
Essa observação aponta para outro contraste com os americanos. Se os EUA perderam espaço dentro do octógono, ainda dominam no aspecto do marketing e da autopromoção. Nomes como Conor McGregor, mesmo não sendo americano, aprenderam essa lição e redefiniram a forma de construir carreiras no UFC.
O desafio para os atletas do Cáucaso é equilibrar o foco na luta com a habilidade de se comunicar globalmente — algo que pode potencializar ainda mais sua ascensão.
É tentador interpretar a ausência de campeões americanos como um sinal de decadência. Mas talvez seja mais correto falar em transformação estrutural do esporte. O MMA se tornou um fenômeno global. O UFC, antes um palco dominado por norte-americanos, agora é um mosaico multicultural.
Nesse novo cenário do UFC, os Estados Unidos continuam relevantes, mas já não têm o monopólio técnico nem simbólico. O wrestling universitário segue sendo uma fonte rica de talentos, mas a pressão social e a identidade coletiva que movem lutadores do Cáucaso, do Brasil ou da África adicionaram camadas que mudaram o equilíbrio de forças.
(Foto: Getty Images)